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discurssao

 

JULIANE VARGAS

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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA 
FACULDADE DE EDUCAÇÃO 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO 
MESTRADO PROFISSIONAL 
 
 
JULIANE VARGAS 
 
 
 
 
 
 
A RELAÇÃO ENTRE A OFERTA E DEMANDA DE CURSO TÉCNICO DE 
NÍVEL MÉDIO SUBSEQUENTE: UM ESTUDO SOBRE O CURSO DE PESCA 
DO INSTITUTO FEDERAL DO CEARÁ, CAMPUS ACARAÚ 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Brasília 
2016 
 
 
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JULIANE VARGAS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A RELAÇÃO ENTRE A OFERTA E DEMANDA DE CURSO TÉCNICO DE 
NÍVEL MÉDIO SUBSEQUENTE: UM ESTUDO SOBRE O CURSO DE PESCA 
DO INSTITUTO FEDERAL DO CEARÁ, CAMPUS ACARAÚ 
 
Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação 
em  Educação  Profissional  da  Faculdade  de  Educação  da 
Universidade de Brasília, como parte dos requisitos para 
obtenção  do  título  de  Mestre  em  Educação  na  área  de 
Políticas  Públicas  e  Gestão  da  Educação  Profissional  e 
Tecnológica. 
Orientador: Prof. Dr. Bernardo Kipnis 
 
 
 
 
 
 
Brasília 
2016 
 
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Ficha catalográfica elaborada automaticamente, 
com os dados fornecidos pelo(a) autor(a) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Vargas, Juliane 
A relação entre a oferta e demanda de curso técnico 
de nível médio subsequente: um estudo sobre o Curso de 
Pesca do Instituto Federal do Ceará, campus Acaraú \ 
Juliane Vargas; orientador Bernardo Kipnis. 
 Brasília, DF, 
2016. 
131 f.: il. color. 30cm. 
Dissertação (Mestrado em Educação) 
 
Universidade de Brasília, Faculdade de Educação, 
Brasília, DF, 2016. 
 
1. Ensino Técnico. 2. Políticas Públicas. 3. Pesca.  I. 
Kipnis, Bernardo, orient. II. Título. 
                                                        
V297
r     
 
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Universidade de Brasília 
Faculdade de Educação 
Programa de Pós-Graduação em Educação 
Dissertação de Mestrado 
 
 
JULIANE VARGAS 
 
A RELAÇÃO ENTRE A OFERTA E DEMANDA DE CURSO TÉCNICO DE NÍVEL 
MÉDIO SUBSEQUENTE: UM ESTUDO SOBRE O CURSO DE PESCA DO 
INSTITUTO FEDERAL DO CEARÁ, CAMPUS ACARAÚ 
 
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação 
Profissional da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, como parte dos 
requisitos para obtenção do título de Mestre em Educação. 
Orientador: Prof. Dr. Bernardo Kipnis 
Banca examinadora: 
_______________________________________________________ 
Prof. Dr. Bernardo Kipnis (Orientador) 
Faculdade de Educação – FE/UnB 
_______________________________________________________ 
Prof. Dra. Maria da Conceição da Silva Freitas (Membro Interno) 
Departamento de Teoria de Fundamentos – SER/UnB 
_______________________________________________________ 
Prof. Dr. André Godim do Rego (Membro Externo) 
Instituto Federal de Brasília 
_______________________________________________________ 
Prof. Dr. Remi Castione (Suplente) 
 
Faculdade de Educação – FE/UnB 
Aprovado em ____/_____/_____ 
 
 
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DEDICATÓRIA 
 
 
Dedico este trabalho ao meu pai, Mauro Vargas, e à minha saudosa avó materna, 
Opracínia  Korneiczuk.  Com  ambos,  desde  a  infância,  compartilhei  o  prazer  de  várias 
pescarias.  Ao  lado  de  meu  pai,  muitas  coisas  ditas  e  apaziguadas  por  meio  de  um 
diálogo silencioso. Com a minha avó, aprendi que pescar não requer apenas técnica. É 
preciso  alegria  e  bom  ânimo.  Talvez  por  isso,  não  raras  vezes,  eu  tenha  voltado  para 
casa sem nenhum peixe e minha avó com vários quilos, apesar de sempre ter me sentado 
a menos de um metro dela ... 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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AGRADECIMENTOS 
 
À  minha  mãe,  Neusa  Korneiczuk  Vargas,  pelo  amor  incondicional  e  pelas 
orações  que  me  sustentaram  nesse  percurso  e  ao  meu  querido  irmão,  Fabiano  Vargas, 
pelo apoio e presença sempre constante. 
Ao  meu  companheiro  de  estrada  e  de  sonhos,  Carlo  Arena,  pelo  carinho, 
estímulo, apoio e compreensão nos momentos de pressão e estresse. Ti voglio bene ... 
Ao  meu  orientador  Bernardo  Kipnis,  pela  paciência  e  zelosa  orientação. 
Obrigada por me ajudar a concretizar esse sonho. Foi uma honra, professor. 
À  Vania  Maria  Moraes  Ferreira,  minha  gratidão  e  afeto  pela  presença  nos 
momentos cruciais de minha trajetória acadêmica. 
Ao Professor João Vicente, pelos valiosos esclarecimentos e principalmente por 
me dar direção e foco. 
Ao  Professor  Toivi  e  Haulison,  responsáveis  pelas  minhas  primeiras  reflexões 
sobre o tema. 
Aos Professores Rodrigo e Soniamar pelo apoio e sugestões.  
À  Professora  Elvira  Veras,  Coordenadora  da  CREDE  3,  pelo  carinho  e 
autorização para realização desta pesquisa junto às escolas públicas de ensino médio de 
Acaraú. 
Aos  Professores  Remi  e  Conceição,  pelas  sugestões  que  enriqueceram  este 
trabalho. 
Aos  meus  colegas  de  mestrado,  pelo  divertido  e  solidário  tempo  que  passamos 
juntos. 
Aos  meus  colegas  de  trabalho,  Araújo,  Lara,  Luciano  e  Márcio,  pela 
compreensão nas horas difíceis. 
Ao Professor Edmar Moraes, pelos grandes feitos na área da pesca e pela defesa 
de uma vida mais digna aos pescadores. 
Aos servidores do IFCE/Campus Acaraú, participantes da pesquisa, pelo tempo 
e atenção que me dispensaram. 
Ao Geraldo, Thyago e Lara, pelas contribuições na construção desse trabalho. 
Aos  Diretores  Philipe,  Artur,  Netinho  e  Francisco  Luiz,  por  viabilizarem  a 
pesquisa em  suas escolas. Às Professoras Janaína e Terezinha (Tomaz Pompeu) e  Iara 
(Vicente de Paulo da Costa) pela cordial recepção e apoio. 
À  Fátima  Barboza,  amiga  querida  e  de  fé,  companheira  nos  momentos  de 
angústia.  
A  todos  os  alunos  participantes  da  pesquisa,  em  especial  Monalisa  (Aranaú), 
Natiele  (Juritianha),  Samuel  e  Suellen  (Acaraú),  pela  ajuda  na  localização  dos  pais 
entrevistados. 
A todos os pais de alunos por me receberem gentilmente em suas casas. 
Por  fim,  aos  pescadores  e  marisqueiras  que  eu  tive  o  prazer  de  entrevistar, 
pessoas simples e sábias, a minha reverência e eterna gratidão pelas inspiradoras lições 
de vida. 
 
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RESUMO 
 
 
O  presente  trabalho  se  propõe  a  estudar  a  relação  entre  a  oferta  e  demanda  do  Curso 
técnico  de  nível  médio  subsequente  em  pesca  do  Instituto  Federal  do  Ceará,  campus 
Acaraú. A baixa demanda do curso tem se revelado desde a sua implantação, apesar da 
vocação histórica do município voltada à atividade da pesca. Nesse sentido, o objetivo 
central  é  investigar  em  que  medida  os  alunos  do  3º  ano  do  ensino  médio  das  escolas 
públicas de Acaraú e seus Distritos, principal público alvo do curso, se interessam por 
cursos técnicos, em especial pelo curso de pesca. A perspectiva utilizada foi o estudo de 
campo.  Como  suporte  teórico  aborda-se  a  evolução  histórica  da  gestão  da  pesca,  o 
panorama legal da pesca e as políticas públicas destinadas a esse segmento, bem como 
as  vicissitudes  do  pescador  artesanal  e  o  caráter  transgeracional  de  sua  atividade.  A 
pesquisa de abordagem mista, quantitativa e qualitativa, utilizou como instrumentos de 
coleta de dados a aplicação de questionários estruturados aos alunos do 3º ano do ensino 
médio das escolas públicas de Acaraú e Distritos e entrevistas semiestruturadas com os 
genitores dos alunos e servidores – docentes e técnicos – do IFCE, campus Acaraú e um 
gestor  do  MEC,  envolvido  com  políticas  públicas.  Os  resultados  obtidos  apontam  o 
interesse maior dos  concluintes do ensino médio por cursos  em  nível de  graduação. A 
falta de informação sobre o curso e sua proposta, bem como a pesca ser uma atividade 
árdua, perigosa e de baixa remuneração são outros fatores que levam à baixa demanda 
do curso. A construção de arranjos produtivos locais e a aproximação do Instituto com a 
comunidade  de  pescadores  por  meio  de  ações  de  extensão  que  elevem  a  autoestima 
desta  categoria  e  estimulem  o  empreendedorismo  e  associativismo  podem  contribuir 
para a elevação da demanda. 
 
 
Palavras-chave:  Pesca.  Políticas  Públicas.  Curso  Técnico  Subsequente.  Oferta. 
Demanda. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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ABSTRACT 
 
This aim of this study is to examine the relationship between supply and demand in the 
subsequent technical course in fishing of the Federal Institute of Ceará (IFCE), Acaraú 
campus. The course‟s low demand has been shown since its implementation, despite the 
historical  vocation  of  the  city  dedicated  to  the  fishing  activity.  In  this  sense,  the  main 
objective is to investigate the extent to which students of the 3rd year of high school in 
public  schools  of  Acaraú  and  its  districts,  the  main  target  audience  of  the  course,  are 
interested in technical courses, in particular the fishing course. The study was conducted 
as  a  field  study.  Theoretical  support  address  the  historical  evolution  of  fisheries 
management, the legal landscape of fishing and public policies aimed at this segment as 
well  as  the  changes  of  the  artisanal  fisherman  and  the  transgenerational  nature  of  its 
activity.  The  research  used  a  mixed  quantitative  and  qualitative  approach,  and  used  a 
data  collection  application  of  structured  questionnaires  to  students  of  the  3rd  year  of 
high  school  in  Public  Schools  of  Acaraú  and  its  Districts,  semi-structured  interviews 
were also conducted with the parents of students and servants – teachers and technicians 
–  of  the  IFCE  campus  Acaraú  and  a  Ministry  of  Education‟s  manager  involved  with 
public policy. The results show a greater interest of high school students to graduation 
courses. The lack of information about the course and its proposal, as well as fishing be 
an arduous, dangerous and low-paid activity are other factors that lead to low demand of 
the course. The construction of local production arrangements and the approach of the 
Institute with the fishing community through outreach activities that raise self-esteem in 
this  category  and  stimulate  entrepreneurship  and  associations  can  contribute  to  the 
increase in demand. 
 
Keywords: Fishing. Public policy. Subsequent Technical Course. Offer. Demand. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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LISTA DE GRÁFICOS 
 
Gráfico 1 - Continuação dos estudos após o ensino médio............................................46 
Gráfico 2 - Curso desejado.............................................................................................47 
Gráfico 3 - Curso desejado por sexo...............................................................................49 
Gráfico 4  - Alternativas após  a conclusão do  ensino  médio:  bacharelado, licenciatura, 
técnico e tecnólogo..........................................................................................................49 
Gráfico 5 - Justificativa do gráfico 4..............................................................................51 
Gráfico 6 - Conhece o IFCE?.........................................................................................52 
Gráfico 7 - Respostas válidas, inválidas e opção “nenhum”..........................................53 
Gráfico 8 - Escolhas dos cursos por ordem de preferência............................................53 
Gráfico 9 - Você conhece o Curso Técnico em Pesca do IFCE?...................................54 
Gráfico 10 - Meio de divulgação mais eficaz.................................................................55 
Gráfico 11 - Se os pais incentivariam o ingresso dos filhos no curso de pesca.............56 
Gráfico 12: Alguém de sua família é pescador ou pescadora?.......................................57 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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LISTA DE GRÁFICOS 
 
APL  
Arranjo Produtivo Local. 
CCA  
Coordenação de Controle Acadêmico. 
CEFET 
Centros Federais de Tecnologia. 
CIR  
Caderneta de Identificação e Registro. 
CREDE  
Coordenadoria Regional de Educação. 
DPA  
Departamento de Pesca e Aquicultura. 
EaD  
Educação à Distância. 
EPM  
Ensino Profissional Marítimo. 
IBAMA  
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais 
Renováveis. 
IBGE  
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 
ICMBio  
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. 
IDH  
Índice de Desenvolvimento Humano. 
IF 
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. 
IFCE  
Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará. 
IFRN  
Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio 
Grande do Norte. 
LDB  
Lei de Diretrizes e Bases da Educação. 
MEC  
Ministério da Educação. 
MMA  
Ministério do Meio Ambiente. 
MPA  
Ministério da Pesca e Aquicultura. 
NUPA  
Núcleo de Pesquisa Aplicada à Pesca e Aquicultura. 
OCB 
Organização das Cooperativas Brasileiras. 
PDI  
Plano de Desenvolvimento Institucional. 
PEP 
Pescador Especializado. 
POP  
Pescador Profissional. 
PROFROTA  
Programa Nacional de Financiamento da Ampliação e 
Modernização da Frota Pesqueira Nacional. 
PRONATEC  
Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego. 
RCP  
Ressuscitação Cárdio Pulmonar. 
RGP  
Registro Geral da Pesca. 
SEBRAE  
Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. 
SETEC  
Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica. 
SUDEPE 
Superintendência de Desenvolvimento de Pesca. 
TCLE  
ZEE  
Zona Econômica Exclusiva. 
 
 
 
 
 
 
 
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10 
 
SUMÁRIO 
 
1 INTRODUÇÃO..........................................................................................................12 
1.1 OBJETIVO GERAL..................................................................................................14 
1.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS....................................................................................14 
1.3 HIPÓTESES DE TRABALHO.................................................................................15 
2 O CONTEXTO DA REALIDADE E O SEU PROBLEMA...................................16 
2.1. O MUNICÍPIO DE ACARAÚ.................................................................................16 
2.2. O PESCADOR ARTESANAL................................................................................ 19 
2.3.  A  IMPLANTAÇÃO  DO  CURSO  TÉCNICO  SUBSEQUENTE  EM  PESCA  E  O 
SEU PLANO DE CURSO...............................................................................................23 
3 A PESCA, SUAS POLÍTICAS PÚBLICAS E O PESCADOR ARTESANAL....26 
3.1. A PESCA E SUAS POLÍTICAS PÚBLICAS.........................................................26 
3.2.  AS  VICISSITUDES  DO  PESCADOR  ARTESANAL  E  O  CARÁTER 
TRANSGERACIONAL DE SUA ATIVIDADE............................................................32 
4 METODOLOGIA.......................................................................................................37 
4.1. CAMPO DA PESQUISA.........................................................................................38 
4.2. PARTICIPANTES....................................................................................................38 
4.3. DESCRIÇÃO DOS INSTRUMENTOS...................................................................39 
4.4. PROCEDIMENTOS.................................................................................................40 
4.5. TRATAMENTO DOS RESULTADOS...................................................................44 
5 A VISÃO DOS ATORES...........................................................................................45 
5.1. A VISÃO DOS ALUNOS........................................................................................45 
5.2. A VISÃO DO GESTOR DO MEC, GENITORES E SERVIDORES DO IFCE.....58 
5.2.1. A visão do gestor do MEC..................................................................................58 
5.2.2. A visão dos genitores...........................................................................................61 
5.2.3. A visão dos servidores do IFCE..........................................................................82 
 
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11 
 
6 PRODUTO TÉCNICO.............................................................................................105 
6.1 METODOLOGIA DE DIVULGAÇÃO DO CURSO DE PESCA.........................106 
7 CONCLUSÃO...........................................................................................................113 
REFERÊNCIAS ..........................................................................................................116 
APÊNDICE  A  –  Carta  solicitando  autorização  para  realização  da  pesquisa  junto  às 
Escolas  Estaduais  de  Ensino  Médio  à  CREDE  –  Coordenadoria  Regional  de 
Educação........................................................................................................................121 
APÊNDICE B - Termo de Consentimento Questionário Semiestruturado..................122 
APÊNDICE C - Termo de Consentimento Entrevista.................................................124 
APÊNDICE  D  -  Instrumentos  de  Pesquisa  (questionário  e  roteiros  de 
entrevista)......................................................................................................................126 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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12 
 
1 INTRODUÇÃO 
Na  última  década,  o  Brasil  apresentou  elevado  índice  de  crescimento 
econômico, sobretudo se comparado às economias da Europa e América do Norte. Tal 
fato,  aliado  ao  controle  inflacionário  existente  desde  o  governo  de  Fernando  Henrique 
Cardoso  (Plano  Real),  permitiu  uma  evolução  da  área  educacional,  tanto  no  setor 
público quanto no privado. 
Neste contexto, foi instituída, por meio da Lei nº 11.892, de 29 de dezembro de 
2008  (BRASIL,  2008),  a  Rede  Federal  de  Educação  Profissional,  Científica  e 
Tecnológica e a criação dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs) 
(BRASIL,  2008).  Estas  últimas  são  instituições  de  educação  superior,  básica  e 
profissional,  pluricurriculares  e  multicampi,  especializadas  na  oferta  de  educação 
profissional e tecnológica nas diferentes modalidades de ensino. 
Parte  das  instituições  que  atualmente  formam  a  Rede  Federal  de  Educação 
Profissional, Científica e Tecnológica se originaram das dezenove escolas de aprendizes 
artífices instituídas pelo Decreto nº 7.566, de 23 de setembro de 1909 (CÂMARA DOS 
DEPUTADOS, 1909), assinado pelo então Presidente Nilo Peçanha (CÂMARA, 2015). 
Em 1942, após o Ensino Profissional ser considerado de nível médio, os liceus passam a 
se  chamar  Escolas  Industriais  e  Técnicas;  no  início  da  década  de  1960,  tornaram-se 
Escolas  Técnicas  Federais;  em  seguida,  Centros  Federais  de  Tecnologia  (CEFETs);  e, 
por fim, com o advento da Lei nº 11.892/2008, de Institutos Federais. 
O Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) trilhou 
o  mesmo  caminho  de  transformações,  a  saber:  Liceu  Industrial  do  Ceará,  em  1941; 
Escola Técnica Federal do Ceará, em 1968; Centro Federal de Educação Profissional e 
Tecnológica do Ceará (CEFET-CE), em 1994; e, posteriormente, Instituto Federal, em 
2008. 
Atualmente  o  IFCE  é  composto  por  25  campi,  entre  os  quais  a  unidade  de 
Acaraú,  município  com  terras  banhadas  pelo  rio  Acaraú  e  também  pelo  mar.  Por  se 
tratar  de  uma  região  de  grande  potencial  hídrico,  extensa  margem  litorânea,  clima 
tropical e abrigar comunidades de pescadores que desenvolvem a atividade pesqueira, o 
campus  opera  com  o  eixo  tecnológico  da  área  marítimo-portuária,  voltada  à  pesca  e 
aquicultura.  
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13 
 
A  Instituição  oferta  02  (dois)  cursos  de  graduação  (Licenciatura  em  Física  e 
Ciências  Biológicas)  e  04  (quatro)  cursos  técnicos  de  nível  médio  subsequentes, 
destinados  àqueles  que  concluíram  o  Ensino  Médio  (Pesca,  Aquicultura,  Construção 
Naval, Restaurante e Bar).  
Dentre  os  4  cursos  ofertados,  o  curso  de  pesca  é  o  que  apresenta  menor 
demanda,  posicionando-se  como  última  opção  em  termos  de  preferência  pelos 
candidatos  concorrentes  às  vagas  da  Instituição,  em  sua maioria  concluintes do ensino 
médio das escolas públicas de Acaraú e Distritos
1
Tal situação tem preocupado os gestores da entidade, razão pela qual mereceu 
ser investigada. Assim, esta pesquisa parte das seguintes indagações: em que medida os 
jovens  em  idade  escolar  no  Ensino  Médio  se  interessam  pela  educação  profissional  e, 
principalmente,  pelo  Curso  Técnico  de  Nível  Médio  em  Pesca  do  IFCE,  campus 
Acaraú?  Considerando  o  potencial  e  a  vocação  laboral  da  região  voltados  à  atividade 
pesqueira, o que justificaria a baixa demanda?  
Para  responder  a  essas  perguntas  propôs-se  a  aplicação  de  um  questionário 
estruturado,  dirigido  aos  alunos  do  3º  ano  do  ensino  médio  das  escolas  públicas  de 
Acaraú  e  seus  distritos  e  a  realização  de  entrevistas  com  servidores  do  campus,  um 
representante do MEC envolvido com políticas públicas e os genitores ou representantes 
legais dos mencionados alunos.  
A  estrutura  do  trabalho  inicia-se  com  a  introdução,  objetivos  da  pesquisa  e 
hipóteses de trabalho e divide-se em Seções, a seguir especificados.  
A Seção 2 – O contexto da realidade e seu problema, subdivide-se da seguinte 
forma: O Município de Acaraú, onde traz informações históricas e socioeconômicas do 
município; O pescador Artesanal, onde aborda o perfil e o modo de vida desta categoria; 
A Implantação do Curso Técnico Subsequente em Pesca e o seu Plano de Curso, onde 
estão descritos o problema de pesquisa e as informações básicas sobre o curso.  
A Seção 3 – A pesca, suas políticas públicas e o pescador artesanal foi dividida 
em  dois  subtítulos:  A  pesca  e  suas  políticas  públicas,  onde  se  aborda  o  conceito  de 
política pública, breve evolução histórica da gestão da pesca, o panorama legal da pesca, 
bem como as políticas públicas dirigidas a esse segmento; As vicissitudes do pescador 
                                                           
1
 O detalhamento sobre a baixa demanda, com dados oficiais da Instituição, consta da Seção 2, item 2.3 
deste trabalho. 
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artesanal e o caráter transgeracional de sua atividade, onde se disserta sobre a influência 
do  ambiente  familiar  na  formação  de  seus  integrantes  e  sobre  os  reveses  da  atividade 
pesqueira artesanal, este último baseado nos estudos de Antonio Carlos Diegues (1983) 
e  Simone  Carneiro  Maldonado  (1986  e  1993),  representantes  da  socioantropologia 
marítima. 
Na  Seção  4  –  Metodologia,  aborda-se  a  metodologia  que  norteou  a  pesquisa, 
com a apresentação de seus participantes e a descrição dos instrumentos utilizados para 
sua realização. 
Na  Seção  5  –  Visão  dos  atores,  são  apresentados  os  dados  da  pesquisa  e 
respectivas  análises  decorrentes da  aplicação do  questionário e entrevistas organizadas 
em categorias. 
A  Seção  6  -  Produto  Técnico,  consiste  numa  metodologia  própria  de 
divulgação do curso  técnico em  pesca, cujo  objetivo  precípuo  é informar os alunos do 
ensino  médio  sobre  a  proposta  do  curso  e  o  tipo  de  profissional  que  este  se  propõe  a 
formar, melhorando, assim, a divulgação do mesmo. 
O trabalho se encerra com a Conclusão, onde se traz um resumo dos resultados 
da  pesquisa,  as  considerações  da  pesquisadora  sobre  esses  resultados  e  sugestões  que 
eventualmente possam contribuir para elevação da demanda do curso de pesca. 
 
1.1 OBJETIVO GERAL 
Analisar  a  relação  entre  oferta  e  demanda  do  Curso  Técnico  de  Nível  Médio 
em Pesca do IFCE, campus Acaraú. 
 
1.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS 
 
Identificar se os concluintes do 3º ano do Ensino Médio das Escolas Públicas de 
Acaraú  se  interessam  por  cursos  técnicos,  em  especial,  pelo  Curso  Técnico  de 
Nível Médio Subsequente em Pesca do IFCE, campus Acaraú 
 
Discriminar  os  cursos  de  preferência  dos  alunos  3º  ano  do  Ensino  Médio  das 
Escolas Públicas de Acaraú após a conclusão do ensino médio 
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Analisar a percepção dos genitores ou responsáveis legais dos concluintes do 3º 
ano  do  Ensino  Médio  das  Escolas  Públicas  de  Acaraú  sobre  a  profissão  de 
pescador e suas principais dificuldades 
 
Levantar  informações  sobre  a  implantação  e  oferta  do  Curso  Técnico  de  Nível 
Médio Subsequente em Pesca 
 
Identificar  o  cenário  atual  da  oferta  do  Curso  Técnico  de  Nível  Médio 
Subsequente em Pesca 
 
Desenvolver uma metodologia própria de divulgação do Curso Técnico de Nível 
Médio em Pesca ofertado pelo IFCE, para captação de demanda junto às escolas 
de Ensino Médio de Acaraú 
 
1.3 HIPÓTESES DE TRABALHO 
As hipóteses de trabalho relacionadas à baixa demanda do curso de pesca são: 
a)
 
O não reconhecimento social e a marginalização do pescador; 
b)
 
A pesca é uma atividade árdua, perigosa e de baixa remuneração; 
c)
 
Os pais ou responsáveis legais dos concluintes do 3º ano do Ensino Médio não 
estimulam  a  escolha  pelo  Curso  Técnico  de  Nível  Médio  em  Pesca  por  não 
vislumbrarem perspectivas de futuro na área da pesca; 
d)
 
O  interesse  maior  dos  concluintes  do  ensino  médio  pelos  cursos  em  nível  de 
graduação; 
e)
 
A  falta  de  informação  sobre  o  curso  e  sua  proposta,  haja  vista  existir  um 
entendimento equivocado de que este se destina a formar pescadores. 
 
 
 
 
 
 
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16 
 
2 O CONTEXTO DA REALIDADE E SEU PROBLEMA 
 
2.1 O MUNICÍPIO DE ACARAÚ  
Acaraú é um município localizado no litoral oeste do estado do Ceará, a 255,1 
km  de  Fortaleza  e  aproximadamente  60  km  da  Praia  de  Jericoacoara
2
.  Possui  842,566 
Km2  e  uma  população  estimada  em  61.210  habitantes  (2015).  O  rendimento  médio 
mensal  familiar  per  capita  em  2010  foi  de  R$  215,00  e  a  taxa  de  analfabetismo 
funcional (15 anos ou mais) é de 28, 83% (IBGE, 2015). 
FIGURA 1: mapa da região nordeste do Brasil, destacando o Estado do Ceará, o Município de Acaraú e 
os  Distritos  de  Aranaú  e  Juritianha.  Fonte  adaptada  de:  Soniamar  Zschornack  Rodrigues  Saraiva. 
Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Ceará, Instituto de Ciências do Mar, Programa de Pós-
Graduação em Ciências Marinhas Tropicais, Fortaleza, 2015. 
                                                           
2
 
Praia  de  Jericoacoara:  situada  no  Município  de  Jijoca  de  Jericoacoara,  foi  eleita  em  1994  pelo  jornal 
Washington Post como uma das praias mais bonitas do planeta. 
 
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17 
 
O Índice De Desenvolvimento Municipal (IDM) no ano de 2010 foi de 29,16, e 
o de desenvolvimento humano (IDH) para o mesmo ano figurou em 0,617. O percentual 
da população extremamente pobre (com renda per capita de até R$ 70,00 mensais), foi 
de 31,91%, tendo a zona rural apresentado percentual mais elevado que a zona urbana: 
38,57%  (INSTITUTO  DE  PESQUISA  E  ESTRATÉGIA  ECONÔMICA  DO  CEARÁ, 
2012).  
Pompeu Sobrinho (apud PAIVA, 2010) destaca que os índios Tremembé foram 
os primeiros pescadores da região do Ceará e dominavam toda a costa do estado à época 
do  Descobrimento.  Ressaltou  como  principais  características  desse  povo  a  coragem,  a 
inteligência e a compleição física bastante forte. 
As  pescarias  atuais  guardam,  até  hoje,  influências  indígenas,  não  apenas  nos 
métodos de pesca como também nos nomes atribuídos aos peixes (PAIVA, 2010). 
Gonçalves (2011, p. 555), relaciona as principais espécies comerciais marinhas 
presentes  no  litoral  cearense:  Bonito,  Cação,  Caicó,  Camorim,  Camurupim,  Cangulo, 
Carapitanga,  Cavala,  Cioba,  Dentão,  Dourado,  Garoupa,  Guaiúba,  Garajuba, 
Guaracimbora, Mero, Palombeta, Pargo, Pescada, Sardinha, Serra, Sirigado, Vermelho e 
Xaréu. 
A  histórica  vocação  do  Município  de  Acaraú  voltada  à  pesca  é  tratada  por 
Nicodemos Araújo: 
Segundo  o  Barão  de  Studart,  os  primeiros  povoadores  teriam  sido 
“pescadores vindos do sul”. Parece-nos, todavia, que tudo leva a corroborar 
nossa  hipótese,  que  o  Rio  das  Graças  foi  visitado  por  europeus  logo  nos 
primórdios  do  século  XVI.  Vicente  Yanez  Pinzon,  e  logo  após  Diogo  de 
Lepe, ambos espanhóis, aqui estiveram e fizeram na enseada de Jericoacoara 
–  isso  antes  da  chegada  de  Pedro  Alvares  Cabral  a  Porto  Seguro.  Já  no 
primeiro mapa do continente americano, de Juan de La Cosa, figura a “Barra 
do  Rio  Grande”,  como  é  chamado  no  famoso  “Mapa  da  Capitanias”,  em 
1574.  Os  mapas  de  Cantino,  em  1502  e  de  Canério,  em  1505,  registraram 
igualmente a presença da barra. Em 1516, no mapa de Pedro Reinel, aparece 
a foz do Acaraú, designada como “Barra dos Parcéis”. E na carta de Gaspar 
Viegas,  datada  de  1534,  surge  a  costa  do  Acaraú  chamada  pelo  nome  de 
“Terra  da  Pescaria”,  o  mesmo  nome  que  lhe  dá  Diogo  Homem,  em  1558. 
Atestando a extrema abundância das águas do Acaraú, o inglês Rotz, em seu 
mapa  de  1542, denomina  a  área de  “Barra de Pees”  (Barra  dos Peixes). De 
acordo com o Dr. Tomaz Pompeu Sobrinho, a atual cognominação de Acaraú 
sob  a  forma  variante  Acaracú,  só  aparece  no  começo  do  décimo  sétimo 
século.  Os  documentos  aí  estão,  portanto,  mostrando,  por  um  lado,  a 
antiguidade  do  povoamento,  e  por  outro  lado,  a  fartura  do  pescado  que 
sempre  caracterizou  o  Acaraú,  a  ponto  de  fazer  Antonio  Bezerra  dizer  em 
suas “Notas de Viagem”, de 1884, que “não há na província lugar mais farto 
nem de mais recursos que o Acaraú”. (ARAÚJO, 1991, p. 7) 
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18 
 
Segundo Araújo (1971), não é possível precisar o ano que a indústria da pesca 
se  instalou  em  Acaraú,  entretanto  há  registro  de  que  a  Câmara  Municipal  recebeu,  no 
ano  de  1891,  impostos  de  103  currais
3
.  Além  de  expedir  licenças  para  cada  curral,  a 
municipalidade também cobrava um emolumento denominado Taxa de Registro. Nessa 
época o local dos currais era demarcado pela Câmara Municipal para posterior ciência à 
Capitania  dos  Portos  em  Fortaleza,  responsável  por  autorizar  o  levantamento  das 
armadilhas. 
O autor registra, ainda, que Acaraú iniciou a pesca da lagosta em novembro de 
1961,  nas  praias  de  Cacimbas,  Ilha  dos  Coqueiros,  Volta  do  Rio  e  Almofala.  As 
indústrias pesqueiras da cidade e algumas empresas especializadas vindas de Fortaleza, 
somaram,  na  época,  300  embarcações,  desde  lanchas  motorizadas  até  canoas  à  remo. 
Em 1964 o município estimou a produção de lagosta em 150 mil quilos. 
O Município de Acaraú, desmembrado do Município de Sobral, foi criado em 
31  de  julho  de  1849  por  meio  da  Lei  nº  480,  sancionada  pelo  Dr.  Fausto  Augusto  de 
Aguiar, Presidente da Província do Ceará à época. 
Atualmente a região de Acaraú possui quatro indústrias de pescado: Cajucoco, 
Monteiro Pescados, Allmare Alimentos e Pesqueira Loiola. As duas primeiras situam-se 
em Itarema, municípios vizinhos, e as demais estão instaladas em Acaraú. 
A  unidade  de  beneficiamento  da  Cajucoco  (2015)  tem  capacidade  para 
beneficiar  35  toneladas  de  camarão  por  dia.  Além  de  abastecer  o  mercado  interno, 
exporta  para  os  Estados  Unidos  e  Europa.  Não  possui  marca  própria.  Recebeu,  em 
março  de  2010,  o Certificado  de  Excelência  do  Programa  "Garantia  de  Origem"  do 
grupo Carrefour, na  categoria  de  "  abate  e  processamento  de  Camarão".  Hoje  a 
indústria opera com os seguintes produtos: lagosta, camarão, polvo e peixe. 
A  Monteiro  Pescados  (2015),  pioneira  na  região,  tem  a  sua  atividade  voltada 
para exportação e comercialização interna dos produtos da pesca, em especial a lagosta. 
Instalada na sede de Acaraú, a indústria de beneficiamento Allmare Alimentos 
(2015)  possui  porto  equipado  e  uma  frota  de  17  barcos  pesqueiros.  Atua  no  mercado 
nacional  e  internacional  (Estados  Unidos  e  Europa).  Não  possui  marca  própria. 
                                                           
3
 Curral: armadilha fixa em forma de cerca armada em bancos de areia próximos à praia ou no mar, e que 
possui uma abertura por onde os peixes penetram durante a maré cheia, ficando aprisionados com a 
descida da maré, quando então os pescadores procedem a despesca. 
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Beneficia  lagosta,  peixe  e  camarão  e  tem  como  principais  clientes  o  Grupo  Pão  de 
Açúcar, Sam´s Club e Assaí Atacadista. 
A Pesqueira Loiola, cuja indústria situa-se em Acaraú, também não tem marca 
própria,  entretanto  presta  serviços  de  beneficiamento  a  empresas  que  comercializam 
pescado.  Tem  como  principais  produtos  a  lagosta,  o  camarão  e  em  menor  volume  o 
peixe. 
Os principais ícones da economia de Acaraú são o coco, a castanha, a lagosta, 
o camarão e o peixe (GOVERNO  MUNICIPAL DE ACARAÚ, 2015). 
 
2.2. PESCADOR ARTESANAL 
Consoante  demonstra  o  Boletim  do  Registro  Geral  da  Atividade  Pesqueira  de 
2012  –  RGP,  existem  registrados  no  Sistema  do  RGP,  até  31/12/2012,  1.041.967  (um 
milhão  quarenta  e  um  mil  e  novecentos  e  sessenta  e  sete)  pescadores  profissionais, 
distribuídos em todas as 27 unidades da federação. A região nordeste concentra o maior 
número, representando 47,02% do total. No Ceará foram registrados 29.970 pescadores 
e, desse total, 952 se encontram em Acaraú (inscritos ativos). 
O Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) é um instrumento que contribui 
para  a  gestão  e  o  desenvolvimento  sustentável  da  atividade  pesqueira  e  permite  que  o 
interessado exerça as atividades de pesca e aquicultura em toda a sua cadeia produtiva. 
Além de legalizar os usuários por meio de credenciamento de pessoas físicas e jurídicas, 
também  credencia  embarcações  nacionais  e  estrangeiras.  Mostra-se,  portanto,  um 
instrumento indispensável à gestão da atividade pesqueira, sobretudo por servir de apoio 
à concessão de licenças, permissões e autorizações para o exercício da pesca e captura 
de espécies. 
Consoante  o  artigo  4º  da  Lei  nº  11.959/2009  (“Lei  da  Pesca”),  “a  atividade 
pesqueira  compreende  todos  os  processos  de  pesca,  explotação  e  exploração,  cultivo, 
conservação,  processamento,  transporte,  comercialização  e  pesquisa  dos  recursos 
pesqueiros”. 
Desta  forma,  o  RGP  contém  informações  de  todos  os  envolvidos  que  atuam 
diretamente na atividade pesqueira, compreendendo as seguintes categorias: o aprendiz 
de  pesca,  o  pescador  profissional  (artesanal  e  industrial),  o  armador  de  pesca,  a 
embarcação de pesca, a indústria pesqueira, pescador amador ou esportivo, organizador 
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20 
 
de competição de pesca amadora ou esportiva, aquicultor e comerciante de organismos 
aquáticos vivos. 
 
Quase  a  totalidade  dos  pescadores  profissionais  inscritos  no  RGP  exerce  a 
atividade  artesanalmente  (99,16%  do  total)  e  apenas  0,84%  a  exercem  na  forma 
industrial.  Quanto  à  forma  de  atuação,  o  RGP  indica  que  75,39%  dos  pescadores 
profissionais pescam de forma desembarcada, enquanto 24,61% pescam com auxílio de 
alguma  embarcação.  A  região  Nordeste  possui  o  maior  percentual  de  pescadores 
desembarcados, 35,97%, seguida da região norte. 
 
Em  síntese,  os  dados  extraídos  do  RGP  demonstram  que  a  pesca  exercida  no 
território brasileiro é eminentemente artesanal, na forma desembarcada, em especial na 
região nordeste. 
Maldonado (1986), sob uma perspectiva humanista e antropológica, analisou os 
pescadores  e  os  fenômenos  que  ocorrem  em  sociedades  marítimas.  A  autora  distingue 
os pescadores artesanais dos industriais.  
Os  pescadores  artesanais,  também  chamados  de  “autônomos”,  praticam  uma 
pesca caracterizada pela simplicidade da tecnologia e pelo baixo custo de produção, tem 
na  pesca  sua  maior  fonte  de  renda  e  não  possuem  vínculo  empregatício  entre  as 
tripulações  e  os  mestres  dos  botes.  A  produção  destina-se  ao  consumo  doméstico  e  à 
comercialização,  sendo  esta  última  dependente  de  intermediários  em  razão  de  não 
possuírem condições para conservação e transporte mais distante do pescado. 
Em contraposição à estrutura da pesca artesanal estão os pescadores industriais, 
que trabalham em empresas pesqueiras e integram relações de trabalho exclusivamente 
patronais.  Estes  são  assalariados  e  participam  apenas  da  captura  do  pescado
4
.  São 
destituídos  de  qualquer  autonomia  sobre  decisões  relacionadas  à  constituição  das 
equipes  de  trabalho,  rotas  de  pesca  ou  duração  da  jornada  desta.  A  remuneração  pelo 
trabalho desempenhado pode se dar tanto sob a forma de salário mensal como pequena 
participação na produção. 
Discorrendo sobre  a imprevisibilidade da produção, devido  à natureza cíclica e 
móvel do pescado, Maldonado (1986) assevera que o contato com um elemento natural 
arriscado  e  imprevisível  faria  dos  pescadores  homens  inseguros,  desconfiados,  pouco 
                                                           
4
 
Na  pesca  industrial  três  atividades  básicas  são  desenvolvidas  separadamente,  por  grupos  distintos: 
captura, industrialização e comercialização do pescado.  
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21 
 
cooperativos,  conservadores  e  individualistas,  “tendendo  ao  segredo  e  à  ocultação  das 
rotas e dos bancos de peixe”. (MALDONADO, 1986, p. 30) 
Embora tais aspectos psicológicos, segundo a autora, passem atualmente por um 
releitura  dos  cientistas  sociais,  esses  traços  de  personalidade  são  uma  forma  de  se 
conhecer um pouco a identidade e a o modo de vida dos pescadores e, eventualmente, as 
razões  que  expliquem  o  conservadorismo  dessa  população  esquiva  à  mudança  e 
resistente a elementos externos à sua tradição. 
Para  Diegues  (1993)  os  pescadores  artesanais  se  identificam  como  sendo  um 
grupo  detentor  de  uma  profissão,  cujo  domínio  de  um  conjunto  de  conhecimentos  e 
técnicas permite-lhes subsistir e se reproduzir enquanto pescadores. O que caracteriza o 
pescador artesanal não é apenas o viver da pesca, mas a apropriação real dos meios de 
produção, o controle da arte da pesca.  
 
Mesmo  trabalhando  em  grupo  a  técnica  é  essencialmente  individual.  (...)  O 
pescador artesanal é obrigado a dominar o manejo de diferentes instrumentos 
de captura utilizado para diferentes espécies de pescado, num meio ambiente 
de  contínua  mudança.  A  menor  falha  no  assentamento  da  rede,  no 
lançamento  dos  cabos,  pode  destruir  o  equipamento  ou  danificar 
irremediavelmente  o  motor.  Isso  pode  significar  a  perda  de  um  capital 
considerável, adquirido depois de anos de trabalho intenso (DIEGUES, 1993, 
p. 198). 
 
Dominar a arte da pesca, prossegue o autor, exige do pescador qualidades físicas 
e  intelectuais  obtidas  pelo  aprendizado  na  experiência,  o  que  lhe  possibilita,  também, 
apropriar-se dos segredos da profissão. 
O  segredo  marca  as  relações  relativas  à  informações  e  os  mestres 
demonstram  ser  muito  ciosos  de  sua  responsabilidade  para  com  os 
verdadeiros  mapas  que  têm  na  memória  e  extremamente  articulados  com  a 
natureza,  ao  ponto  de  levar  o  bote  aos  melhores  lugares  (MALDONADO, 
1993, p. 40). 
 
O  conhecer  do  pescador  é  traduzido  pela  sabedoria,  adquirida  pela  experiência 
de  anos.  Esse  conhecer  compreende  saber  como  navegar,  o  movimento  das  marés,  os 
tipos  de  fundo  propícios  à  vida  de  determinadas  espécies,  noções  empíricas  sobre  os 
hábitos  de  diversos  peixes,  saber  relacionar  os  fenômenos  naturais  e  tomar  decisões 
seguras  referentes  à  captura.  Essa  sabedoria  é  diferente  do  saber-fazer,  pois  não  diz 
respeito  à  capacidade  de  manusear  um  apetrecho  de  pesca,  mas  sim  onde  e  quando 
utilizá-lo. E isso se aprende pescando e ouvindo os mais velhos (DIEGUES, 1993). 
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22 
 
Esse  saber  tradicional  transferido  aos  pescadores  mais  novos  garante  a 
sobrevivência e a reprodução da categoria:  
 
“(...)  a  tomada  de  decisão  de  lançar  uma  rede,  por  exemplo,  está  sujeita  à 
avaliação de uma série de  fatores naturais que vão desde a posição da lua e 
sua influência nas marés até os hábitos migratórios do pescado na procura de 
seu  alimento.  O  conhecimento  dessas  variáveis  naturais,  normalmente 
acumulada  de  maneira  empírica  pelos  pescadores,  passado  de  geração  em 
geração, constitui o núcleo mais importante da expertise que caracteriza, por 
exemplo,  o  bom  pescador.  É  verdade  que  a  forma  de  adquirir  e  armazenar 
esses  conhecimentos  complexos  tem  se  diversificado  enormemente  nas 
últimas décadas. O pescador lagunar de Cananéia (Brasil), por exemplo, para 
localizar certos tipos de peixe, como a pescada, costuma usar a canoa como 
caixa de ressonância para ouvir o ronco da pescada. O bom mestre de traina, 
pela  ardentia  ou  brilho  de  um  cardume  de  sardinha  em  noite  escura,  pode 
avaliar  sua  profundidade  e  volume  com  boa  precisão.  O  jangadeiro  do 
nordeste  guarda  seu  ponto  de  pesca,  no  mar  alto,  por  um  complexo  sistema 
de  triangulação  de  marcas  situadas  na  costa  (pontos  de  morro,  etc) 
(DIEGUES, 1993, p. 97-98). 
 
Percebe-se  que  a  relação  complexa  do  pescador  com  a  natureza  revela  uma 
categoria profissional única, distinta das demais profissões. 
Sobre  a  organização  do  trabalho  no  mar  dos  pescadores  artesanais,  Maldonado 
(1986) ressalta a importância da família como unidade de produção e consumo.  
A divisão do trabalho se dá da seguinte forma: os homens pescam e as mulheres 
se  dedicam  às  tarefas  domésticas  (tarefas  consideradas  de  terra)  ou  atividades  no  mar 
raso, sendo a pesca no mar alto tarefa eminentemente masculina
5
. Isso se dá não apenas 
pelo perigo que o mar alto (ou mar de fora) oferece, mas principalmente em função dos 
mitos  que  permeiam  a  cultura  desses  povos.  A  título  de  exemplo,  alguns  grupos  de 
trabalho proíbem as mulheres de adentrarem nas embarcações quando se encontram no 
período menstrual ou no puerpério; outros, em hipótese alguma, deixam a mulher entrar 
nos botes ou sequer tocar qualquer instrumento ou apetrecho de pesca  – redes, anzóis, 
espinhéis – sob o argumento de que atraem mau agouro, infortúnios e prejuízos. 
No entanto, isso não significa que as mulheres não pesquem. Especialmente no 
Norte e Nordeste do Brasil, elas se dedicam à pequena pesca - ou pesca de mar de raso – 
de espécies como o marisco e o caranguejo. A atividade é tradicional e o aprendizado e 
técnicas de coleta dos moluscos e crustáceos são passados de mãe para filha. 
                                                           
5
 
No  mar  de  dentro,  também  chamado  de  mar  de  terra,  mulheres  e  crianças  contribuem  com  a  renda 
familiar dedicando-se ao artesanato ou confecção dos instrumentos de pesca (Maldonado, 1986, p. 20) 
 
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23 
 
Nota-se que a organização do trabalho do povo marítimo retrata não apenas uma 
postura diante do mundo, mas também delineia um identidade cultural muito particular. 
 
2.3.  A 
IMPLANTAÇÃO  DO  CURSO  TÉCNICO  DE  NÍVEL  MÉDIO 
SUBSEQUENTE EM PESCA E O SEU PLANO DE CURSO 
O  campus  Acaraú  do  Instituto  Federal  de  Educação  Ciência  e  Tecnologia  do 
Ceará (IFCE) foi oficialmente inaugurado em 2009, em Brasília, pelo então Presidente 
da  República,  Luiz  Inácio  Lula  da  Silva.  A  solenidade  fez  parte  da  inauguração 
simultânea  de  30  unidades  dos  Institutos  Federais  de  Educação,  Ciência  e  Tecnologia 
(IFs).  O  referido  campus  deu  início  às suas  atividades  em  uma  sede  provisória,  pois  a 
edificação em área de quase 6.000 m
2
 não fora concluída à época. O Curso Técnico de 
Nível Médio em Pesca, subsequente, foi um dos 03 (três) cursos inicialmente ofertados 
com  o  compromisso  de  levar  formação  profissional  à  população  local  e  circunvizinha 
(SUSANE, 2015). 
Consoante o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) do IFCE, a definição 
dos cursos “se deu mediante a análise da vocação econômica de cada região e das suas 
idiossincrasias  socioculturais,  levando-se  igualmente  em  conta  a  opinião  da 
comunidade, a quem todo o trabalho do IFCE se destina” (INSTITUTO FEDERAL DE 
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA, 2009, p. 65). 
Segundo dados fornecidos pela Coordenação de Controle Acadêmico - CCA - do 
referido  campus,  o  Curso  Técnico  de  Nível  Médio  Subsequente  em  Pesca  tem 
apresentado pouca demanda. Dos 04 (quatro) cursos técnicos subsequentes da entidade, 
o Técnico em Pesca posiciona-se como última opção em termos de preferência.  
Parte  dos  ingressantes  dos  cursos  ofertados  pelo  IF  deriva  das  escolas  públicas 
do Município de Acaraú – alunos concluintes do 3º ano do Ensino Médio. A outra parte, 
em menor número, é proveniente da população que já concluiu esta etapa educacional. 
Desde a oferta do curso, no segundo semestre de 2010, a procura é baixa, com elevado 
grau de evasão escolar.  
Neste sentido, é possível exemplificar tomando-se por base o primeiro semestre 
de  2011.  No  relatório  expedido  pela  Coordenação  de  Controle  Acadêmico  (CCA),  em 
11 de fevereiro de 2015, a proporção candidato/vaga em cada curso técnico foi a que se 
segue: Pesca (0,98%); Aquicultura (2,83%); Construção Naval (1,90%); e, Restaurante 
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24 
 
e Bar (1,30%). Observa-se que o curso de pesca ficou em último lugar dentre os quatro 
ofertados. 
Ademais,  no período  compreendido  entre o primeiro semestre de 2013  e  o ano 
de  2014,  verificou-se  a  necessidade  de  realizar  processos  seletivos  complementares, 
uma  vez  que  o  número  de  inscritos  foi  menor  do  que  número  de  vagas  ofertadas 
(primeiro semestre de 2013: 35 vagas para 18 inscritos; primeiro semestre de 2014: 35 
vagas para 32 inscritos).  
Tal situação, considerando o potencial e a vocação histórica da região voltados à 
Pesca,tem  preocupado  os  gestores  da  entidade,  razão  pela  qual  se  faz  necessário 
investigar  em  que  medida  os  jovens  em  idade  escolar  no  Ensino  Médio  se  interessam 
pela  educação  profissional  e,  principalmente,  pelo  Curso  Técnico  de  Nível  Médio  em 
Pesca do IFCE, campus Acaraú. 
O Plano do Curso Técnico de Nível Médio Subsequente em Pesca salienta que a 
pesca  nacional  é  uma  das  poucas  atividades  que  absorve  mão-de-obra  de  pouca  ou 
nenhuma  qualificação,  tanto  na  área  urbana  quanto  rural,  sendo,  em  alguns  casos,  “a 
única oportunidade de emprego para certos grupos de indivíduos, principalmente para a 
população excluída”. 
Tais considerações, aliadas às características da região de abrangência do curso 
(a  bacia  hidrográfica  do  Rio  Acaraú;  o  imenso  potencial  hídrico;  a  extensa  margem 
litorânea;  o  clima  tropical  com  média  acima  de  25°;  as  comunidades  de  pescadores 
existentes  no  município  de  Acaraú;  e,  a  pesca  como  atividade  econômica  histórica  da 
região  –  em  especial,  a  pesca  de  lagosta  e  a  tradicional  pesca  do  camurupim), 
evidenciam  que  a  capacitação  desta  população  se  mostra  indispensável  ao 
desenvolvimento  da  atividade  pesqueira  da  região  (costa  oeste  do  litoral  cearense). 
Neste sentido, o IFCE entendeu relevante a implantação do curso técnico de nível médio 
em pesca, investindo na qualificação e requalificação de mão de obra na área da pesca, 
valorizando  a  vocação  regional  e  elevando  a  qualidade  dos  serviços  nessa  área  de 
atividade econômica. 
O curso tem como objetivo geral formar profissionais de nível médio técnico, na 
modalidade presencial, em consonância com a demanda do mercado, com competência 
técnica, humanística e ética, capazes de desempenhar atividades profissionais, nas áreas 
de extração e manejo adequado de recursos pesqueiros, para seu aproveitamento integral 
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25 
 
na cadeia produtiva, com segurança, qualidade e sustentabilidade econômica, ambiental 
e social.  
Além  disso,  dentre  os  objetivos  específicos,  destaca-se  o  preparo  de 
profissionais  para  desempenhar  funções  na  área  de  pesca,  atuando  em  instituições 
públicas  e  privadas,  empresas  de  pesca  na  área  de  beneficiamento  de  pescado  e  pesca 
embarcada,  e  também  de  forma  autônoma,  empregando  técnicas  adequadas  para  um 
desenvolvimento sustentável da atividade pesqueira. 
Entre  as  competências  gerais  do  Técnico  em  Pesca,  destacam-se:  identificar  as 
características  dos  materiais  utilizados  na  construção  de  apetrechos  de  pesca  e 
especificar  suas  propriedades;  realizar  operações  de  captura  de  pescado,  utilizando 
equipamento adequado; identificar as modalidades de navegação, suas características e 
conhecer princípios de  funcionamento  de motores em  embarcações;  realizar operações 
de  embarque  e  desembarque  de  pescado;  conhecer  normas  de  sobrevivência  para 
embarcações  e  realizar  procedimentos  de  primeiros  socorros  de  acordo  com  o  tipo  de 
acidente;  conhecer  os  principais  equipamentos  eletrônicos  e  de  comunicação  marítima 
utilizados na pesca e seus princípios de funcionamento; operar equipamentos de captura 
com  base  em  cada  modalidade  de  pesca;  conhecer  e  interpretar  a  legislação  ambiental 
aplicada  à  pesca,  além  de  outras  inerentes  à  área;  conhecer  e  aplicar  técnicas  de 
beneficiamento de pescado; conhecer e aplicar técnicas de embalagem, armazenamento 
e  transporte  de  pescado;  executar  atividades  de  extensão  e  gestão  na  área  de  recursos 
pesqueiros;  elaborar  projetos  para  o  setor  pesqueiro,  com  base  no  levantamento  de 
dados e recursos disponíveis; dominar conhecimentos básicos de informática.  
O curso se dá no regime seriado semestral, com duração de 04 (quatro) períodos 
letivos.  Até  2014.2  o  primeiro  período  era  compreendido  por  disciplinas  de  educação 
básica  e  área  geral  da  pesca,  e  os  03  (três)  restantes  referentes  às  disciplinas  de 
formação  técnica,  totalizando  a  carga  horária  de  1.520  horas.  Atualmente,  com  a 
aprovação da nova matriz, válida a partir de 2015.1, o curso passa a ser de 1.120 horas, 
com 200 horas de estágio curricular opcional. 
 
 
 
 
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26 
 
 
3 A PESCA, SUAS POLÍTICAS PÚBLICAS E O PESCADOR ARTESANAL  
 
3.1. A PESCA E SUAS POLÍTICAS PÚBLICAS 
O  século  XX,  notadamente  a  partir  da  década  de  1960,  foi  marcado  pela 
crescente  importância  da  área  de  “Políticas  Públicas”.  Entre  vários  aspectos  que  lhe 
conferiram maior atenção, o primeiro deles e, quiçá, o mais relevante, foi a adoção de 
políticas restritivas de gasto que alicerçaram processos de reforma do Estado em vários 
países ocidentais e democráticos (SOUZA, 2006). 
Segundo  Souza,  para  a  compreensão  do  termo  “Políticas  Públicas”,  seus 
desdobramentos e trajetória, faz-se necessário buscar a sua origem: 
A  política  pública  enquanto  área  de  conhecimento  e  disciplina  acadêmica 
nasce  nos  EUA,  rompendo  ou  pulando  as  etapas  seguidas  pela  tradição 
europeia de estudos e pesquisas nessa área, que se concentravam, então, mais 
na  análise  sobre  o  Estado  e  suas  instituições  do  que  na  produção  dos 
governos.  Assim,  na  Europa,  a  área  de  política  pública  vai  surgir  como  um 
desdobramento dos trabalhos baseados em teorias explicativas sobre o papel 
do Estado e de uma das mais importantes instituições do Estado - o governo -
,  produtor,  por  excelência,  de  políticas  públicas.  Nos  EUA,  ao  contrário,  a 
área  surge  no  mundo  acadêmico  sem  estabelecer  relações  com  as  bases 
teóricas  sobre  o  papel  do  Estado,  passando  direto para  a  ênfase  nos  estudos 
sobre a ação dos governos. (SOUZA, 2006, p. 21) 
 
Toda  estratégia  governamental  tem  um  pano  de  fundo  (decisões,  escolhas, 
caminhos).  Para  que  se  entendam  as  “políticas  públicas”  –  em  especial,  as  de  cunho 
social  –,  faz-se  importante  compreender  a  relação  destas  com  o  Estado,  onde,  em 
síntese,  caracteriza  o  conjunto  de  instituições  permanentes  que  viabilizam  a  ação  do 
Governo. Este, por sua vez, é o conjunto de programas e projetos que parte da sociedade 
apresenta  para  a  sociedade  como  um  todo,  consubstanciando  um  norteador  político  de 
um governo que toma para si as funções de Estado por um determinado período. Assim, 
a Política Pública é o campo do conhecimento que busca “colocar o governo em ação” 
e, quando necessário, propor mudanças no curso desse processo (HOFLING, 2001). 
Para  Hofling  (2001,  p.  38),  é  importante  refletir  sobre  a  relação  entre  Estado, 
Governo e Políticas Públicas, pois os padrões de comportamento de certos atores podem 
interferir, por exemplo, no processo de definição e implementação de Políticas Públicas: 
“o processo de definição de políticas públicas para uma sociedade reflete os conflitos de 
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27 
 
interesses,  os  arranjos  feitos  nas  esferas  de  poder  que  perpassam  as  instituições  do 
Estado e da sociedade como um todo”. 
Frey complementa o argumento ao afirmar que: 
 [...] se quisermos saber mais detalhes sobre a gênese e o percurso de certos 
programas políticos, os fatores favoráveis e os entraves bloqueadores, então a 
pesquisa comparativa não pode deixar de se concentrar de forma mais intensa 
na  investigação  da  vida  interna  dos  processos  político-administrativos.  Com 
esse  direcionamento  processual,  tornam-se  mais  importantes  os  arranjos 
institucionais, as atitudes e objetivos dos atores políticos, os instrumentos de 
ação e as estratégias políticas. (FREY, 2000, p. 220-221) 
 
A  pesca  no  Brasil,  embora  uma  atividade  milenar,  é  questão  recente  na  área 
educacional.  Os  últimos  anos  apontam  aumento  da  demanda  nacional  e  mundial  pela 
proteína derivada do pescado, o que torna o Brasil um potencial produtor em razão de 
sua  extensa  faixa  litorânea  (8.000  km)  e  12%  de  toda  a  água  doce  do  planeta  (8,2 
bilhões de m
3
) (MINISTÉRIO DA PESCA E AQUICULTURA, 2014). 
O artigo 20 da Constituição Federal (1988) determina que o mar territorial e os 
recursos naturais da plataforma continental e da Zona Econômica Exclusiva (ZEE)
6
 são 
bens da União e estão sob a tutela do Estado. Mais adiante, o artigo 24 dispõe que cabe 
à  União  legislar  sobre  a  pesca,  a  defesa  dos  recursos  naturais  e  a  proteção  do  meio 
ambiente. 
Para  Cotrim  (2008),  a  evolução  histórica  da  gestão  da  pesca  é  marcada  por 
várias fases:
 
 
Na década de 20, o Ministério da Marinha foi o órgão do Estado responsável 
pela organização da pesca no Brasil, porém, essa situação foi se modificando 
com  o  passar  do  tempo.  Em  1934,  a  pesca  saiu  do  Ministério  da  Marinha  e 
passou para a Divisão de Caça e Pesca, dentro do Ministério da Agricultura. 
Em  1942,  devido  à  segunda  guerra  mundial,  a  pesca  saiu  do  Ministério  da 
Agricultura  e  retornou  ao  Ministério  da  Marinha.  Em  1967,  no  Governo 
Militar do Brasil, a pesca retornou ao Ministério da Agricultura, agora dentro 
da SUDEPE (...). Em 1989, foi extinta a SUDEPE e criado o IBAMA ligado 
ao  Ministério  do  Meio  Ambiente,  para  onde  migrou  a  pesca.  Em  2002  foi 
criada a SEAP, Secretaria Especial da Aquicultura e Pesca. (COTRIM, 2008, 
P. 19). 
 
Mais  recentemente,  a  gestão  dos  recursos  pesqueiros  ocorria  de  forma 
compartilhada entre o Ministério da Pesca e Aquicultura - MPA e o Ministério do Meio 
                                                           
6
 A ZEE separa as águas nacionais das internacionais e é delimitada por uma linha de 200 milhas 
marítimas da costa
.
 
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28 
 
Ambiente  –  MMA,  figurando  aquele  como  coordenador,  nos  termos  do  Decreto  n° 
6.981/2009,  que  regulamenta  o  artigo  27,  §  6
o
,  inciso  I,  da  Lei  n
o
 10.683/2003,  que 
dispõe sobre a organização da Presidência da República e dos Ministérios.  
Em decorrência da atual reforma ministerial empreendida pela Presidente Dilma 
Rousseff, o Ministério da Pesca e Aquicultura foi extinto em 05 de outubro de 2015, por 
força  da  Medida  Provisória  n°  606  de  2015  que  alterou  a  Lei  n
o
 10.683/2003,  tendo 
havido  a  transferência  de  suas  competências  ao  Ministério  da  Agricultura,  Pecuária  e 
Abastecimento. 
Segundo o art. 2º, inc. III da Lei nº 11.959, de 29 de junho de 2009, entende-se 
por pesca “toda operação, ação ou ato tendente a extrair, colher, apanhar, apreender ou 
capturar recursos pesqueiros” (BRASIL, 2009). 
A  lei  supracitada,  que  dispõe  sobre  a  Política  Nacional  de  Desenvolvimento 
Sustentável  da  Aquicultura  e  da  Pesca  e  regula  a  atividade  pesqueira,  comumente 
chamada  de  “Lei  da  Pesca”,  entrou  em  vigor  concomitantemente  à  criação  do  extinto 
Ministério  da  Pesca  e  Aquicultura,  que  em  sua  origem  fora  uma  Secretaria  Especial 
ligada à Presidência da República.  
Segundo  Melo  (2012),  a  atividade  pesqueira  compõe-se  de  dois  métodos  de 
produção. Os realizados em ambientes naturais, como no oceano e em águas interiores, 
são  denominados  de  pesca  extrativa  ou  de  capturas.  Já  os  que  se  desenvolvem  em 
ambientes  naturais  cedidos  para  a  exploração  privada  e  os  ambientes  privados 
explorados pelo homem (cultivo) são chamados de aquicultura. 
Ao discorrer sobre a propriedade dos recursos pesqueiros, afirma o autor:  
Os  recursos  pesqueiros  que,  exclusivamente,  vivem  em  águas  de  domínio 
privado,  ou  nessas  se  encontram  quando  coletados  ou  capturados,  constitui 
propriedade  daqueles  que  têm  o  domínio  desses  ambientes.  Na  hipótese  de 
viverem  tão  somente  em  águas  de  domínio  público,  constituem  recursos 
públicos,  cuja  exploração  está  sujeita  às  disposições  do  país  que  possui  o 
domínio legal daquelas águas (MELO, 2012, p. 10). 
 
Filardi, Rebouças e Vieira (2006), remetendo à Berkes (2005), asseveram que os 
recursos pesqueiros existentes em águas de domínio público são considerados recursos 
naturais  renováveis  de uso  comum, ou seja, são  bens livres passíveis  de  subtração por 
qualquer usuário, não havendo, assim, propriedade sobre os mesmos. 
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29 
 
O  artigo  8º  da  Lei  n°  11.959/2009  classifica  a  pesca  em  comercial  e  não 
comercial.  A  primeira,  divide-se  em  pesca  artesanal  e  industrial;  a  segunda,  em 
científica - para fins de pesquisa, amadora – lazer e desporto, e a de subsistência, com 
fins de consumo doméstico ou escambo sem fins lucrativos. 
Segundo  dados  apresentados  pelo  extinto  Ministério  da  Pesca  e  Aquicultura, 
estima-se que um em cada duzentos brasileiros são pescadores artesanais. Tal atividade 
é exercida por produtores autônomos, em regime de economia familiar ou individual, e 
se  destina  à  obtenção  de  alimentos  para  as  famílias  dos  pescadores  ou  fins  comerciais 
em pequena escala. A arte e os instrumentos de pesca são desenvolvidos pelos próprios 
pescadores, amparados ou não por pequenas embarcações, como, por exemplo, jangadas 
e  canoas,  razão  pela  qual  é  considerada  uma  atividade  simples,  sendo  responsável  por 
aproximadamente 45% de toda a produção anual de pescado desembarcada. 
Consoante dispõe o artigo 9°, parágrafo 14, incisos I e II, do  Decreto nº 3.048, 
de  1999  (Regulamento  da  Previdência  Social),  considera-se  pescador  artesanal  aquele 
que,  individualmente  ou  em  regime  de  economia  familiar,  faz  da  pesca  sua  profissão 
habitual  ou  meio  principal  de  vida,  desde  que  não  utilize  embarcação  ou,  se  utilizar, 
deverá  ser  de  pequeno  porte,  nos  termos  da  Lei  n°  11.959/99.  Esta  Lei,  comumente 
chamada  “Lei  da  Pesca”,  considera  embarcação  de  pequeno  porte  aquela  que  não 
exceda 20 toneladas, conforme dispõe o inciso I, § 1º, de seu artigo 10. 
Entre  as  várias  iniciativas  governamentais  voltadas  ao  pescador  artesanal, 
visando  a  melhoria  da  qualidade  de  vida  e  inclusão  social,  destacam-se  os  seguintes 
programas:  Pescando  Letras,  destinado à alfabetização de pescadores  e aquicultores;  o 
Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC) – Pesca e 
Aquicultura;  Projeto  de  Apoio  a  Pequenos  Empreendimentos  na  Pesca  Artesanal; 
Parceria Cozinha Brasil e os Telecentros. 
Em  relação à pesca industrial, esta compreende a utilização de embarcações de 
médio  e  grande  porte,  o  uso  de  tecnologia  sofisticada  e  depende  de  infraestrutura 
portuária para o desembarque do pescado, tendo em vista sua atividade se dar em larga 
escala. Em geral, os pescadores da pesca industrial possuem vínculo de trabalho com o 
responsável  pela  embarcação.  Este  segmento  é  exclusivamente  comercial,  de  grande 
importância social  e econômica, pois  fornece matéria prima para  as  grandes indústrias 
de centros de distribuição de alimentos. 
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30 
 
O  estado  de  Santa  Catarina  figura  como  o  maior  produtor  de  pescado  e 
crustáceos do país, especial relevo para as cidades de Itajaí e Navegantes, grande polo 
industrial  pesqueiro  que  se  destaca  pelo  complexo  sistema  de  capturas,  recepção  e 
processamento de pescado (SEBRAE∕SC, 2010).  
Vários são os portos para desembarque do pescado industrial dispostos ao longo 
da  costa  brasileira.  Entretanto,  têm-se  como  principais  aqueles  localizados  em  Belém 
(Pará),  Fortaleza  (Ceará),  Rio  de  Janeiro  (Rio  de  Janeiro),  Santos  (São  Paulo),  Itajaí 
(Santa Catarina) e Paranaguá (Paraná). 
Quanto às políticas públicas voltadas ao referido segmento, desde o advento da 
Lei  nº  11.959/2009,  estas  são  destinadas,  sobretudo,  à  modernização  da  pesca,  ao 
fortalecimento da indústria e do comércio pesqueiros e ao desenvolvimento sustentável, 
destacando-se o Programa Nacional de Financiamento da Ampliação e Modernização da 
Frota Pesqueira Nacional (PROFROTA) e o Plano Safra  – linhas de crédito com juros 
reduzidos. 
Araújo  (2011)  afirma  que  a  Lei  n°  11.959/2009  representou  um  avanço  para  o 
setor da pesca e da aquicultura, não apenas por fixar um marco regulatório, mas também 
por  ampliar  o  acesso  ao  crédito,  reconhecer  como  atividade  pesqueira  artesanal  a 
confecção e reparo de petrechos, pequenas embarcações e processamento de pescado. 
 
Azevedo e Pierri (2013), contudo, não compartilham o mesmo entendimento ao 
discorrerem  sobre  a  política  pesqueira  atual  no  Brasil,  onde  fazem  um  retrospecto  das 
políticas públicas. Afirmam que anteriormente ao Governo “Lula” a política pesqueira 
teve  três  momentos  institucionais,  com  características  distintas:  o  primeiro  período, 
entre  1964  e  1989,  foi  marcado  pelo  “desenvolvimentismo  modernizante  e 
ambientalmente irresponsável”; o segundo, de 1989 a 1998, em oposição ao anterior, foi 
caracterizado por uma política essencialmente conservacionista e o terceiro, entre 1998 
a  2003,  foi  permeado  por  uma  disputa  institucional  “onde  a  tentativa  de  retomar  o 
desenvolvimento setorial resultou travada pelas disposições ambientais”.  
No  primeiro  período,  as  autoras  destacam  a  SUDEPE,  Superintendência  do 
Desenvolvimento da Pesca, órgão competente pelas políticas do setor na época, como a 
responsável  pela  política  desenvolvimentista,  voltada  especialmente  à  pesca  industrial. 
Sob  o  enfoque  econômico,  tal  política,  segundo  as  autoras,  provocou  “o  maior 
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31 
 
crescimento histórico contínuo da pesca extrativa”, contudo, sob o viés ambiental, gerou 
uma crise nos recursos pesqueiros em razão da sobrepesca
7
 
Já  no  segundo  período,  salientam  que  as  prerrogativas  da  SUDEPE  foram 
atribuídas ao IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais 
Renováveis,  cuja  atuação  foi  marcada  pelo  combate  à  pesca  predatória  e  a  adoção  de 
instrumentos de gestão pesqueira destinados à preservação das espécies. 
Em  1998,  início  do  terceiro  período,  foi  criado  do  o  DPA  (Departamento  de 
Pesca e Aquicultura) junto ao Ministério da Agricultura, com o intuito de retirar a tutela 
ambiental  do  setor  e  recuperar  a  política  desenvolvimentista,  o  que  ocasionou 
significativos  conflitos  institucionais entre o referido Ministério e o  IBAMA em  razão 
da divisão de competências na gestão e ordenamento dos recursos pesqueiros. 
Concluem as autoras que, ao longo desses três períodos, a pesca artesanal esteve 
à margem das preocupações governamentais, vez que as políticas ora se concentravam 
no desenvolvimento industrial do setor, ora na conservação e proteção dos recursos, fato 
que  prejudicou  sobremaneira  os  pescadores  artesanais,  os  quais,  em  razão  da  crise 
pesqueira, foram condenados ao empobrecimento e à concorrência desleal com a pesca 
industrial e a aquicultura empresarial. 
Acerca  das  políticas  públicas  implementadas  a  partir  de  2009,  as  autoras 
intitulam-nas  de  “neodesenvolvimentistas”,  caracterizadas  pela  forte  atuação 
governamental em investimentos em infraestrutura, oferta de crédito público e políticas 
de  distribuição  de  renda  viabilizada  por  benefícios  sociais  que  acabaram  por  gerar 
conformismo nos setores populares.  
No  conjunto,  a  atuação  governamental  nos  últimos  anos,  por  trás  de  um 
discurso  de  suposta  sensibilidade  social  e  responsabilidade  ambiental,  e 
apesar da diminuição imediata da pobreza, tem contribuído para aumentar a 
vulnerabilidade e a situação de injustiça ambiental sofrida pelas comunidades 
pesqueiras artesanais (PIERRI, 2013, p. 10). 
 
 
 
                                                           
7
 
Sobrepesca: exercício descuidado e predatório da pesca, que causa ameaça às espécies marítimas ou 
extinção das mesmas. Fonte: MALDONADO, S. C. Pescadores do mar. São Paulo: Ática, 1986. (Séries 
Princípios) 
 
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32 
 
3.2  AS  VICISSITUDES  DO  PESCADOR  ARTESANAL  E  O  CARÁTER 
TRANSGERACIONAL DE SUA ATIVIDADE 
O  ambiente  familiar  influencia  na  educação  e  formação  de  seus  integrantes 
(GARCIA, 2007). A cultura e os valores transmitidos das gerações mais velhas para as 
mais jovens não são imutáveis, uma vez que as gerações futuras, apesar da transmissão 
cultural,  apresentam  características  próprias  que  as  distinguem  da  geração  anterior  e 
quiçá da seguinte (BENINCÁ; GOMES, 1998, p. 179).  
Garcia  salienta  que  a  alteração  de  alguns  conteúdos  culturais  se  deve  aos 
condicionantes histórico-sociais presentes na vida das gerações procedentes: 
Outro  favor  que  caracteriza  a  transgeracionalidade  nas  famílias,  e  que  vai 
além da mera repetição de padrões culturais, é a tentativa, em muitos casos, 
de rejeição do modelo familiar de origem e a busca de novos padrões ou do 
modelo  oposto  pelas  gerações  mais  jovens  (FALCKE  &  WAGNER,  2005). 
Mesmo nesses casos ocorre a transmissão cultural, porém estas gerações mais 
jovens repensam os conteúdos culturais transmitidos e tentam não reproduzir 
os  aspectos  considerados  insignificantes  ou  desfavoráveis  ao  bem-estar  das 
gerações procedentes. (GARCIA, 2007, p. 19) 
 
Transportando  o  contexto  exposto  anteriormente  para  uma  família  típica  de 
pescadores,  é de se supor que  a vida  árdua do homem do mar contribua para que este 
faça  uma  reflexão  de  sua  própria  história  e  projete  no  filho  as  expectativas  e 
oportunidades  que  ele  não  teve.  Neste  sentido,  Bornholdt  e  Wagner  (apud  GARCIA, 
2007) destacam: 
A integração da criança na família envolve o ensino de habilidades sociais e a 
transmissão de normas culturais. Este é um processo que, gradualmente, leva 
os  progenitores  a  olharem  para  si  e  a  partir  de  suas  vivências  anteriores, 
buscarem  modelos  (ou  antimodelos)  em  como  exercer  a  parentalidade.  Esse 
olhar  pode  representar  a  espera  de  que  o  filho  tenha  oportunidades,  no 
mínimo  iguais,  ou,  em  algumas  ocasiões,  exatamente  opostas  às  suas 
vivências  em  épocas  anteriores.  Nesse  sentido,  esse  é  um  momento  que  a 
evolução  da  vida  favorece  um  encontro  com  o  passado.  (apud  GARCIA, 
2007) 
 
A  atividade  pesqueira  artesanal,  pela  sua  presença  na  construção  do 
conhecimento  coletivo  e  no  compartilhamento  cotidiano  de  sua  prática  entre  os 
familiares, reforça o seu caráter transgeracional. A perpetuação e a sustentabilidade da 
referida atividade estão ligadas à educação familiar, porém o que se assiste, segundo os 
relatos extraídos por Garcia (2007), é um generalizado receio quanto à continuidade da 
atividade  pesqueira  pelas  gerações  procedentes.  Tais  famílias  não  desejam  que  seus 
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33 
 
filhos  vivenciem  as  situações  de  risco  inerentes  à  pesca,  entre  as  quais,  os  perigos  do 
mar e as dificuldades socioeconômicas: 
Eu não quero levar pra não ficar dizendo que ta motivando eles (filhos) para 
eles  irem  para  o  mar,  daí  deixa  meio  de  lado  assim,  pra  ver  se  eles  vão 
deixando pra ver” (Roberto/ segunda  geração/ família da  zona urbana). “Eu 
digo por causa de ter uma qualidade de vida melhor, melhor que a minha. De 
estudar  e  ser  alguém”  (Giovane/  segunda  geração/  família  da  zona  rural). 
Nota-se com esta afirmação uma desvalorização da pesca como profissão e a 
valorização do estudo enquanto ferramenta para ascensão social, o que não é 
o caso da pesca. “Eles (os pais) querem que estude o que tem que estudar, te 
forma, que a pesca não é futuro, ele sempre falou” (Tomás/ terceira geração/ 
família da zona rural) (GARCIA, 2007, p. 55). 
 
Os filhos, por sua vez, tendem a rejeitar o modelo familiar de origem, buscando 
novos caminhos. Como se observa na obra de Bovy, este comportamento não é recente: 
Já hoje vemos, muitas vezes, os filhos de simples pescadores deixar a pesca, 
sobretudo  quando  podem  frequentar  instituições  escolares;  visam  a  um 
standing superior ao de seus pais (...) (BOVY, 1972, p.122) 
 
 
Não  bastasse  ser  a  pesca  uma  atividade  árdua  e  perigosa,  ela  também  não 
proporciona boas condições de vida aos pescadores em razão da baixa remuneração que 
oferece. Isso se deve, em grande parte, aos atravessadores ou intermediários. 
Diegues,  em  sua  obra  intitulada  “Pescadores,  Camponeses  e  Trabalhadores  no 
Mar”, assinala: 
Para os pescadores artesanais a cidade é o mercado por excelência, onde dia a 
dia eles se defrontam com os atravessadores no momento de vender o peixe. 
É ali também que vão procurar o combustível, o gelo, o óleo. É ali que eles 
habitam  também,  geralmente  em  casas  pobres,  nos  arrabaldes  da  cidade,  ou 
entulhados na área do porto. Desapareceu a roça, a plantação e surgiu o mar, 
para onde diariamente saem para buscar o peixe, imediatamente transformado 
em valor de troca. (DIEGUES, 1983, p. 221) 
 
Por ser o pescado um produto perecível, a sua produção exige investimentos na 
aquisição  de  gelo,  câmaras  de  conservação  ou  até  mesmo  para  outras  formas  de 
conservação,  como  a  salga  ou  a  secagem.  E  por  não  dispor  o  pescador  de  recursos 
suficientes à manutenção desses investimentos, submete-se à uma relação desvantajosa 
e dependente com o intermediário/financiador. 
Tal dependência pode se dar quando os compradores impõem o preço de venda 
do  produto,  ao  qual  o  pescador  se  submete;  quando  o  pescador,  por  ausência  de 
condições  de  ele  próprio  escoar  a  produção,  se  sente  obrigado  a  vender  o  pescado  ao 
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34 
 
intermediário e, por fim, quando o armador de pesca fornece ao pescador os insumos de 
produção em troca da garantia de compra do pescado capturado (ARAÚJO, 2009). 
 
Essa  relação  de  dependência  havida  entre  o  pescador  artesanal  e  os 
intermediários  ou  industriais  leva  à  reprodução  de  duas  polarizações  sociais:  de  um 
lado, o produtor independente - que aufere de seu trabalho baixa remuneração; de outro 
lado  o  comerciante  financiador  -  que  toma  para  si  a  maior  parte  do  lucro  (DIEGUES, 
1983). 
Sobre  essa  perniciosa  relação,  o  citado  autor,  ilustrando  caso  de  expropriação 
dos  pescadores  de  seus  meios  de  produção,  relata  uma  situação  ocorrida  no  estado  do 
Ceará:  
No  Ceará,  por  exemplo,  firmas  de  comercialização  de  lagosta  chegaram  em 
algumas  praias  emprestando  os  manzuás  (covos  para  a  captura  da  lagosta) 
aos  pescadores,  que,  em  contrapartida,  lhes  vendiam  a  produção.  Em  breve, 
começaram a financiar a reposição das jangadas. Pouco depois, a firma era a 
proprietária  da  maioria  dos  meios  de  produção.  Quando  a  predação  levou  à 
diminuição da produtividade, a firma levou embora os manzuás, deixando os 
pescadores na miséria (DIEGUES, 1983, p. 240). 
 
Acerca da autonomia dos pescadores, Maldonado (1986) destaca que: 
 
 
Uma das características da pesca artesanal é o poder decisório dos pescadores 
sobre aquilo que produzem. O processo de comercialização do pescado – seja 
por sua perecibilidade, seja por sua demora em se chegar com esse produto à 
terra – geralmente se dá através de intermediários ou atravessadores, que em 
toda  a  parte  tendem  a  se  caracterizar  como  gananciosos  e  até  certo  ponto 
indesejáveis  entre  os  pescadores,  com  quem  mantém  relações  tensas  e 
conflituosas (MALDONADO, 1986, p. 9). 
 
A  despeito  de  afirmar  que  as  relações  entre  intermediários  e  pescadores  sejam 
tensas e conflituosas, a autora ressalta que “em muitos casos têm-se registrado relações 
até certo ponto amistosas entre eles, que facilitam as transações e mascaram o conflito e 
a  desconfiança”  (MALDONADO,  1986,  p.  52).    O  fato  é  que,  mesmo  nas  relações 
amistosas, o pescador se vê numa posição de submissão, pois depende do intermediário 
para  fazer  empréstimos  e  financiamento  de  materiais,  reduzindo,  assim,  a  margem  de 
lucro de sua atividade. 
Outros fatores, além dos relatados, também podem comprometer o modo de vida 
dos  pescadores,  desencorajando  as  gerações  futuras  a  desenvolverem  a  atividade  de 
pesca. 
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35 
 
Lopes  et  al.  (2011),  ao  analisar  os  conceitos  de  território  e  identidade 
socioterritorial  no  âmbito  da  pesca  artesanal  no  Brasil,  disserta  sobre  os  impactos 
resultantes de fatores econômicos, ambientais e políticos que passaram a comprometer o 
modo  de  vida  dos  pescadores  e  a  fixação  de  sua  identidade.  Aquela  autora  atenta  que 
apesar  da  urbanização  das  regiões  litorâneas  e  do  crescimento  do  turismo,  a  cultura 
pesqueira vinha se mantendo. O referido fenômeno, todavia, não ocorria nas localidades 
onde se instalavam  grandes  empreendimentos.  O ritmo acelerado das mudanças, ainda 
segundo Lopes, seria o responsável por inviabilizar a “vida mais tradicional”, tanto no 
que tange à preservação dos costumes quanto ao acesso aos recursos pesqueiros: 
Muitos são forçados, por força da especulação imobiliária, a deixar a orla das 
praias, local primário de moradia. Outros não conseguem manter-se na pesca. 
Transformam-se  em  favelados  e  perdem  as  suas  referências,  adoecem, 
tornam-se alcoólatras, desestruturam toda a rede familiar (LOPES et al, 2011, 
p. 192). 
 
Callou  (2010),  em  seu  artigo  Povos  do  Mar:  herança  sociocultural  e 
perspectivas  no  Brasil,  onde  aborda  as  políticas  públicas  que  ele  denomina  de 
indiferentes  às  reivindicações  dos  pescadores,  aponta  outras  dificuldades  vivenciadas 
por  aqueles  trabalhadores  –  estas,  de  natureza  sanitária,  quais  sejam:  alimentação 
deficiente,  parcos  hábitos  de  higiene,  problemas  de  pele  e  cegueira  decorrentes  da 
constante exposição ao sol. 
Diegues (1983) tece considerações sobre a moradia dos pescadores na cidade. O 
perigo  de  furto,  roubo  ou  extravio  dos  equipamentos  de  pesca  os  obrigam  a  se 
concentrarem  em  localidades  próximas ao porto de desembarque. Por se tratar de uma 
população pobre, sem renda fixa e vivendo de atividade aleatória, é comum despertarem 
atitudes de desprezo por serem considerados “gente de segunda categoria”.  
As considerações de Muniz (2005) em sua obra  O Ouro do Mar, confirmam as 
afirmações  de  Diegues  quanto  à  desvalorização  dos  pescadores,  que  são  vistos  como 
“preguiçosos e vagabundos”. 
Por  ser  a  pesca  artesanal  uma  atividade  baseada  na  simplicidade,  o  caráter  de 
pequena  produção  não  possibilita  ao  pescador  uma  acumulação  constante,  vez  que 
depende,  basicamente,  dos  ciclos  naturais.  A  sua  reprodução  como  produtor 
independente está ligada, necessariamente, à abundância de pescado nas áreas costeiras 
que pode alcançar com a sua embarcação. Entretanto, estando o pescador cada vez mais 
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dependente do mercado, isso pode levá-lo a explorar os recursos pesqueiros além de sua 
capacidade  de  reprodução  natural,  ocasionando,  assim,  uma  predação  desordenada  de 
tais  recursos.  Isso  poderá  gerar  o  seu  fim  como  produtor  independente  e  sua 
proletarização em algum barco de pesca industrial ou, quiçá, sua marginalização como 
subempregado nas cidades (DIEGUES, 1983). 
Lopes  et  al.  (2011,  p.  192),  complementando  Diegues  (1983),  pontua  que  a 
escassez dos recursos naturais e o baixo nível de escolaridade e qualificação profissional 
aumentam  as  possibilidades  de  conflitos  entre  os  pescadores,  geram  sentimentos  de 
descrença  e  impotência,  o  que  contribui  para  a  desagregação  entre  seus  pares:  “É 
comum ouvirmos os pescadores afirmarem: - „Não quero que meu filho seja pescador‟, 
hoje pesca-ador!” 
Observa-se  que  as  vicissitudes  enfrentadas  pelos  pescadores,  especialmente  as 
relacionadas  aos  aspectos  socioeconômicos  contribuem  para  o  não  reconhecimento 
social e a marginalização desta categoria. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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4 METODOLOGIA 
O  delineamento  metodológico  escolhido  para  esta  pesquisa  foi  de  uma 
abordagem mista: quantitativa e qualitativa. 
A  abordagem  quantitativa  se  deu  em  razão  da  utilização  de  recursos  e  técnicas 
estatísticas e os resultados decorrentes da coleta de dados foram apresentados por meio 
de gráficos. 
Oliveira destaca: 
A utilização de métodos e técnicas em pesquisa está associada aos objetivos, 
hipóteses e aos fundamentos teóricos do objeto de estudo. Esse procedimento 
exige  uma  escolha  criteriosa  e  sistemática  para  se  fazer  a  descrição, 
explicação e análise de fatos e fenômenos. Esse procedimento se faz através 
da  abordagem  qualitativa  e  da  abordagem  quantitativa,  ou  ainda  com  a 
aplicação  simultânea  desses  dois  tipos  de  abordagem  para  interpretação  e 
análise do objeto de estudo. (OLIVEIRA, 2013, p. 58) 
 
Já a abordagem qualitativa, indicada ao tipo de estudo sobre opiniões, valores ou 
crenças de determinado grupo, mostrou-se hábil para compreender a realidade de forma 
mais completa. Neste sentido, Dal-Farra e Lopes enumeram as vantagens da abordagem 
qualitativa: 
A  capacidade  de  gerar  informações  mais  detalhadas  das  experiências 
humanas,  incluindo  suas  crenças,  emoções  e  comportamentos,  considerando 
que as narrativas obtidas são examinadas dentro do contexto original em que 
ocorrem. Além disso, [...] proporcionam análises profundas das experiências 
humanas  no  âmbito  pessoal,  familiar  e  modelos  variados.  (DAL-FARRA; 
LOPES, 2013, p.71) 
 
De  fato,  a  utilização  das  duas  abordagens  não  é  apenas  factível,  mas  também 
recomendável, como conclui Oliveira (2013, p. 58): “[...] esses dois tipos de abordagem 
não  são  excludentes,  pois,  na  opção  por  uma  pesquisa  qualitativa,  pode-se  recorrer  a 
dados quantitativos para melhor análise do tema em estudo e vice-versa”. 
Os problemas abordados pelos pesquisadores das ciências sociais costumam ser 
de  difícil  compreensão  e  o  uso  de  apenas  uma  das  abordagens,  quantitativa  ou 
qualitativa,  é  inadequado  para  enfrentar  a  complexidade  peculiar  desse  ramo  do 
conhecimento.  Assim,  pode  se  mostrar  mais  eficaz,  no  sentido  de  maior  compreensão 
dos problemas investigados, a combinação das duas formas de pesquisa ao invés de se 
abordar  cada  uma  delas  isoladamente  (CRESWELL,  2010).  Por  tais  razões  e  com  a 
pretensão  de  se  alcançar  uma  análise  mais  profícua  do  tema,  o  procedimento  de 
pesquisa adotado foi o quantitativo e o qualitativo. 
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38 
 
4.1 CAMPO DA PESQUISA 
A pesquisa foi realizada no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia 
do Ceará, campus Acaraú, nas comunidades e em escolas públicas de ensino médio do 
município de Acaraú e seus Distritos.  
A escolha do campus se deu em função do vínculo que tem a pesquisadora com 
esta  Instituição:  servidora  técnico-administrativo  desde  outubro  de  2014.  Ademais, 
considerando  os  objetivos  da  Portaria  n°  7,  de  22  de  junho  de  2009,  do  Ministério  da 
Educação  (MEC),  o  produto  técnico  relacionado  ao  tema  do  estudo  deve, 
necessariamente,  ser  aplicado  na  Instituição  onde  a  pesquisadora  está  lotada, 
justificando-se, assim, a escolha. 
 
4.2 POPULAÇÃO/PARTICIPANTES 
A população pesquisada compreende: 
 
a) Estudantes do 3º ano do Ensino Médio das Escolas Públicas de Acaraú: 
 
O objetivo em relação a essa amostra é identificar se os concluintes do 3º ano do 
Ensino  Médio  das  Escolas  Públicas  de  Acaraú  se  interessam  por  cursos  técnicos,  em 
especial, pelo Curso Técnico em Pesca.  
O Município de Acaraú  possui 05 (cinco) escolas públicas estaduais  de  Ensino 
Médio: Liceu de Acaraú Maria Alice Ramos Gomes (sede de Acaraú), Tomaz Pompeu 
de  Sousa  Brasil  (sede  de  Acaraú),  Vicente  de  Paulo  da  Costa  (distrito  de  Juritianha), 
Maria Conceição de Araújo (distrito de Aranaú) e Marta Maria Giffoni de Sousa (sede 
de Acaraú). Esta última, por ofertar educação profissional, não integrou a pesquisa.  
Com a finalidade de delimitar a amostra dos alunos, obteve-se junto à CREDE 3, 
Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação, subordinada à Secretaria de 
Educação do estado do Ceará, a discriminação das escolas, seus respectivos períodos e a 
estimativa de alunos ingressantes no 3º ano do Ensino Médio de 2015
8
                                                           
8
 Dados fornecidos por e-mail, em 04 de dezembro de 2014, pela CREDE 3. O número de alunos na referida relação 
foi estimado, pois o prazo para encerramento de novas matrículas e transferência dar-se-ia apenas ao final de 
fevereiro de 2015.
 
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39 
 
Considerando  que  o  total  de  alunos  estimado  para  cursar  o  3°  ano  do  ensino 
médio  em  2015  representou  um  universo  muito  amplo  –  790  –  optou-se  por  trabalhar 
com uma turma por turno, em cada uma das quatro escolas pesquisadas. 
 
b) Genitores ou responsáveis legais dos estudantes do 3º ano do Ensino Médio das 
Escolas Públicas Estaduais de Ensino Médio de Acaraú 
 
O acesso aos pais tem por objetivo analisar a percepção destes sobre a profissão 
de pescador e suas principais dificuldades.  
 
c) Servidores do IFCE (docentes e técnicos) e do MEC 
 
A  escolha  dos  servidores  do  campus  entre  os  participantes  tem  por  objetivo 
levantar  informações  sobre  a  implantação  e  oferta  do  curso,  bem  como  identificar  o 
cenário atual de sua oferta.  
 
Além  disso,  inclui-se  também  entre  os  participantes  um  servidor  do 
MEC/SETEC envolvido com as políticas públicas. 
 
4.3 DESCRIÇÃO DOS INSTRUMENTOS 
 
Como  instrumentos,  optou-se  pela  utilização  de  questionário  estruturado  e 
entrevista semiestruturada para a coleta de dados. 
O  questionário  estruturado,  que  consiste  na  abordagem  quantitativa,  foi  o 
instrumento escolhido para os alunos. Contemplou questões fechadas, complementadas 
por  abertas,  com  o  intuito  de  revelar  informações  não  previstas  inicialmente  e  que 
eventualmente  pudessem  aprofundar  o  objeto  de  estudo,  enriquecendo,  assim,  a 
investigação.  Para  tanto,  o  instrumento  reuniu  questões  ligadas  aos  cursos  de 
preferência dos participantes e, também, questões relacionadas à divulgação do curso de 
pesca pelo IFCE.  
O  instrumento  destinado  à  coleta  de  dados  dos  pais  dos  alunos  e  servidores 
técnicos  do  Curso  Técnico  de  Nível  Médio  Subsequente  em  Pesca  foi  a  entrevista 
semiestruturada,  que  consistiu  na  abordagem  qualitativa,  constituída  por  um  roteiro 
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flexível  –  apenas  como  condução  e  direcionamento  –  com  o  objetivo  de  propiciar  ao 
entrevistado maior liberdade em sua fala.  
Em relação aos pais, buscou-se a opinião destes sobre: a valorização ou não do 
pescador pela sociedade, a atividade da pesca e o futuro dos filhos.  
Quanto aos servidores, o objetivo foi levantar informações sobre a implantação e 
oferta do Curso Técnico de Nível Médio Subsequente em Pesca, bem como identificar o 
cenário  atual  da  oferta,  com  ênfase  nas  questões  de  estrutura  física,  corpo  docente  e 
divulgação do curso. 
 
4.4 PROCEDIMENTOS 
A pesquisadora iniciou suas atividades profissionais no IFCE/campus Acaraú em 
outubro  de  2014  e  verificou  que  na  primeira  formatura  dos  cursos  técnicos  da  qual 
participou, em dezembro de 2014, havia apenas um formando no curso de pesca (turma 
2012.2). O quantitativo inexpressivo despertou a sua curiosidade e levou-a a indagar aos 
servidores de seu setor (Coordenação Técnico-Pedagógica) o porquê de um número tão 
baixo. A partir de algumas respostas inferiu que à sua frente delineava-se um problema 
que urgia ser investigado, vez que causava – e ainda causa - preocupação aos gestores 
da Instituição: a baixa demanda do curso de pesca. 
Iniciou-se,  assim,  a  pesquisa.  Primeiramente  foi  realizada  uma  revisão  teórica 
sobre o tema, visitas exploratórias aos setores ligados à pesca - secretaria de agricultura 
e  pesca,  colônia  de  pescadores,  indústria  de  beneficiamento  de  pescado  -  e  biblioteca 
pública, no intuito de se obter registros históricos sobre a vocação do município na área 
de pesca. Ato contínuo, elaborou-se a construção dos instrumentos de pesquisa.  
Realizou-se um  pré-teste do questionário  com  11 alunos dos primeiro semestre 
dos  cursos  técnicos  do  campus  do  IFCE,  os  quais  afirmaram  não  terem  encontrado 
dificuldades quanto à compreensão ou preenchimento do instrumento. 
Objetivando abarcar o maior número possível de alunos, optou-se pela aplicação 
de questionário a esse público. Após obter autorização da Coordenadora da CREDE 3, 
Prof.  Elvira  Maria  Fernandes  Veras,  para  realizar  a  pesquisa  nas  escolas  citadas,  a 
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41 
 
pesquisadora  contatou  pessoalmente  todos  os  diretores  das  escolas  envolvidas  para 
agendar as datas de aplicação do instrumento. 
A coleta de dados nas escolas se deu no período de 14 de maio a 18 de junho de 
2015, nos turnos matutino, vespertino e noturno (1 turma por turno), durante o horário 
de  aulas.  A  amostra  não  foi  aleatória,  mas  sim  por  conveniência.  As  turmas  foram 
escolhidas pelo diretor de cada escola, seguindo  a recomendação da pesquisadora para 
que  a  escolha  recaísse,  se  possível,  na  turma  mais  numerosa.  A  entrada  em  sala  foi 
previamente  acertada  com  o  professor  da  turma,  que  auxiliou  a  pesquisadora  na 
distribuição e recolhimento dos questionários. 
A  finalidade  e  a  importância  da  pesquisa  foram  esclarecidas  aos  alunos.  Ato 
contínuo,  explicou-se  o  desdobramento  da  fase  seguinte:  entrevista  com  os  pais,  após 
prévio contato e agendamento com o aluno. Em seguida, foi lido e explicado o termo de 
consentimento livre e  esclarecido  –  TCLE, documento esse previamente  assinado pela 
pesquisadora  e  seu  orientador.  Nenhum  dos  alunos  presentes  em  sala,  em  todas  as 
escolas visitadas, se recusou a participar. 
A  duração  da  aplicação  do  instrumento  variou  conforme  o  número  de 
participantes, mas em média concluiu-se em 40 minutos. 
 
Notou-se diferença de comportamento entre os alunos pesquisados. Os da zona 
rural  (Aranaú  e  Juritianha)  se  mostraram  mais  receptivos  e  comportados  do  que  os 
alunos  das  escolas  localizadas  na  sede.  Na  maioria  das  turmas  das  escolas  Tomaz 
Pompeu de Souza Brasil e Liceu de Acaraú Maria Alice Gomes, escolas da sede, houve 
muita algazarra e desatenção no preenchimento do questionário. Isso não se aplicou às 
turmas de EJA, provavelmente por serem alunos de idade mais elevada. 
Das três localidades visitadas, Aranaú é a que se destaca pela pobreza e descaso 
governamental.  A  despeito  desse  fato,  dentre  as  escolas  pesquisadas  foi  a  que  mais 
impressionou positivamente a pesquisadora, visto ser uma escola receptiva, acolhedora 
e organizada.  
A instituição possui baixo índice de violência e existe um  forte vínculo afetivo 
entre professores, funcionários e alunos, provavelmente por se tratar de escola inserida 
numa  comunidade  pequena,  onde  todos  se  conhecem.  O  acompanhamento  individual 
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dos  alunos  efetivamente  acontece.  Os  professores  conhecem  os  pais  dos  alunos  e  os 
visitam habitualmente.  
Segundo  o  Diretor,  cortes  orçamentários  exigiram  otimização  dos  recursos, 
adaptação  de  processos  e  da  logística.  Os  espaços  de  convivência  foram  construídos 
pelos alunos e professores com material de refugo. A escola possui jardins repletos de 
flores, suspensos por garrafas pet. Os materiais de limpeza são feitos na própria escola 
pelo professor de química e alunos. 
Além  disso,  apesar  do  valor  absurdamente  baixo  da  merenda  por  aluno  (0,34 
centavos),  a escola  consegue oferecer uma  alimentação natural, com  cardápio  variado: 
canja,  sopa  de  feijão,  de  carne,  arroz  com  ovos,  cuscuz  com  ovos,  arroz  com  frango 
(Maria  Isabel),  vitamina  (polpa  natural  de  caju,  goiaba,  abacaxi  ou  tamarindo),  leite, 
achocolatado,  biscoito  e  mingau  doce.  No  caso  das  verduras,  20%  é  proveniente  da 
horta  da  própria  escola  e  o  restante  da  agricultura  familiar,  que  fornece  itens  a  preços 
baixos e com alta qualidade. 
Apesar  de  enfrentar  graves  problemas,  entre  os  quais  se  pode  citar:  orçamento 
reduzido,  ausência  de  sinal  de  telefone  na  cidade,  períodos  longos  sem  internet  e 
transporte  descontínuo  dos  alunos  -  o  que  implica  em  evasão  noturna  de  50%  e  não 
cumprimento  dos  dias  letivos  –  a  escola  sobrevive  de  forma  digna,  honrando  a 
educação. 
 
No  total,  foram  aplicados  253  questionários  nas  4  escolas  pesquisadas.  Desse 
número, 52 alunos concordaram com a entrevista dos pais. 
 
Surpreendeu  a  pesquisadora  o  baixo  número  de  alunos  que  aquiesceram  com  a 
entrevista de seus genitores. Uma possível explicação para o fato seria a desconfiança. 
Já  para  alguns  professores,  quando  indagados  pela  pesquisadora,  disseram  tratar-se, 
basicamente, de falta de interesse. Um deles, curiosamente, citou a preguiça como real 
motivo desse fenômeno. 
 
Outra  questão  que  merece  registro  é  o  baixo  nível  educacional  de  parte  dos 
alunos pesquisados. Notou-se que muitos deles, apesar de se encontrarem na etapa final 
do ensino médio, mal sabem  ler e escrever. Houve um  número bastante  expressivo de 
erros gramaticais, ortográficos e de concordância, nas respostas do tipo aberta. 
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43 
 
 
As  entrevistas  com  os  pais  foram  realizadas  nas  três  localidades:  sede  do 
Município de Acaraú e Distritos de Aranaú e Juritianha (zona rural). O primeiro distrito 
fica  a  aproximadamente  26  km  da  sede  e  o  segundo  15  km.  Ambos  possuem  várias 
comunidades,  algumas  de  difícil  acesso.  A  falta  de  pavimentação  e  o  terreno  arenoso 
dificultaram  a  locomoção.  O  trecho  mais  crítico  compreendeu  aproximadamente  9  km 
antes  da  chegada  em  Aranaú,  uma  estrada  de  péssima  qualidade  cujo  pavimento  se 
transformou  em  enormes  buracos.  O  breve  percurso  de  9  km  que  em  tese  demoraria 
alguns minutos transformou-se em uma jornada estressante e perigosa de 45 minutos.  
 
Tentou-se,  por  várias  vezes,  entrevistar  os  pais  na  própria  escola,  mas  todas 
tentativas restaram frustradas em razão da falta de compromisso dos alunos contatados. 
O  que  se  mostrou  eficaz  foram  as  visitas  às  residências  sem  prévio  agendamento, 
sempre acompanhadas  de alguns  alunos que se dispuseram  a  ajudar a pesquisadora na 
localização dos endereços. 
 
A  maioria  dos  pais  entrevistados  mostrou-se,  num  primeiro  momento, 
desconfiada  com  a  inesperada  visita.  Alguns  acharam  que  se  tratava  de  alguma 
fiscalização  relacionada  ao  bolsa  família,  benefício  governamental  de  transferência  de 
renda destinado às pessoas em estado de pobreza. Por essa razão a pesquisadora deixou 
de perguntar a renda familiar dos entrevistados, a fim de não comprometer a entrevista. 
Após a “quebra de gelo” as pessoas entrevistadas se mostraram cooperativas.  
 
A finalidade da pesquisa e o objetivo da visita foram explicados e, em seguida, 
colheu-se  a  assinatura  dos  participantes  no  TCLE.  Alguns  entrevistados  não  são 
escolarizados, contudo fizeram questão de apor seu nome nos termos de consentimento, 
a despeito da demora e relativa dificuldade. 
 
Todas  as  entrevistas  foram  gravadas  com  a  aquiescência  dos  participantes. 
Foram entrevistados 25 pais, sendo 11 homens e 14 mulheres. Em relação aos homens, 
5 pescadores, 2 ex-pescadores, 1 motorista de ambulância, 1 representante de vendas, 1 
eletricista e 1 agricultor. Dentre as mulheres, 3  marisqueiras, 6 do lar, 1 vendedora de 
cosméticos, 1 professora, 2 agricultoras e 1 agente comunitária. Quanto à escolaridade, 
7  analfabetos,  11  com  ensino  fundamental  incompleto,  2  com  ensino  fundamental 
completo,  1  com  ensino  médio  incompleto,  2  com  ensino  médio  completo  e  1  com 
ensino superior completo. 
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Em relação às entrevistas dos servidores, docentes e técnicos administrativos do 
IFCE,  foram  adotados  os  mesmos  procedimentos  já  relatados.  Por  se  tratar  de  um 
público  bem  informado  e  de  escolaridade  elevada,  não  houve  dificuldades  nesse 
processo. 
 
Existem  atualmente  no  campus  52  professores  e  40  Técnicos  Administrativos. 
Foram  entrevistados  12  servidores  do  IFCE:  8  docentes,  2  técnicos  de  laboratório 
(pesca),  o  Diretor  do  Campus  e  o  Coordenador  da  Coordenação  de  Comunicação  e 
Eventos.  Além  disso,  foi  entrevistado  um  servidor  do  Ministério  da  Educação, 
envolvido com Políticas Públicas. 
 
As  entrevistas  foram  realizadas  no  período  de  09  de  abril  a  23  de  setembro  de 
2015. 
4.5 TRATAMENTO DOS RESULTADOS 
Os dados coletados através do questionário foram lançados no programa Excel, 
quantificados e analisados por meio de gráficos.  
As entrevistas, tanto dos servidores quanto dos pais, foram transcritas e, após a 
devida  organização  das  falas,  reduzidas  em  categorias  de  análise  para  melhor 
compreensão  do  todo,  utilizando-se  a  técnica  de  análise  de  conteúdo  proposta  por 
Bardin (1977).  
O  material  decorrente  dos  questionários  e  entrevistas  compõem  a  sustentação 
empírica  da  investigação,  analisada  com  base  no  referencial  teórico  e  apresentada  a 
seguir. 
 
 
 
 
 
 
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45 
 
5 A VISÃO DOS ATORES 
 
5.1 A VISÃO DOS ALUNOS 
A análise quantitativa foi realizada por meio de gráficos, ordenados conforme a 
numeração das questões do questionário estruturado, aplicado aos alunos do terceiro ano 
do ensino médio.  
Com  esse  instrumento  buscou-se  averiguar  se  os  alunos  se  interessam  pelos 
cursos  técnicos,  em  especial  pelo  curso  de  pesca,  ou  se  preferem,  como  colocado  nas 
hipóteses  de  trabalho,  os  cursos  em  nível  de  graduação.  O  questionário  contemplou, 
ainda,  por  meio  de  questões  fechadas,  a  possibilidade  de  se  averiguar  a  eficácia  da 
divulgação do curso junto às escolas nas quais o questionário foi aplicado.  
O encerramento do ensino médio apresenta ao jovem prestes a adentrar na vida 
adulta uma série de desafios: continuar ou não os estudos, definir uma profissão, optar 
pelo  ingresso  imediato  no  mercado  de  trabalho  ou  por  uma  formação  mais  ampla, 
mediante o ingresso em universidade. Segundo Sparta e Gomes: 
 
A  adolescência  é  uma  fase  da  vida  caracterizada  por  uma  série  de  mudanças,  não  só 
fisiológicas,  cognitivas  e  psicológicas,  mas  também  em  relação  aos  papéis  sociais  a 
serem assumidos pelo indivíduo. Entre eles, destaca-se o papel do trabalhador. O jovem 
brasileiro que chega ao fim do ensino médio é chamado a fazer escolhas profissionais e 
pode  optar  pela  continuação  dos  estudos  ou  pelo  ingresso  imediato  no  mercado  de 
trabalho. (SPARTA; GOMES, 2005, p. 47) 
 
O indivíduo que concluir o ensino médio e optar pela continuidade dos estudos 
poderá  ingressar  tanto  na  educação  profissional  e  tecnológica  quanto  na  educação 
superior, conforme dispõe os artigos 39 e 44 da Lei nº 9.394/96 - LDB.  
Os alunos foram indagados (Gráfico 1) se, após o ensino médio, continuariam os 
seus  estudos.  O  gráfico  a  seguir  indica  que  78,3%  deles  responderam  “sim”;  19,8% 
“não sabem”; 1,6% afirmaram que “não” e apenas 0,4%, que refere-se a um aluno, “não 
respondeu” a questão. 
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46 
 
 
Gráfico 1: Continuação dos estudos após o ensino médio. 
 
Os dados indicam que a maioria dos participantes (78,3%) considera importante 
para  suas  vidas  a  formação  por  meio  da  escola.  Observa-se,  também,  um  número 
expressivo  de  alunos  indecisos  (19,8%),  provavelmente  por  entenderem  o  ingresso 
imediato no mercado de trabalho mais vantajoso que o aumento da trajetória formativa. 
 
Outro  aspecto  investigado  foi  o  curso  desejado  pelos  alunos  (Gráfico  2), 
independentemente  das  oportunidades  educacionais  existentes.  Como  trata-se  de 
questão aberta e foram analisados 253 questionários - o que representa um universo bem 
expressivo  -,  o  gráfico  abaixo  destaca  apenas  os  percentuais  referentes  aos  10  cursos 
mais  citados  pelos  entrevistados,  além  do  percentual  dos  que  não  responderam  a 
questão. 
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Gráfico 2: Curso desejado. 
 
Os  dados  apontam  uma  possível  preferência  dos  estudantes  por  cursos  de 
graduação e historicamente de maior tradição, como se observa pelos  quatro primeiros 
lugares, na seguinte ordem de preferência: Administração (9,09%), Psicologia (7,11%), 
Direito  (6,72%)  e  Medicina  (5,53%).  Além  disso,  é  manifesto  o  desinteresse  dos 
participantes pelos cursos técnicos. 
Sparta  e  Gomes  discorrem  sobre  a  tendência  dos  jovens,  após  a  conclusão  do 
ensino médio, de se decidirem por cursos mais tradicionais de graduação. A razão de tal 
predileção  estaria,  segundo  eles,  no  próprio  desenvolvimento  histórico  da  educação 
brasileira: 
Apesar  da  variedade  de  possibilidades  para  a  continuação  dos  estudos 
existente  no  país,  verifica-se  uma  tendência  do  jovem  que  termina  o  ensino 
médio de fazer escolhas profissionais ligadas aos cursos mais tradicionais de 
graduação oferecidos pela educação superior. Essa situação está diretamente 
ligada ao desenvolvimento histórico do ensino médio, da educação superior e 
da educação profissional em nosso país. (SPARTA; GOMES, 2005, p.47) 
 
 
9,09% 
7,11% 
6,72% 
5,53%  5,53% 
5,14% 
3,95% 
3,56% 
3,16%  3,16% 
background image
48 
 
Historicamente  o  ensino  secundário  objetivava  a  preparação  dos  jovens 
pertencentes  à  elite  para  o  ingresso  no  ensino  superior.  O  ensino  técnico-
profissionalizante,  por  sua  vez,  tinha  a  atribuição  de  suprir  a  demanda  de 
profissionalização  das  classes  menos  favorecidas  da  sociedade.  Com  o  decorrer  do 
tempo, o governo brasileiro, objetivando universalizar o ensino profissional e livrá-lo do 
estigma  de  ser  um  ensino  inferior,  definiu  como  uma  das  estratégias  a  criação  dos 
cursos  tecnológicos  (educação  profissional  de  ensino  superior),  todavia  o  preconceito 
persistiu e continua sendo uma questão de difícil solução (SPARTA; GOMES, 2005). 
Alertam  o  autor,  baseados  em  estudo  de  Lassance,  Grocks  e  Francisco,  que  a 
valorização exacerbada do ensino superior, sobretudo dos cursos mais tradicionais, pode 
surtir efeitos negativos na formação dos jovens: 
No  entanto,  segundo  Lassance,  Grocks  e  Francisco  (1993),  a  entrada  na  universidade 
tem assumido para o jovem brasileiro um caráter de tarefa evolutiva em si mesma, como 
se  o  ingresso  na  educação  superior  fosse  uma  continuidade  natural  a  ser  assumida  por 
quem termina o ensino médio e a única alternativa disponível de inserção no mundo do 
trabalho.  Essa  valorização  do  ensino  superior,  principalmente  dos  cursos  mais 
tradicionais, vem exercendo influência negativa sobre as diretrizes do ensino médio, que 
vem  deixando  de  lado  o  seu  papel  de  preparação  do  jovem  para  o  mundo  adulto, 
conforme defendido pela LDB e se transformando em um veículo de preparação para o 
concurso vestibular (SPARTA; GOMES, 2005, p. 48). 
 
Como  desdobramento  do  gráfico  abaixo  (Gráfico  3),  os  cursos  eleitos  foram 
separados por sexo. 
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49 
 
Gráfico 3: Curso desejado por sexo. 
 
Neste  gráfico,  o  percentual  dos  que  não  responderam  revela  um  dado 
interessante: os homens se mostraram mais indecisos do que as mulheres em relação ao 
seu futuro profissional, excetuando-se, por óbvio, aqueles que não tenham respondido a 
questão porque optaram pela não continuidade dos estudos após o ensino médio. Outro 
aspecto  a  ser  relevado  é  que  nenhuma  mulher  optou  por  cursar  Engenharia  Mecânica, 
curso  tradicionalmente  ligado  ao  gênero  masculino.  Observa-se,  também,  que  um 
percentual  maior  de  mulheres  em  relação  aos  homens  optaram  por  cursos  nos  quais 
geralmente  estão presentes  relações de afeto  e troca, como  Enfermagem,  Licenciatura, 
Psicologia e Medicina. 
Aos  alunos  foram  apresentadas  4  alternativas  de  cursos  (Gráfico  4): 
Bacharelado,  Licenciatura, Tecnologia e Técnico  Subsequente (nível  médio).  Indagou-
se aos mesmos  qual  seria a opção desejada. O  gráfico  abaixo demonstra  que 68% dos 
participantes  optaram  pelo  Bacharelado;  11%  pela  Licenciatura;  11%  pelo  Técnico 
Subsequente  (nível  médio);  8%  pelo  Tecnológico  (técnico  de  nível  superior);  2%  não 
responderam. 
 
73,9% 
83,3% 
52,9% 
57,1% 
85,7% 
92,3% 
90,0% 
0,0% 
12,5% 
25,0% 
26,1% 
16,7% 
47,1% 
42,9% 
14,3% 
7,7% 
10,0% 
100,0% 
87,5% 
75,0% 
FEMININO
MASCULINO
background image
50 
 
 
Gráfico 4: Alternativas após a conclusão do ensino médio: bacharelado, licenciatura, 
técnico e tecnólogo. 
 
Novamente nota-se a preferência dos participantes pelo bacharelado, pois apenas 
11% os participantes optou pelos cursos técnicos de nível médio. Uma hipótese passível 
de explicar essa inclinação pelos cursos de nível superior é o desejo de ascensão social 
dos  participantes  e  a  importância  que  atribuem  a  profissões  de  nível  superior.  Além 
disso, é possível que considerem desvantajoso investir o próprio tempo, no mínimo dois 
anos,  em  outro  curso  de  nível  igual  ao  que  já  obtiveram  com  a  conclusão  do  nível 
médio. 
Como  desdobramento  do  Gráfico  4,  solicitou-se  aos  participantes  que 
justificassem  a  alternativa  escolhida  (Gráfico  5):  bacharelado,  licenciatura,  técnico 
subsequente  (nível  médio)  e  tecnólogo  (técnico  de  nível  superior)  As  respostas  mais 
recorrentes, agrupadas em categorias, foram: gostar/identificar com a área ou profissão 
(37,9%); status ou recompensa financeira (8,3%); solidariedade (7,5%); formação mais 
ampla/faculdade (6,7%); dúvida/indecisão (6,7%); possibilidade de inserção no mercado 
de  trabalho  (4,7%);  sonho  ou  paixão  (4,0%);  gostar  de  animais  (4,0%)  e  inovação 
(2,8%).  Houve,  também,  respostas  incompreensíveis  (3,6%),  questão  sem  resposta 
(3,2%)  e  respostas  ilegíveis  (1,6%).  As  respostas  variadas  foram  categorizadas  como 
“Outras” (9,1%). 
Técnico 
Subsequente 
11% 
Tecnológico 
8 % 
Bacharelado 
68% 
Licenciatura 
11% 
Não respondeu 
2% 
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51 
 
Gráfico 5: Justificativa do gráfico 4. 
 
Os  participantes  foram  indagados  se  conhecem  o  IFCE  –  Instituto  Federal  de 
Educação,  Ciência  e  Tecnologia  do  Ceará  (Gráfico  6):  72%  deles  assinalaram  “sim”; 
25%  “não”  e  3%  não  responderam.  O  percentual  dos  que  afirmaram  “sim”  é 
significativo  e  indica  que  o  campus  é  bem  conhecido  na  região.  Sua  localização  é 
estratégica,  fica  ao  lado  do  fórum  e  a  menos  de  um  quilômetro  das  escolas  Liceu  de 
Acaraú Maria Alice Ramos Gomes e Tomaz Pompeu de Souza Brasil, fato que facilita a 
ida, para fins de visitação, dos estudantes dessas escolas ao IFCE/Campus Acaraú. 
 
37,9% 
9,1% 
8,3% 
7,5% 
6,7% 
6,7% 
4,7% 
4,0% 
4,0% 
3,6% 
3,2% 
2,8%  1,6% 
Gostar/identificar com área ou
profissão
Outros
Status/recompensa financeira
Solidariedade
Formação mais ampla/Faculdade
Dúvida/indecisão
Possibilidade de inserção no mercado
de trabalho
Sonho/paixão
Gostar de animais
Incompreensível
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52 
 
 
Gráfico 6: Conhece o IFCE? 
 
 
 
Um dado que despertou  atenção, e merece registro, é em  relação ao percentual 
dos que afirmaram não conhecer o Instituto – 25%. Desses 25% a maioria do alunos que 
desconhece o IFCE, 74%, é da área rural (Distritos de Aranaú e Juritianha). Isso revela 
que  uma  possível  deficiência  no  intercâmbio  entre  o  Instituto  e  as  escolas  Maria  da 
Conceição Araújo (Aranaú) e Vicente de Paulo da Costa (Juritianha), provavelmente em 
razão da distância entre essas localidades e o IFCE/Acaraú.
 
No  item  5  do  questionário,  os  alunos  foram  solicitados  a  manifestarem  a  sua 
escolha  pelos  4  cursos  técnicos  subsequentes  ofertados  pelo  IFCE  (aquicultura, 
construção  naval,  pesca  e  restaurante  e  bar),  em  ordem  de  preferência  (1,  2,  3  e  4, 
iniciando-se  com  1  o  de  maior  preferência).  Foi-lhes  dada,  também,  a  opção  de 
“nenhum”,  caso  não  houvesse  interesse  em  cursá-los.  O  gráfico  abaixo  (Gráfico  7) 
mostra que 20% dos alunos não escolheriam nenhum dos 4 cursos ofertados. Os outros 
20%  representam  as  respostas  incorretas  por  não  obedecerem  ao  comando  da  questão, 
consideradas  no  gráfico  abaixo  como  “inválidas”.  Neste  caso  incluem-se  as  respostas 
com  preenchimento  incorreto  (apenas  um  ou  dois  cursos,  assinalados  com  “X”  e  não 
com números).  
 
background image
53 
 
 
Gráfico 7: Respostas válidas, inválidas e opção “nenhum”. 
 
No gráfico abaixo (Gráfico 8) observa-se que o Curso de Pesca lidera a 3ª e a 4ª 
opção na preferência dos alunos. Verificou-se, também, que ele figura em último lugar 
como  a  primeira  opção  dos  alunos  (13%),  demonstrando  alta  rejeição  em  relação  aos 
demais cursos. 
 
Gráfico 8: Escolhas dos cursos por ordem de preferência. 
 
 
 
20% 
60% 
20% 
Nenhum
Válidos
Inválidos
36,0 
19,0 
21,0 
25,0 
23,0 
31,0 
29,0 
17,0 
13,0 
24,0 
34,0 
30,0 
29,0 
26,0 
17,0 
28,0 
0
5
10
15
20
25
30
35
40
1
2
3
4
P
a
r
ti
ci
p
a
ç
ã
r
e
l
a
ti
v
a
 
(%)
 
Construção Naval
Aquicultura
Pesca
Restaurante e Bar
º 
º 
º 
º 
background image
54 
 
Na  questão  6,  os  alunos  foram  perguntados  se  conhecem  o  curso  de  pesca 
(Gráfico  9):  2,8%  dos  pesquisados  não  responderam  a  questão;  13,4%  nunca  ouviram 
falar; 64,4% disseram que não o conhecem, mas já ouviram falar; 19% afirmaram que o 
conhecem razoavelmente e 0,4% afirmou conhecer o curso com profundidade. 
 
Gráfico 9: Você conhece o Curso Técnico em Pesca do IFCE? 
 
Os dados indicam elevado número de alunos que não conhecem o curso (13,4%  
e 64,4%), o que sugere uma divulgação precária, especificamente em  relação ao curso 
de pesca, e a necessidade de maior mobilização do Instituto nesse sentido. 
Aos  alunos  que  assinalaram  “sim”  na  questão  anterior  (conhecem  o  curso  de 
pesca),  foi  solicitado  que  apontassem  por  qual  meio  de  comunicação  chegaram  a 
conhecê-lo (Gráfico 10). 
 
 
 
0,4% 
19,0% 
64,4% 
13,4% 
2,8% 
%
Com profundidade
Razoavelmente
Não, mas já ouvi falar
Nunca ouvi falar
Não respondeu
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55 
 
 
Gráfico 10: meio de divulgação mais eficaz. 
 
Contrariando  expectativas  da  pesquisadora,  o  rádio,  considerado  um  meio  de 
comunicação bastante eficaz nas cidades do interior do estado, representou apenas 2,2% 
das escolhas.   Igualmente a internet,  meio de  comunicação de larga  escala, foi o meio 
eleito  por  apenas  6,5%  dos  participantes.  Quanto  aos  cartazes  espalhados  pela  cidade 
não  foi  a  escolha  de  nenhum  dos  participantes  (0,0%).  O  meio  de  comunicação  mais 
eficaz  foi  o  “boca  a  boca”  de  amigos  ou  parentes  que  estudam  no  Instituto  (45,7%), 
seguido de visita do IFCE nas escolas (26,1%) e visita das escolas no campus (19,6%). 
Os  dados  indicam  a  necessidade  de  se  aumentar  a  frequência  de  visitas  às 
escolas e, também, a possibilidade de se definir estratégias de divulgação em conjunto 
com os próprios alunos, maiores responsáveis pela visibilidade do curso.  
Quanto  à  questão  de  n.  8,  indagou-se  aos  alunos,  caso  decidissem  ingressar  no 
curso de pesca, se os seus pais incentivariam tal decisão (Gráfico 11). 
2,2% 
6,5% 
45,7% 
0,0% 
19,6% 
26,1% 
Rádio
Internet
Amigos ou parentes que estudam
no IFCE
Cartazes pela cidade
Visita de sua escola ao campus
Visita do IFCE na sua escola
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56 
 
 
Gráfico 11: Se os pais incentivariam o ingresso dos filhos no curso de pesca. 
 
A  maioria  dos  participantes,  66,4%,  afirmou  que  sim;  26,5%  não  souberam 
responder; 5,9% disseram  não;  0,8% afirmou  que os pais  seriam  indiferentes e apenas 
0,4% dos participantes não respondeu a questão. 
O  gráfico  leva  à  presunção  de  que  os  alunos  são  apoiados  pelos  pais, 
provavelmente porque estes consideram relevante a autonomia dos filhos e respeitam as 
suas decisões.  
 
Em  relação  à  questão  9,  se  alguém  da  família  do  participante  é  pescador  ou 
pescadora, esta foi construída apenas para que a pesquisadora tivesse conhecimento do 
grau de parentesco dos alunos com familiares pescadores, caso houvesse a necessidade 
de localizar e entrevistar um número maior de pais ou representantes legais pescadores 
(Gráfico 12). 
 
66,4% 
5,9% 
0,8% 
26,5% 
0,4% 
Não respondeu
Não sei responder
Seriam indiferentes
Não
Sim
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57 
 
 
Gráfico 12: Alguém de sua família é pescador ou pescadora? 
 
Apurou-se  que  27%  não  possui  nenhum  familiar  pescador;  20%  possuem  Pai 
e/ou Mãe; 19% afirmaram ter parentes mais distantes; 18% Tios  e/ou Tias; 10% Avôs 
e/ou  Avós;  4%  Primos  e/ou  Primas;  2%  Irmãos  e/ou  Irmãs.  Os  dados  indicam  um 
número expressivo de alunos que têm parentesco com pescadores (73%). 
 
Os dados que emergem da análise quantitativa indicam a preferência dos alunos 
por  cursos  de  graduação  ao  invés  dos  cursos  técnicos,  pois  a  maioria  optou  pelo 
bacharelado. Em relação aos quatro cursos técnicos subsequentes ofertados pelo IFCE, 
os dados sugeriram alta rejeição ao curso de pesca e possível deficiência na divulgação 
do  mesmo  junto  às  escolas  de  ensino  médio,  sobretudo  as  localizadas  na  área  rural 
(Aranaú e Juritianha). 
 
 
 
 
 
 
27% 
20% 
19% 
18% 
10% 
4% 
2% 
Ninguém
Pai e/ou mãe
Parentes mais distantes
Tios e/ou tias
Avôs e/ou avós
Primos e/ou primas
Irmãos e/ou irmãs
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58 
 
 
5.2 A VISÃO DO GESTOR DO MEC, GENITORES E SERVIDORES DO IFCE 
Levando-se em conta que o objetivo geral desta pesquisa é analisar a oferta e a 
demanda  do  curso  de  pesca,  optou-se  pela  divisão  da  abordagem  qualitativa  em  duas 
partes:  a  primeira,  relacionada  à  demanda  (percepção  dos  pais  sobre  a  profissão  de 
pescador  e  suas  principais  dificuldades);  a  segunda,  relacionada  à  oferta  (opinião  dos 
servidores sobre a escolha do curso e o seu cenário atual). Como impulso introdutório, 
ambas são precedidas da análise referente às políticas públicas no âmbito da educação 
profissional e tecnológica.  
Os nomes dos entrevistados citados são fictícios.  
 
5.2.1 A visão do gestor do MEC 
Dentre  as  políticas  públicas  implementadas  no  Governo  Lula,  no  âmbito  da 
educação profissional, se destaca a Política para a Formação Humana na Área da Pesca 
Marinha, Continental e Aquicultura Familiar/Portos e Navegação. 
A  política  pública  em  questão  foi  criada  a  partir  do  Termo  de  Cooperação 
Técnica  nº  002,  de  18  de  dezembro  de  2006,  celebrado  entre  Ministério  da  Educação, 
por meio da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica – SETEC e a Secretaria 
Especial  de  Aquicultura  e  Pesca  da  Presidência  da  República,  posteriormente 
transformada em Ministério da Pesca e Aquicultura, hoje extinto. 
Indagado  sobre  qual  seria  o  público  alvo  dessa  política,  o  participante  assim 
respondeu: 
O  ponto  de  partida  são  os  pescadores,  pescadoras,  marisqueiros  e 
marisqueiras, na área da pesca etc, essa gente que é o lombo da história desse 
país,  invisível  nas  políticas  públicas  (...)  a  política  de  formação  humana 
visava  essas  pessoas,  resgatar  do  ostracismo  essas  pessoas  por  meio  da 
valorização humana educacional (...). César. 
 
A  partir  da  assinatura  do  referido  Termo  de  Cooperação,  foram  tomadas  duas 
decisões importantes, afirma o entrevistado: 
(...)  aumentar  o  número  de  cursos  técnicos  na  Rede  Federal  e  criar  14 
Núcleos de Pesquisa Aplicada – NUPA´S. César. 
 
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59 
 
 
Tais  decisões,  segundo  o  participante,  configuraram-se  as  primeiras  intenções 
governamentais no que se refere ao planejamento e estruturação de uma política voltada 
a área de pesca no âmbito da educação profissional (MEC/SETEC). 
O  entrevistado  salienta  que  o  Termo  de  Cooperação  nº  2  foi  um  marco  nas 
políticas públicas, pois o aumento quantitativo dos cursos técnicos propiciou benefícios 
educacionais a centenas de alunos: 
(...)  com  a  implantação  dessa  política  de  formação  abriu-se  o  mercado  de 
trabalho  em  todas  as  regiões  do  país.  (...)  tínhamos  apenas  5  cursos,  no 
máximo  120  alunos  e  não  tínhamos  20  professores.  Com  a  assinatura  desse 
acordo importante com a coordenação chegamos em 2012 a 85 novos cursos 
técnicos,  quase  8  mil  e  quinhentos  alunos  e  680  professores  concursados. 
César. 
 
Em  relação  aos  citados  Núcleos  de  Pesquisa  Aplicada  à  Pesca  e  Aquicultura  – 
NUPA´S,  estes  tiveram  a  sua  organização  normatizada  por  Estatuto  aprovado  pela 
Portaria SETEC nº 183, de 23 de novembro de 2010 e têm por finalidade a promoção e 
o  desenvolvimento  da  política  para  a  formação  humana  na  área  da  pesca  marinha, 
interior, continental e aquicultura familiar/ portos e navegação. Ao todo são 30 NUPA´s 
espalhados por todas as regiões do país. 
Os  núcleos  de  pesca  foram  definidos  segundo  alguns  critérios:  o  potencial 
pesqueiro  da  região,  a  localização  geográfica  favorável  ao  desempenho  da  pesca,  a 
representatividade  das  comunidades  que  dependem  dessa  atividade  e  as  pessoas  de 
baixa escolaridade nelas inseridas. 
Como  princípios  mais  relevantes  dos  NUPA´s  estão  a  inclusão  social,  a 
sustentabilidade  ambiental,  o  reconhecimento  e  fortalecimento  das  culturas  das 
comunidades tradicionais. 
O  entrevistado  ressaltou  a  dinamicidade  dos  NUPA´s,  um  ente  de  natureza 
eminentemente articuladora: 
 
NUPA  é  um  ente  que  está  dentro  dos  institutos  federais,  ele  é  dinâmico  e 
aberto, internamente dialoga e se articula com todos os órgãos dos institutos, 
com  ensino,  pesquisa  e  extensão  e  externamente  se  relaciona  com  as 
universidades,  com  os  ministérios,  centros  de  pesquisa,  prefeituras, 
secretarias de pesca e principalmente com as colônias de pescadores. César
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60 
 
 
Como  acentuou  o  participante,  os  NUPA´s  tem  estreita  relação  com  o  tripé 
ensino,  pesquisa  e  extensão  e  uma  de  suas  funções  principais  é  atuar, 
fundamentalmente,  na  produção  e  difusão  do  conhecimento  e  na  transferência  de 
tecnologias às comunidades que desenvolvem as atividades de pesca e aquicultura. 
Outra  função  relevante  desempenhada  pelos  NUPA´s,  além  da  articuladora,  o 
entrevistado destacou a análise e o desenvolvimento de projetos de pesquisa, de caráter 
interdisciplinar,  voltados  à  diversidade  biológica  e  cultural  dos  ecossistemas  onde  há 
atividade pesqueira: 
 
(...)  ao  todo  foram  realizados  108  projetos  de  pesquisa  aplicada,  todas 
publicadas, num investimento total de 5 milhões de reais. César
 
 
Além das conquistas acima listadas, se sobressai da fala do entrevistado o curso 
de alfabetização para pescadores chamado “Pescando Cidadania", criado pelo NUPA do 
Rio Grande do Norte, cujo investimento foi de apenas 30 mil reais: 
(...) entraram 120 pescadores, pescadoras e marisqueiros e marisqueiras, em 6 
meses não saiu ninguém. Todos terminaram o curso sabendo ler e escrever e 
querendo aumentar sua trajetória formativa (...). César. 
 
“Pescando  a  Cidadania”  foi  um  trabalho  de  formação  continuada,  de 
alfabetização  de  adultos,  desenvolvido  no  Município  de  Macau  e  seus  distritos  (RN) 
pelos profissionais do IFRN/Campus Macau e financiado pela SETEC/MEC.  
O  curso  de  40  horas/aula  foi  organizado  em  10  encontros  e  se  adotou  uma 
metodologia  diferenciada,  específica  para  a  comunidade  de  pescadores,  fundada  em 
ensinamentos  de  Paulo  Freire.  A  metodologia  diferenciada  se  deve  à  consideração  de 
aspectos  relevantes  do  modo  de  vida  dos  pescadores,  seus  interesses  e  necessidades, 
como  direitos  e  deveres  do  cidadão,  educação  ambiental  e  a  saúde  do  pescador  e  das 
suas famílias. 
O entrevistado salientou que: 
O projeto “Pescando a Cidadania” (...) é uma política que vem resgatar uma 
dívida  do  estado  brasileiro  para  com  toda  essa  gente  que  antes  era  invisível 
por meio do processo educacional
César
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61 
 
 
Trata-se,  portanto,  de  importante  projeto  que,  além  de  resgatar  a  dignidade  da 
pessoa  por  meio  da  alfabetização,  tem  uma  particularidade  muito  especial:  a  inclusão 
social. 
 
5.2.2. A visão dos genitores 
A análise e interpretação das falas dos pais contribuirão para o esclarecimento de 
duas hipóteses de trabalho: 1) a baixa demanda se dá em função do não reconhecimento 
social  e  da  marginalização  do  pescador  e;  2)  os  pais  ou  responsáveis  pelos  alunos  do 
Ensino Médio não estimulam a escolha pelo Curso Técnico de Nível Médio em Pesca, 
por não vislumbrarem perspectivas de futuro na área da pesca.  
 
O  roteiro  de  entrevista  dos  pais  foi  construído  objetivando  uma  compreensão 
maior da realidade dessa amostra e contemplou perguntas concernentes à escolaridade e 
atividade  profissional  dos  entrevistados,  suas  opiniões  em  relação  à  valorização  do 
pescador, à sua profissão e principais dificuldades, bem como em relação ao futuro dos 
filhos.  Agregando todas  essas questões e, ainda,  levando-se em  conta  as  respostas dos 
entrevistados,  chegou-se  à  eleição  das  seguintes  categorias  de  análise:  escolaridade, 
valorização da profissão, o futuro profissional do filho e atividade de pescador. 
 
a)
 
Da Escolaridade 
A escolaridade das pessoas influencia diretamente na forma como elas veem a si 
mesmas e o mundo que as cerca, por isso se entendeu relevante conhecer esse dado do 
universo dos genitores dos alunos.  
Dos 25 entrevistados, entre pais e mães, 7 se declararam analfabetos: 
 
Pra  dizer  a  verdade  assim  em  colégio  mesmo,  eu  nunca  estudei  não.  Dona 
Marcilene, marisqueira, analfabeta.
 
 
Nunca  estudei  não.  Seu  Joaquim,  pescador,  analfabeto,  35  anos  de 
profissão
 
 
 
Dentre os 7 não escolarizados, 3 são pescadores e 1 é marisqueira. Os números 
demonstram  que  a  maior  parte  das  pessoas  analfabetas  entrevistadas  está  ligada  à 
atividade da pesca.  
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62 
 
 
Dados  extraídos  do  Registro  Geral  da  Pesca,  RGP,  indicam  que  apenas  0,19% 
dos pescadores profissionais declarou ter nível superior completo, enquanto que 85,41% 
declararam  possuir  ensino  fundamental  incompleto,  ressaltando-se  que  nessa  faixa 
também estão inclusos os não alfabetizados. 
 
À  primeira  vista  pode  causar  estranheza  pessoas  com  ensino  fundamental 
incompleto e não alfabetizados encontrarem-se no mesmo grupo, porém quando se trata 
dessa categoria social  –  pescadores  -, a “lógica”  é perfeitamente compreensível, como 
se verá adiante. 
 
Dos 25 entrevistados, 11 declararam terem concluído a primeira ou mais de uma 
série do ensino fundamental. Desses onze, 5 trabalham ou já trabalharam com a pesca: 
dois pescadores, dois ex pescadores e uma marisqueira. Seu João dos Milagres é um dos 
exemplos: 
Eu só estudei até a 2ª série do primário, e nem cheguei a terminar, a concluir, 
aí  fui,  saí  pra  trabalhar  no  pesado  mais  o  meu  pai,  mas  eu,  eu  não  me 
considero  analfabeto,  eu  sei  fazer  meu  nome,  sei  fazer...ler  alguma  coisa, 
porque tem muitos deles aí que são analfabetos mesmo né, muitos pescadores 
que  não  querem  estudar  nem  pra  fazer  o  nome,  acham  que  não  aprendem 
mais  né.  Seu  João  dos Milagres,  pescador  desde  os  10 anos  (aprendeu  o 
ofício com o pai). 
 
 
 
Todos  que  afirmaram  possuir  o  fundamental  incompleto  não  quiseram  ler  o 
termo de consentimento livre e esclarecido - TCLE. A maioria pediu à pesquisadora que 
explicasse  o  conteúdo,  alguns  pediram  que  fosse  realizada  a  sua  leitura  e  outros 
explicaram  saber  apenas  “desenhar  o  nome”.  A  não  alfabetização  foi  constatada, 
sobretudo,  no  momento  da  colheita  de  suas  respectivas  assinaturas  nos  termos  de 
consentimento,  um  processo  deveras  lento  e  dificultoso,  bastante  parecido,  realmente, 
com  o ato  de  “desenhar  do nome”. Assim, embora prevaleça para  fins de tabulação  a 
escolaridade  declarada,  a  realidade  mostra  que  na  verdade  a  condição  desses 
entrevistados é equiparada à não escolarização. 
O  Censo  de  2010  apurou  que  aproximadamente  91%  da  população  brasileira 
com  dez anos  ou mais  de idade são alfabetizados.  Isso  significa que 9%  da população 
não  sabe  ler  e  escrever.  Se  comparado  esse  percentual  com  o  apresentado  pelo  RGP, 
constata-se um índice extremamente elevado de pescadores não alfabetizados. 
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63 
 
Tais percentuais se aproximam das informações prestadas em conversa informal 
pela  Presidente  da  Colônia  de  Pescadores  de  Acaraú  –  Z2,  que  afirmou  ser  de  90%  o 
índice de analfabetismo entre os pescadores da região.  
Saraiva ao pesquisar a caracterização socioeconômica da pesca artesanal na Ilha 
dos  Coqueiros  em  Acaraú,  discorreu  sobre  os  reflexos  da  baixa  escolaridade  dos 
pescadores no exercício de sua atividade: 
 
A baixa escolaridade dos pescadores afeta diretamente a atividade pesqueira 
à medida em que os mesmos possuem menor acesso às informações capazes 
de  gerar  benefícios  vinculados  à  incorporação  de  novas  tecnologias  de 
captura, à melhoria da qualidade do pescado, à inibição da pesca predatória e 
à  adoção  de  novas  formas  de  comercialização,  entre  outros  fatores. 
(SARAIVA, 2015, p. 44) 
 
Projetos de alfabetização de pescadores como o “Pescando Letras” -  executado 
através  do  Programa  Brasil  Alfabetizado,  do  Ministério  da  Educação  -  e  o  “Pescando 
Cidadania”,  desenvolvido  pelo  IFRN  são  exemplos  de  Políticas  Públicas  que  podem 
transformar  a  realidade  de  uma  comunidade  de  pescadores,  contribuindo  não  apenas 
para  a  melhoria  de  vida  dessa  população  mas  também  para  o  desenvolvimento 
sustentável da atividade pesqueira. 
Uma  questão  relacionada  à  escolaridade  chamou  a  atenção  em  algumas  falas, 
merecendo  destaque:  a  comparação  que  os  pais  fazem  entre  a  oferta  de  educação  na 
época  deles  e  a  atual,  para  os  filhos.  Reconhecem  que  hodiernamente  existem  muitas 
oportunidades  de  formação,  inclusive  acompanhadas  de  alguns  benefícios,  como  o 
transporte  e  a  merenda,  no  entanto,  externaram  seu  desapontamento  com  o  fato  de  os 
filhos não darem importância a isso:
  
No meu tempo não tinha... (escola) (..) às vezes tinha uma professora (...) ai a 
gente  estudava  nas  casas,  isso  os  pessoal  antigo,  já  tudo  faleceram,  hoje  é 
tudo diferente né, hoje o governo paga o menino pra estudar ainda e dá carro, 
e dá de comer, e os menino não querem estudar. Ainda e de primeiro no meu 
tempo  não  tinha  essa  arrumação,  não  tinha  essa  oportunidade  que  hoje  tem. 
Seu Alonso, agricultor, pai de pescador, analfabeto. 
Não  dá  nem  pra  eu  dizer  que  eu  estudei  o  1º  ano  (...)  hoje  tem  muita 
facilidade  pra  pessoa  estudar,  mas  naquele  tempo  era  muito  difícil,  a  gente 
frequentava  uma  escola  quase  daqui  uma  légua,  de  pés,  a  areia  mesmo  que 
fogo  atolando  aqui  na  perna,  aí  estudei  aquelas  cartilhas,  que  tinha  aqueles 
negócio de assoletrar ...tinha palmatória, todas essas coisas tinha, aí veio uma 
moça do Acaraú pra ensinar as primeiras cartilhas né (...) só que essa moça só 
passou  um  mês  (...)  aí  não  veio  mais,  pronto  aí  ...  acabou  a  escola.  Dona 
Raimunda, agricultora, analfabeta, mãe de pescador.
 
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64 
 
b)
 
Valorização da Profissão 
A maioria dos entrevistados afirmou, por diversas razões, não ser a profissão de 
pescador  valorizada  pela  sociedade.  As  razões  mais  recorrentes  estão  ligadas  à  baixa 
remuneração  que  a  atividade  oferece,  à  não  melhoria  das  condições  de  vida,  ao  não 
acesso  a determinados  certos benefícios  sociais  e a ausência de políticas públicas para 
essa categoria. 
Abaixo, alguns relatos: 
É  porque  não  tem  valor  mesmo  aqui,  tem  dias  que  a  gente  vai  pegá  o  que 
comer, tem dia que  vai passa 2, 3 dias pra fazer 5 real, 10 real, aí é  melhor 
ficar dentro de casa limpando cajueiro. Seu Benedito, pescador há mais de 
20 anos, aprendeu o ofício com o pai.
 
Eu  acho  não,  pra  mim  não.  Meu  marido  é  pescador  desde  o  tempo  que  a 
gente  se  ajuntou,  tem  uns  quase  25  anos  e  era  pra  ter  outra  vida  né,  outra 
melhora,  outra  coisa  e  é  a  mesma  coisa.  Dona  Maria,  do  lar,  esposa  de 
pescador.
 
Acaraú é uma região na qual a maioria dos pescadores atua de forma artesanal, 
ou seja, realiza uma pesca simples, autônoma, de pouca produção, a qual, quando não se 
destina à comercialização, serve ao consumo da própria família do pescador. 
 
As  falas  do  Seu  Benedito  e  da  Dona  Maria  retratam  a  baixa  rentabilidade  da 
atividade  e  o  não  desenvolvimento  desta  que  leve  à  uma  considerável  melhora  nas 
condições de vida dessa população. 
 
Dona Valdete criticou a falta de amparo ao pescador na época do defeso: 
Acho  não  (...)  a  gente  sente  necessidade  né  que  exista,  que  cresça  (...)  pra 
você ter uma ideia pescador não tem um seguro desemprego né, por exemplo, 
não  tá  no  tempo  daquela  pesca  a  gente  fica  a  ver  navios  né  (...).  Valdete, 
marisqueira e filha de pescadores. 
 
O período de defeso importa na paralisação temporária da pesca com o objetivo 
de  assegurar  a  reprodução  das  espécies.  Nesse,  período,  portanto,  os  pescadores  são 
proibidos de pescar.  
No intuito de garantir a reprodução dos estoques pesqueiros e, ao mesmo tempo, 
assegurar um rendimento ao pescador, este poderá receber do Ministério do Trabalho e 
Emprego,  o  seguro-desemprego,  também  conhecido  como  seguro-defeso.  O  referido 
benefício  é  pago  em  parcelas  mensais,  na  quantia  de  um  salário-mínimo,  em  número 
equivalente  ao  período  de  paralisação,  desde  que  o  interessado  atenda  as  exigências 
inscrição do pescador no RGP como Pescador Profissional Artesanal.
 
 
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65 
 
 
A  alegada  falta  de  acesso  aos  benefícios  sociais  é  algo  recorrente  entre  os 
entrevistados: 
Nem  um  pouco,  nada  de  valorizada  não,  não  tem  ajuda  de  ninguém,  bem 
dizer  ninguém,  como  aqui  no  Acaraú  mesmo  tem  a  Colônia,  mas  se  você 
chegar e dizer assim...o pescador chegou quebrou o pé e for pra colônia pra 
receber  o  auxílio  doença,  você  pode  voltar  pra  casa,  se  você  não  tiver  uma 
família que lhe ajude você passa fome, você passa fome (...).  Seu Pedro, ex 
pescador. 
 
Nós temos sim uma colônia de pescadores, (...) pra mim ela funciona na parte 
mais  burocrática,  porque  eu  acho  que  a  parte  que  é  na  praticidade  de  lidar 
com relacionamento com o pescador e a sua profissão, isso não existe, fica a 
desejar,  porque  a  colônia  de  pescadores  já  que  se  trata  de  uma  entidade 
só para  o  pescador,  deveria  tratar,  proteger,  acolher,  dar  mais  um  suporte  a 
mais pro pescador pra que ele tenha ânimo,  mais ânimo de querer trabalhar, 
de poder trabalhar (...) Conceição, professora de ensino fundamental, filha 
de pai pescador, irmã de pescadores e mulher de ex pescador. 
 
Com  o  advento  da  Constituição  Federal  de  1988  as  Colônias  de  Pescadores 
foram  equiparadas  aos  sindicatos,  por  força  do  parágrafo  único,  artigo  8º  da  referida 
Carta  Magna.  A  Lei  11.699,  de  13  de  junho  de  2008,  que  regulamenta  o  referido 
dispositivo constitucional, dispõe que as colônias de pescadores são reconhecidas como 
órgãos  de  classe  dos  trabalhadores  do  setor  artesanal  da  pesca,  cabendo-lhes  a  defesa 
dos direitos e interesses dessa categoria. 
Os pescadores residentes nas regiões visitadas estão representados pela Colônia 
Z2, com sede em Acaraú. Não se pode afirmar em que medida a Colônia dos Pescadores 
cumpre com as suas finalidades constitucionais de representação na defesa dos direitos e 
interesses  dessa  categoria,  pois  a  percepção  de  benefícios  sociais  como  o  auxílio-
doença,  auxílio-reclusão  ou  aposentadoria,  dependem  de  regular  cadastramento  do 
pescador  nessa  entidade  e,  também,  do  pagamento  de  uma  contribuição  mensal  na 
ordem de 2% do valor de um salário mínimo. 
 
Observa-se na fala dos entrevistados o não acesso a benefícios sociais básicos, o 
que configuraria, pelo menos em tese, não apenas a marginalização dessa categoria, mas 
também grave violação do princípio da dignidade da pessoa humana. 
A  percepção  de  desamparo  ultrapassa  a  questão  mais  premente  do  simples 
recebimento – ou não – de um benefício social. Dona Conceição, talvez por ser a única 
entre os entrevistados com formação superior, enxerga além e expressa sua indignação 
pelo  descaso  do  poder  público  ao  não  dirigir  suas  políticas  para  a  categoria  dos 
pescadores: 
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66 
 
(...)  pescador  aqui  não  tem  valorização  de  nada,  a  valorização  do  pescador 
aqui  é  mínima,  mínima  das  mínimas,  (...)  ele  é  pra  ser  visto  como  todas  as 
outras profissões que merecem respeito né, (...) mas a valorização ao homem 
que  pesca  nenhuma,  por  parte  dos  nossos  governantes  é  um  descaso  muito 
grande, eu não vejo nenhum movimento, eu não vejo nenhum apoio, eu não 
vejo  nenhum  auxilio,  nada  que  tenha  a  favor  do  pescador.  Conceição, 
professora  de  ensino  fundamental,  filha  de  pai  pescador,  irmã  de 
pescadores e esposa de ex pescador
 
 
Outro  fator  também  recorrente  à  não  valorização  da  profissão  de  pescador  está 
ligado,  para  alguns  entrevistados,  à  postura  inadequada  em  sociedade  do  próprio 
pescador,  resultante,  sobretudo,  do  uso  habitual  de  drogas  ilícitas.  Segundo  os 
participantes, as substâncias químicas mais consumidas entre os pescadores são o álcool 
e o crack
Acho que não, porque uma que ganha pouco né, e quem ganha muito também 
estraga, não valoriza. (...) quando chega estraga tudo com negócio de bebida, 
é  a  maioria  né  também  já  estão  no  caminho  errado.  (...)  a  maioria  são 
cachaceiro  né,  a  maioria  bebe,  gosta  duma  cana,  quando  chega  do  mar  vão 
direto  pros  bar,  por  isso  que  eu  digo  assim.  Dona  Josiane,  vendedora  de 
cosméticos, irmã de pescadores.
 
 (...)  muitos  deles  recebem  dinheiro,  mas  num  dão  valor  ao  que  ganha  né, 
gastam com negócio de bebida, droga aqui tem muita aqui (...) eles eram pra 
se valorizar mais no serviço deles (...) às vezes prefere gastar com bebida do 
que  dá  à  própria  alimentação  de  casa.  Seu  Roberval,  motorista  de 
ambulância, esposo de marisqueira. 
(...)  eles  usam  mais  é  coisa  pesada  como  cocaína,  como  craque  (...)  esse 
craque que entrou aí foi pra destruir a vida de todo mundo. Seu Emanuel, ex 
pescador
Droga  né...droga  principalmente  no  nosso  lugar  que  é  tão  pequeno  e  é  tão 
assim  cheio  dessas  coisas.  Dona  Josiane,  vendedora  de  cosméticos,  irmã 
de  pescadores.  Dona  Josiane,  vendedora  de  cosméticos,  irmã  de 
pescadores. 
 
Outro  vício  citado  -  que  conspurca  a  imagem  do  pescador  em  sociedade 
contribuindo para a sua desvalorização -, é o envolvimento com a prostituição.  
(...)  inconscientemente  eles  recebem  aquele  trocadinho  e  muitos  deles  ao 
invés de vir pra casa, trazer esse trocado pra dentro de casa, pra família, pros 
filhos  (...)  esse  trocadinho  fica  numa  droga,  num  vício,  numa  bebida,  esse 
trocadinho  vai  pra  casa  de  prostituição  (...)  a  realidade  que  eu  vejo  aqui  na 
minha cidade é esta e aí a família sofre (...). Dona Conceição, professora de 
ensino fundamental, esposa de ex pescador. 
 
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Os  vários  dias  passados  em  alto-mar  são  a  grande  causa  dessa  problemática, 
segundo o discurso de um dos entrevistados, por isso quando os pescadores aportam o 
desejo mais premente é a busca da satisfação sexual valendo-se da prostituição:  
(...)  na hora que  eles  saem  do  barco  mesmo  já  é  em  cima  do  dono  pedindo 
uma mixaria ali, pedindo 100, 50 reais pra já pra ir beber ou comprar o vício 
dele, ir prum barzinho, um barzinho com mulheres só pra satisfazer a vontade 
deles que passa 30 dias no mar. Seu Pedro, ex pescador. 
 
Houve  casos  de  pais,  entretanto  -  mesmo  sendo  em  menor  número,  que 
manifestaram  opinião  contrária,  afirmando  ser  a  profissão  de  pescador  valorizada  pela 
sociedade: 
 
É, eu acho que sim né, porque a pesca é que traz o produto né, pra gente se 
alimentar e vender (...). Dona Joanita, marisqueira. 
 
Eu acho que sim né, porque negócio de pesca é um negócio muito importante 
né, se a gente não conseguisse pescar... certo que tem coisa pra comprar pra 
se  comer,  mas  a  gente  pegando  o  peixe,  conseguindo  umas  coisinhas,  já  é 
melhor  porque  já  diminui,  a  gente  já  guarda  um  pouquinho  do  dinheiro  pra 
outra coisa né, eu acho muito importante negócio de pesca, muito importante 
mesmo. Dona Marcilene, marisqueira, filha de pescadores. 
É porque hoje o que tá dando mais é o mar assim né...porque o mar hoje é de 
onde traz o alimento pro pessoal (...). Seu Alonso, agricultor. 
 
Pelo  que  se  infere  do  discurso  dos  entrevistados,  a  valorização  se  dá  mais  em 
função da importância que tem o pescado para o sustento familiar e, consequentemente, 
para  a  redução  das  despesas  domésticas,  do  que  propriamente  com  a  pessoa  do 
pescador.  
 
Notou-se  a  relevância  que  possui  o  pescado  na  sua  alimentação  diária  dos 
entrevistados:
 
(...) o pescador pode não ter nada, mas ele tem a barriga cheia (...). (...)  você 
come o peixe que você gosta, você come a anchova, você come a guarajuba, 
come o galo, a tainha, aqueles peixe mais de, como se diz, de primeira, você 
só come o ruim se você quiser, né, então você come do bom e do melhor e é 
vivo, não pega química nenhuma. Seu João dos Milagres, pesca desde os 10 
anos, aprendeu o ofício com o pai. 
 
 
 
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Segundo  Maldonado  o  consumo  regular  de  peixe  representa  a  confirmação  da 
autonomia do pescador: 
Uma  dieta  sem  pescado  é  comer  de  sertanejo,  dieta  de  interiorano  sujeito  à 
patrão, que trabalha num ambiente passível de apropriação e divisão: a terra. 
(MALDONADO, 1986, p. 64) 
 
Nesse  sentido,  Diegues  (1983)  ressalta  que  no  ambiente  marinho  não  há 
propriedade  formal  do  que  a  natureza  produz,  fazendo  referência  especialmente  aos 
peixes.  Estes  são  apropriados  por  quem  chegar  primeiro,  seja  por  aqueles  que 
disponham  de  melhores  instrumentos  de  trabalho  para  captura  ou  por  aqueles  que 
detenham conhecimento suficiente para pescá-los. 
 
c)
 
O futuro profissional do filho 
Os  genitores  dos  alunos  foram  perguntados  sobre  o  que  pensam  do  futuro 
profissional  dos  filhos  em  relação  às  seguintes  questões:  se  incentivariam  ou  não  o 
ingresso  dos  mesmos  no  curso  de  pesca;  se  seria  melhor  para  o  filho  cursar  uma 
universidade ou um curso técnico e, se pudessem escolher uma profissão para ele, qual 
seria. 
A  categoria  em  apreço  se  mostra  relevante  porque  é  a  essência  do  que  se 
pretendeu  buscar  junto  aos  participantes:  saber  se  eles  estimulam  ou  não  os  filhos  a 
escolherem  o  curso  de  pesca.  Essa  questão  está  relacionada  a  uma  das  hipóteses  de 
trabalho:  “Os  pais  ou  responsáveis  pelos  alunos  do  Ensino  Médio  não  estimulam  a 
escolha  pelo  Curso  Técnico  de  Nível  Médio  em  Pesca,  por  não  vislumbrarem 
perspectivas de futuro na área da pesca”.  
 
As respostas oscilaram entre “sim” e “não”. Para os que disseram “sim”, embora 
tenha sido a menor parte dos entrevistados, importante se fazer uma ressalva: para eles 
“incentivo”  é  sinônimo  de  “apoio”,  embora  tenham  significados  diversos.  O  primeiro 
vocábulo  os  remete à ideia de encorajar e o segundo de aceitar. Eis  algumas respostas 
relacionadas ao “sim”: 
 
 
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69 
 
De ela ir? Não, eu sou de acordo, ela pode ir. Seu Joaquim, pescador. 
Sim,  desde  que  ela  dissesse  assim,  mãe  eu  quero,  eu  tô  aqui  pra  isso,  pra 
incentivar (...) se essa fosse a opção dela né (...), é o que vai fazer ela feliz, é 
o que ela vai trabalhar todos os dias, eu digo assim a gente tem que escolher 
uma coisa que a gente goste (...). Valdete, marisqueira. 
É se for o gosto dela...eu aprovo né, se for o gosto dela, eu não vou obrigar 
ela a fazer uma coisa que ela não quer né, porque se você vai trabalhar numa 
coisa que você  não gosta, ai  nem prazer de trabalhar não tem  né, (...) o que 
ela  quiser  eu  aprovo,  é  professor,  é  pesca,  é  o  que  for,  eu  aprovo,  sendo  o 
gosto dela. Dona Marcilene, marisqueira. 
Observa-se que os pais, afortunadamente, relacionam a escolha da profissão com 
felicidade,  realização,  prazer  no  sentido  de  se  fazer  o  que  gosta.  Pode-se  extrair  das 
falas, também, uma preocupação com a autonomia dos filhos, com o fato deles serem os 
únicos responsáveis pela escolha do rumo que darão ao seu destino profissional. 
 
Seu  Joaquim  e  a  Dona  Marcilene  foram  questionados  sobre  a  hipótese  deles 
poderem escolher a profissão dos filhos. O primeiro assinalou a existência de profissões 
melhores  do  que  a  de  pescador,  a  segunda  optou  por  uma  profissão  na  qual  a  filha 
pudesse trabalhar na sombra, sugerindo a lida árdua do pescador sob o sol: 
Eu acho que outra profissão era melhor do que a pescaria, do que o curso de 
pescador né. Seu Joaquim, pescador. 
Fosse  por  mim  mesma  eu  mandava  ela  fazer  um  curso  assim,  pra  trabalhar 
assim, de secretario num banco (...) se fosse por mim ela fazia um curso pra 
isso né, (...) porque a gente trabalhar no sol como eu fiz pra criar elas não é 
bom não, agora já trabalhar assim na sombra já é melhor né, pra mim o meu 
gosto  era  esse,  mas  não  é  minha  vontade  é  o  dela.  Dona  Marcilene, 
marisqueira. 
Dona  Valdete  fora  perguntada  se  ela  alguma  vez  pensou  na  possibilidade  de  a 
filha cursar uma Universidade. Assim respondeu:  
Não incentivei por conta da dificuldade de pagamento, hoje em dia o governo 
né,  que  agora  esse  ano  deu  uma  apertada  né,  a  gente  vê  pelo  jornal  e  tudo, 
mas  se  eu  tivesse  como  pagar,  eu  botava  pra  frente,  tava  em  Fortaleza 
fazendo faculdade. Valdete, marisqueira. 
 
Dentre  os  que  disseram  que  não  incentivariam  o  filho  a  ingressar  no  curso  de 
pesca - representando a maior parte dos entrevistados -, eis algumas respostas: 
Pesca?  Não,  sobre  pesca  não.  Eu  acho  uma  profissão  perigosa,  apesar  que 
todas  as  profissões  hoje  é  perigosa,  qualquer  tipo,  qualquer  atividade  que  a 
gente  enfrentar,  qualquer  tipo  de  trabalho  existe  perigo,  mas  sobre  pesca  eu 
acho  assim  uma  profissão  muito  perigosa,  eu  não  aconselhava  ele  trabalhar 
nessa área não. Seu Adoniran, eletricista. 
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70 
 
Não, eu não queria, se fosse pra mim dizer assim vai meu filho, eu quero tu 
lá, eu não queria. (...) Dona Maria, do lar. 
Não, porque não tem futuro não. Seu Benedito, Pescador. 
Não,  pesca  eu  não  queria  não,  queria  não  que  ele  não  gosta,  ele  não  dá 
valor...ele  não  gosta  do  mar  assim,  quando  ele  entra  na  canoa  ele  já  toma 
porre,  ele  não  gosta  não,  agora  o  meu  filho  mais  novo  adora  o  mar,  queria 
que ele fizesse outra coisa. Dona Rute, Agricultora, esposa de pescador. 
Nem ele ia querer, acho que nem ele mesmo ia querer ser pescador (...) acho 
que ele ia procurar outro meio de ganhar melhor. Dona Josiane, vendedora 
de cosméticos.
 
Rapaz, eu na minha opinião, eu achava que ele escolhesse uma coisa melhor 
que desse futuro pra ele, tá entendendo (...) tamo aqui pra o que ele precisar 
né,  agora  se  ele  quiser  mesmo  aí  ninguém  pode  obrigar  uma  pessoa,  a  pior 
coisa  do  mundo  é  você  quer  uma  coisa  e  seus  pais  não  aceitam.  Pedro,  ex 
pescador.
 
Das  respostas  extraem-se  justificativas  diversas  (a  pesca  é  perigosa,  existem 
outros  meios  de  se  ganhar  melhor  etc),  entretanto  uma  se  repetiu:  a  de  que  não  dá 
futuro. A maioria dos  entrevistados têm relação direta ou indireta com  a pesca:  ou são 
pescadores, ou marisqueiras ou possuem algum parente que exerça esta atividade. 
É compreensível, portanto, que os pais não desejem que os filhos exerçam uma 
profissão  que  não  lhes  garanta  condições  mínimas  de  vida,  como  se  pôde  observar  da 
fala dos entrevistados, oferecendo indícios de que “Os pais ou responsáveis pelos alunos 
do  Ensino  Médio  não  estimulam  a  escolha  pelo  Curso  Técnico  de  Nível  Médio  em 
Pesca, por não vislumbrarem perspectivas de futuro na área da pesca”. 
Em relação às profissões desejadas pelos pais, que os filhos poderiam, em tese, 
seguir, algumas respostas: 
Engenheiro naval. Seu Pedro, ex pescador. 
Enfermeira. Dona Gervásia, do lar. 
Trabalhar em mercantil, em farmácia, outras coisas por aí, mas pesca eu não 
queria não. Seu Benedito, Pescador. 
Acho  que  professor,  então,  melhor  assim  ...  estudar  Direito  né,  quem  é  que 
não queria? Dona Josiane, vendedora de cosméticos. 
Sempre  eu  digo  a  ele,  Pedro  meu  filho  se  você  não  quer  ir  se  embora  pra 
assim  estudar  fora  em  outro  canto,  faça  o  curso  de  professor,  a 
faculdadezinha  de  professor  (...)  porque  o  que  tem  aqui  mais  por  perto  é 
professor. Dona Rute, do lar, esposa de pescador.  
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71 
 
Se fosse pra eu optar eu optaria em ela se formar em professora, alguma coisa 
assim, ou então na área de saúde também,  mas aí depende dela.  Seu Lineu, 
representante de vendas.
 
Eu queria uma coisa assim mais maneira (...) num mercantil, numa farmácia, 
era  isso  que  eu  queria  pra  ele.  Dona  Maria,  agricultora,  esposa  de 
pescador.
 
Nota-se, de um modo geral, que os pais não vislumbram perspectivas de futuro 
para os filhos em profissões que não lhes sejam familiares, que vão além das conhecidas 
de  seu  cotidiano,  como  trabalhar  em  mercantil  (supermercado)  ou  em  uma  farmácia. 
Provavelmente  isso  se  deva  à  baixa  escolaridade  da  amostra,  que  não  teve 
oportunidades  educacionais  e,  consequentemente,  fora  impedida  de  substanciais 
conquistas no campo profissional.  
Os entrevistados foram perguntados, também, se prefeririam que o filho fizesse 
um  curso  técnico ou ingressasse em  uma universidade. A vontade de que fossem  para 
universidade prevaleceu em relação aos cursos profissionalizantes, como se vê: 
Eu achava melhor a universidade. Dona Rosenete, esposa de ex pescador. 
Bom, um curso técnico é bom, sempre que a pessoa tem um técnico né, mas 
eu  acho  assim  a  universidade  é  bem  mais  aprimorada  né,  mais  além.  Dona 
Neide, agente comunitária, irmã de ex pescador.
 
Ele ir pra uma universidade, mas se bem que os cursos técnicos também são 
muito bons mas uma universidade pra mim seria o ideal (...) tem assim uma 
coisa  mais  estendida,  mas  ampla  (...)  mas  se  for  da  vontade  deles  um  curso 
técnico,  fica  na  vontade  deles.  Conceição,  professora  de  ensino 
fundamental.
 
Faculdade  acho  que  seria  melhor.  Dona  Maria,  agricultora,  esposa  de 
pescador. 
 
Extrai-se  dos  relatos  dos  entrevistados  que  a  maior  parte  dos  entrevistados  dá 
importância  a  uma  formação  mais  ampla,  mais  aprimorada,  como  diz  a  Dona  Neide. 
Indica,  também,  um  possível  desconhecimento  sobre  as  oportunidades  de  trabalho  e 
ascensão profissional que os cursos técnicos têm a oferecer. 
Para  alguns  pais,  como  a  Dona  Neide,  o  curso  escolhido  pelo  filho  não  é  tão 
importante quanto o fato de o mesmo continuar inserido no âmbito escolar:
  
(...)  eu  acho  assim  que  qualquer  curso  que  ela  fizer  é  bem-vindo.  Dona 
Neide, agente comunitária, irmã de ex pescador.  
 
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72 
 
Em menor número, o curso técnico pode ser útil, num primeiro momento, para 
incrementar  o  currículo  e  adquirir  experiência  e,  posteriormente,  servir  de  trampolim 
para universidade: 
Eu acredito que a pessoa tem que ter um curso pra colocar no currículo, que é 
muito  bom  (....)  a  pessoa  não  pode  parar  de  estudar,  mesmo  fazendo  um 
curso,  trabalhando,  tem  as  horas  de  escolher  a  universidade.  Seu  Lineu, 
representante de vendas.
 
 
Outra  questão  destacada  pelos  pais  é  a  falta  de  oportunidades  quanto  à 
empregabilidade na região:  
(...) porque aqui  mesmo  no interior eu acho que  num  tem  muito futuro aqui 
não. (...) se a pessoa for querer alguma coisa aqui tem que ir se embora, tem 
que  ir  pra  Fortaleza.  Seu  Roberval,  motorista  de  ambulância,  esposo  de 
marisqueira. 
Bom, eu escolheria uma profissão que tivesse aqui na cidade, aqui na região, 
que desse emprego aqui né, (...) pra se  formar numa coisa que não tem aqui 
acho  mais  difícil,  só  se  ela  sair  da  cidade.  Seu  Lineu,  representante  de 
vendas. 
Segundo  os  participantes,  para  que  os  filhos  sejam  inseridos  no  mercado  de 
trabalho não resta outra saída senão tentar uma colocação profissional na capital ou em 
outras cidades  do Estado, se a formação se der em  algo que não tem oportunidade em 
Acaraú. 
d)
 
A atividade de pescador 
As  razões  que  levam  ao  baixo  interesse  pelo  curso  de  pesca  podem  estar 
associadas ao modo de vida dos pescadores e a uma possível influência dessa condição 
na  escolha  dos  filhos  por  outros  cursos  que  não  o  de  pesca,  motivo  pelo  qual  fez-se 
necessário conhecer o cotidiano desses trabalhadores. 
 
Os  entrevistados  afirmaram  ser  difícil  a  ocorrência  na  região  de  trabalho  com 
registro em carteira. Alguns se intitularam trabalhadores avulsos: 
(...) não é todo que trabalha de carteira assinada não, é difícil algum trabalhar 
de carteira assinada, é muito difícil. Dona Marcilene, marisqueira, filha de 
pescadores. 
(...)  eles  não  querem  registrar  porque  aí  eles  perdem  né,  eles  acham  que 
perdem pagando direito o pescador, eles querem avulso mesmo.  Seu Pedro, 
ex pescador.
 
Não tem ninguém embarcado não, é tudo avulso. Seu João dos Milagres 
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73 
 
 
Os pescadores que exercem ou já exerceram a profissão foram solicitados a falar 
sobre a atividade de pesca, sobre como é a vida de pescador. Eis alguns relatos: 
Não é muito boa, o pescador tem família, ele tem que exercer a profissão né 
(...)  muitos  entram  na  pesca  mas  depois  tá  arrependido  (....)  o  mar  é  muito 
perigoso, é uma atividade muito complicada (...). Seu Joaquim, pescador. 
(...) pescador é uma vida sofrida (...) a gente vai e não sabe se a gente volta, 
porque é uma vida perigosa, a gente não consegue dormir de noite, uma vida 
muito sofrida, graças a Deus eu saí dessa vida, saí assim porque era pra longe 
né,  agora  é  só  aqui  pertinho  de  casa  mesmo  (...)  pra  longe  eu  não  fui  mais 
não,  nem  tô  mais  a  fim  de  ir,  tenho  fé  em  Deus.  Seu  Epaminondas, 
pescador há 33 anos.
 
Não ganha nada, é pouco, sofre muito no mar. Seu Luiz, ex pescador. 
Na realidade é uma vida muito sofrida né, pescador é um cabra, uma pessoa 
que sofre (...). Seu Pedro, ex pescador. 
 
Sofrimento  e  perigo  foram  as  palavras  mais  constantes  nas  respostas  do 
pescadores.  Observou-se  que  a  vida  de  pescador  é  bem  mais  castigante  do  que  a  das 
marisqueiras.  É  habitual  que  nas  comunidades  de  pescadores  ambos  os  conviventes 
exerçam profissões afins (o homem, a pesca; a mulher, a mariscagem), razão pela qual a 
mesma pergunta foi dirigida às marisqueiras ao fito de se conhecer melhor a realidade 
dessas comunidades: 
Eu  gosto,  né.  (...)  Rapaz,  marisqueira  é  assim  (...)  a  gente  vai  pra  pesca  e  a 
gente  pesca  o  sorôrô,  o  carangueijo,  o  camarão...  aí  a  gente  traz,  se  der  pra 
vender a gente vende, se num der a gente fica em casa pra gente se alimentar. 
Dona Joanita, marisqueira. 
(...)  tem  muitas  que  gostam,  faz  mesmo  porque  acha  bom,  é  divertido  (...). 
Dona Benaia, do lar, ex marisqueira. 
A vida não é muito ruim não, não é das melhor, mas também não é ruim não, 
porque  a gente pega o siri de gererê, arranca o búzio com colher, pega o siri 
com  a  rede  que  a  gente  faz  e  pega  peixe  de  tarrafa,  pega de  linha,  pesca  de 
linha,  não  é  muito  ruim  não,  não  é  das  melhor,  mas  também  não  é  das  pior 
não. Dona Marcilene, marisqueira, filha de pescadores. 
 
Percebeu-se que  atividade de mariscagem  em  si,  apesar do sol  implacável e da 
incerteza quanto à comercialização da produção, é até certo ponto agradável, pois elas 
geralmente trabalham em grupo e aproveitam esse momento para colocar as conversas 
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74 
 
em dia.  Já para os homens, como disse o Seu Epaminondas, é uma vida muito sofrida e 
até perigosa quando a pesca é feita mar adentro. 
Os  pais  foram  perguntados  sobre  quais  seriam  as  maiores  dificuldades  da 
profissão de pescador ou seus pontos negativos. As mais citadas foram: o perigo de se 
trabalhar no mar, a baixa lucratividade da atividade, a imprevisibilidade da produção, a 
escassez  do  pescado  e  os  problemas  de  saúde  resultantes  do  exercício  da  profissão, 
nessa ordem. 
 
A perda da vida no mar constitui o maior temor entre os entrevistados: 
Assim, pode virar o barco, se tiver muito longe (....) tem vez que chove muito 
né, aí é muito difícil, pode virar, se virar longe no meio do mar como é que 
voltam pra casa? Não tem como voltar. Dona Marcilene, marisqueira, filha 
de pescadores.
 
 (...) o mar né, cê sabe como é, só tem mesmo as água e o barco né, e Jesus. 
(...)  que  Deus  defenda  naufragá  lá  no  mar,  como  já  aconteceu,  muitos 
morreram,  só  tem  mesmo  Jesus  por  nós,  a  gente  dentro  dum  barco,  vai  que 
um  barco  daquele,  que  Deus  o  defenda,  fura,  o  pescador  né...morrem,  uns 
morrem,  os  que  se  salvam  é  um  milagre  de  Jesus.  Eu  acho  uma  vida  muito 
perigosa, muito arriscada. Dona Raimunda, agricultora, mãe de pescador. 
(...)  meu pai também nunca embarcou, ele pescava aqui fora mesmo né, mas 
meus  irmãos  embarca  e  a  gente  fica  rezando  pra  que  volte.  Valdete, 
marisqueira e filha de pescadores.
 
 (...)    tá  com  um  ano  que  morreu  aqui,  afundou  um  barco  lá,  morreu  um 
marido  duma  prima  minha,  tudo  daqui  de  perto,  morreu  cinco,  aí  aquilo  ali 
deixa  a  gente  assim  mais  preocupada,  eu  acho  muito  perigoso  vida  de 
pescador (...) Dona Rosenete, do lar, esposa de ex pescador. 
(...) o pior mesmo da nossa pesca é passar 8, 10 dias lá fora numa canoa, nos 
nossos barcos que não oferece tanta segurança, porque eu acredito que sendo 
pra  morrer,  como  tem  acontecido,  é  você  viajando  de  avião,  de  navio,  de 
carro  né,  até  mesmo  dormindo  em  casa  (...)  aí  na  água  não  tem  cabelo,  não 
tem em que se agarre. Seu João dos Milagres. 
 (...)  eu  mesmo  já  peguei  vários  aqui  mesmo  que  morrem  no  mar.  Seu 
Roberval, motorista de ambulância, esposo de marisqueira. 
As embarcações mais comuns na região são o bote, a canoa - à vela ou não - e as 
lanchas,  segundo  conversa  informal  com  a  presidente  da  colônia  de  pescadores.  Os 
óbitos  mais  comuns  decorrem  do  mar  revolto  ou  das  tempestades  que  fazem  a 
embarcação virar.  
Brandão assinala que o mar exige a pesca coletiva: a saída é perigosa e, de uma 
hora para outra, a onda cresce e o barco não pode imbicar. 
 
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75 
 
 
Às  vezes  a  onda  vira  o  barco,  envolve  os  homens  e  deixa-os  sem  sentidos. 
Quando  os  tiram  por  mortos,  para  fora  do  mar,  metem-nos  no  sal  como  as 
sardinhas,  “para  lhes  apertar  os  ossos”.  É  um  grande  remédio,  dizem.  Ano 
passado  houve  um  que,  depois  de  estar  no  sal  quarenta  e  oito  horas,  ainda 
tornou a si (BRANDÃO, 2014, p. 93). 
 
 
A cena trágica nos remete ao personagem Ulisses, na clássica obra “A Odisséia”: 
"Uma  grande  onda  avançou,  agigantando-se  acima  dele  e  fez  rolar  a 
embarcação.  Ele  foi  obrigado  a  largar  o  leme  e  caiu  na  água  (...).  O  mastro 
partiu-se  pelo  meio,  quando  a  terrível  tempestade  de  ventos  furiosos  o 
atingiu. (HOMERO, 1985, p. 65) 
 
Para Diegues (1983), o mar representa o perigo, o inesperado. Uma tempestade 
pode se avizinhar e a qualquer momento virar a canoa: 
A insegurança é que marca a vida do mar em oposição à vida da praia. O mar 
é  o  espaço  das  correntes  perigosas,  dos  ventos  que  mudam  de  direção,  do 
peixe que se desloca; e, finalmente, mesmo com o peixe no cesto, o pescador 
enfrenta a instabilidade do mercado (Diegues, 1983, p. 194). 
 
Há, também, um outro tipo de pesca perigosa e largamente praticada na região: a 
pesca  de  mergulho  com  compressor.  Apesar  de  vedada  pela  legislação  ambiental,  em 
função  de  comprometer  a  sustentabilidade  das  espécies  e  a  saúde  dos  pescadores,  é 
utilizada para captura da lagosta, espécie que ainda traz substanciais dividendos para a 
região de Acaraú. 
Percebe-se que  a pesca, apesar de arriscada e de produção incerta, se configura 
para  alguns,  principalmente  os  de  baixa  escolaridade,  a  única  forma  de  garantia  do 
sustento próprio e da família:  
Trabalhar  no  mar  é  muito  complicado,  é  muito  arriscado  (...)  mas  a  pessoa 
enfrenta  porque  é  o  único  recurso  que  tem  né,  a  pessoa  se  acostuma  aí 
trabalha né, mas é perigoso. Dona Joanita, marisqueira. 
(...)  aqui  é  sem  futuro,  a  gente  vai  mesmo  porque  não  tem  outra  coisa  pra 
fazer  e  quem  não  sabe  ler  aí  fica  difícil,  tem  que  escapar  por  aqui  mesmo. 
Seu Benedito, pescador há mais de 20 anos. 
 
Segundo  Maldonado  (1986,  p.  30),  ao  se  estudar  a  especificidade  da  produção 
marítima  é  consenso  caracterizar  a  pesca  como  uma  atividade  muito  arriscada,  não 
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76 
 
apenas  em  relação  à  segurança  física  dos  pescadores,  mas  também  em  relação  aos 
reveses  que  eles  sofrem  no  mercado,  “decorrentes  da  exploração  e  ganância  dos 
intermediários e da perecibilidade do pescado, que exige comercialização rápida”.  
 
Os  entrevistados  foram  perguntados  acerca  de  quem  lucra  mais  nessa  cadeia 
produtiva. Disseram que o lucro maior fica ora com o atravessador, ora com o dono do 
barco: 
(...)  eu  acho  que  quem  ganha  mais  é  o  intermediário  né,  aquela  pessoa  que 
pega o peixe, aí passa pra outro (...) o pescador acorda de manhã cedo né, de 
madrugada, enfrenta o vento, o mar e tudo...aí quando ele chega às vezes já 
quase meio dia, 10:30, 11:00 horas, depende da maré, depende do vento (...) 
aí  aquela  pessoa  já  tá  esperando,  se  acordou  mais  tarde  né,  tomou  seu  café 
mais  sossegado  (...)  fica  esperando  o  peixe  chegar...aí  pega  compra  o  peixe 
bem baratinho (...) o mínimo que ele pode colocar mesmo e paga pelo peixe e 
aí ele passa pra outro num preço já bem mais elevado (...)  Dona Benaia, do 
lar, esposa de ex pescador. 
Os  que  lucra  mais  é  o  dono  da  embarcação,  porque  os  pescador  ganham 
pouco, porque se caso, faz de conta se tiver pescando lagosta, se der 1000 kg, 
um pescador em cada quilo acho que ganha 1 real, e se fosse a 100 reais né, 
aí o dono da embarcação vai ficar com 90%, e quem pesca, quem vai pescar 
ganha 1%. Dona Josiane, vendedora de cosméticos, irmã de pescadores. 
(...)  lagosta  tá  quase  de  100  reais,  por  exemplo,  você  paga  pra  mim  sabe  a 
como?  A  1  real  o  quilo,  ou  1,50.  Aí  você  vai  dizer  que  se  você  pagar  mais 
caro  você  não  tem  como  compensar  aquela  despesa,  mas  se  eu  não  peguei 
nada, tudo bem até que eu concordo, mas se eu trouxer 500 quilos de lagosta, 
1000 quilos de lagosta, 2000 quilos de lagosta, é uma injustiça (...). Seu João 
dos Milagres, pesca desde os 10 anos, aprendeu o ofício com o pai.
 
Acho que quem lucra  mais é  o dono (...) a despesa também é dele, do dono 
né,  mas  quem  lucra  mais  é  o  dono,  pesca  de  lagosta,  pesca  de  peixe.  O 
pescador  vai  pescar  peixe,  10  pescador  lá,  1  quilo  de  peixe  eles  pagam  a  1 
real  e  pouco,  e  o  cara...o  dono  do  barco  vende  de  12,  15  real,  até  de  17  ele 
vende,  então  a  maioria  é  do  dono  do  barco  né,  o  pescador  não  ganha  nada. 
Seu Luiz, ex pescador. 
 
Dos  relatos  extraídos  constata-se  que  o  pescador,  responsável  pelo  trabalho 
árduo, é o que menos ganha e muitas vezes não consegue sequer pagar vale que pegou 
do armador de pesca (dono do barco):
 
(...)  não  ganha  nada,  é  pouco  (...)  sofre  muito  no  mar  e  não  ganha  nada,  é 
mixaria, as vezes pega um vale, muitos vai só com o vale e quando vem nem 
o vale não paga (...) Seu Luiz, ex pescador. 
(...)  tem  gente  que  passa  mais  de  mês,  quando  chega  às  vezes  mal  dá  pra 
pagar o vale. Dona Josiane, vendedora de cosméticos, irmã de pescadores. 
 
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77 
 
Outra questão, concernente à imprevisibilidade da produção, foi enfatizada: 
 
(...)  os  pescadores  mesmo,  daqui  mesmo,  se  acha  que  numa  canoinha 
daquela, canoinha aberta, fechada só a metade e no meio aberta né, se taca no 
meio do mundo aí pra arriscar a vida, pra sustentar a família, as vezes traz, as 
vezes não traz né, não é muito fácil não, vida de pescador é muito difícil. Seu 
José das Dores, pescador. 
(...) num tem outra coisa pra fazer, ou você embarca ou fica sem nada, você 
corre o risco de ganhar alguma coisa ou nada. Valdete, marisqueira e filha 
de pescadores
 
(...) se fizer pescaria boa ganha aquele dinheiro, se fizer a pescaria ruim, nem 
dá  pra  ele,  nem  dá  pro  dono.  Dona  Raimunda,  agricultora,  mãe  de 
pescador.
 
(...) o dono ganha mais que é o dono, isso é se pescar bem né, se der como eu 
lhe disse com a palavra do matuto, se der 2 ou 3 trono já é prejuízo, aí o dono 
as vezes encosta até o barco (...). Seu Alonso, agricultor, pai de pescador.  
 
A incerteza quanto à produção se deve, entre outros fatores, à complexidade da 
própria  atividade  de  pesca,  vez  que  esta  é  dependente  do  movimento  das  marés  e  das 
condições  climáticas,  sem  contar  a  natureza  cíclica  e  móvel  dos  cardumes  que  pode 
levar ao êxito ou não de uma incursão pesqueira. 
A  despeito  dos  aspectos  negativos  da  pesca  (lucro  maior  do  intermediário  e 
imprevisibilidade  da  produção)  observou-se  um  ponto  bastante  positivo  na  fala  de 
alguns participantes quando estes foram questionados se a pesca poderia assegurar um 
bom futuro para o filho.  
Embora  a  maior  parte  das  respostas  tenha  sido  “não”,  alguns  vislumbraram 
possibilidades  concretas  de  bom  futuro  na  pesca  -,  para  si  e  para  o  filho  -,  não  como 
empregados, mas como empreendedores, donos do próprio negócio: 
 
Eu  num  vejo como  não, é desanimador né, a não  ser se a  gente  fosse dono, 
armador  de  pesca  né,  quem  sabe...cê  vê  que  tem  empresários  que  eles 
conseguem  se  sobressair  a  outros.  Valdete,  marisqueira  e  filha  de 
pescadores
 
O  difícil  é  porque  o  pescador  se  ele  tivesse  condições  ele  não  ia  pescar  no 
barco duma pessoa né, se tivesse condições ele ia fazer um barcozinho pra ele 
né, uma canoinha pra ir pescar, arrumava duas ou três pessoas pra ajudar ele, 
mas  só  que  não  tem...o  pobre  não  tem  vez,  o  pescador  não  tem  vez,  vai 
trabalhar  pros  outros  né,  de  alugado,  porque  se  tivesse  condições  ele  não  ia 
trabalhar  de  alugado  pros  outros  né,  ele  fazia  uma  canoinha  e  ia  pescar  no 
que é dele. Seu Alonso, agricultor, pai de pescador. 
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78 
 
Pode, eu conheço gente que possui muita coisa à custa de pesca, assim quem 
tem barco vai pescar  fora né, pega  muito peixe pra vender (...) passa de  15, 
20 dias no mar e quando vem traz muito peixe né, aí vende, agora pra quem 
só coisa pra comer num é não, mas assim dá. Dona Marcilene, marisqueira, 
filha de pescadores. 
 
Dentre  as  dificuldades  mais  citadas,  a  escassez  de  pescado  é  uma  questão 
recorrente no discurso dos entrevistados. Muitos registraram que a quantidade de peixes 
na região diminuiu consideravelmente, sobretudo de uns quinze anos para cá:  
(...) de 2000 pra cá arruinou muito e é arruinando direto, por isso os pais de 
família  tão  deixando  essa  vida  de  mão,  caiu  muito  a  pesca  no  Ceará.  Seu 
Epaminondas, pescador há 33 anos. 
(...) de primeiro era muito bom,  mas hoje, pra eles arranjarem peixe  mesmo 
tem  que  ir  muito  longe,  muito  mesmo  pra  dentro  d´água  (...)  Dona 
Marcilene, marisqueira, filha de pescadores. 
Tá  com  uns  15  anos...daí  pra  cá  arruinou  a  atividade  da  pesca,  a  produção 
mais pouca, é  muita navegação, aí...tudo hoje em dia...quando vai chegando 
por essa época aí tudo é mais pouco né (...) diminuiu muito, diminuiu 70% do 
pescado. Seu Joaquim, pescador há 36 anos. 
(...) primeiro as canoas ia ali (...) saiam como agora a tarde quando fosse pela 
manhã  já  chegavam  com  peixe,  hoje  passa  4,  5,  6  dias  pra  poder  pegar  uns 
300, 400 quilos de peixe, você vê que já diminuiu (...) primeiro eles pegavam 
só numa noite (...) hoje passa 4, 5 dias pra poder pegar, é mais dificultoso né, 
já vão mais longe ainda (...) Dona Leidiane, do lar, esposa de pescador. 
Esse fenômeno, segundo os participantes, não se aplica somente aos peixes, mas 
também  aos  crustáceos,  em  especial  a  lagosta  que  pelo  alto  preço  de  mercado  sempre 
representou uma importante fonte de renda aos pescadores da região. 
(...) pesca já deu (...) primeiro o pessoal pegava lagosta aí, era bem facin, hoje 
pra pegar lagosta vai buscar no mar do  Pará. Os pescador vai, passa 40 dias 
na  embarcação  pra  poder  pegar  aquela  lagosta,  antigamente  pegava  aqui  de 
frente, tudo tá diminuindo (...) Dona Leidiane, do lar, esposa de pescador. 
(...) a lagosta acabou-se pra gente, não tem mais, não é mais como era, hoje 
muitos pais de  família tá deixando, a pesca está  muito  fraca e outra a  gente 
não  aguenta  mais,  tá  ficando  velho.  Seu  Epaminondas,  pescador  há  33 
anos. 
 
Entre as supostas razões para a diminuição dos estoques pesqueiros, segundo os 
participantes,  estão  os  barcos  ilegais  e  a  grande  quantidade  de  pessoas  -  físicas  e 
jurídicas - explorando a atividade. 
 
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79 
 
 (...) barco de pesca ilegal (...) acaba com tudo. Seu Joaquim, pescador há 
36 anos. 
 (...) antes era mais fácil (...) a exploração era menos, tinha menos pescador, 
hoje tem mais, e devido que esse meio empresário aumentou muito né, o cara 
tem  dois  barcos,  tem  dois  currais,  aí  ele  já  é  um  meio  empresário,  aí 
aumentou  muito, então  muitas vezes a  nossa produção artesanal ela fica um 
pouco lá embaixo, desvalorizada por isso mesmo  né, você  sabe que o que é 
de  empresa  ela  sempre  tem  meio  pra  que  seja  mais  evoluído  no  preço  e  vai 
pro controle de qualidade né, e o nosso não, era mais assim...  Seu João dos 
Milagres, pesca desde os 10 anos, aprendeu o ofício com o pai. 
 
Para Silva (2008) a pesca artesanal sofreu um processo ora de estagnação, ora de 
queda.  Isso  se  deve  a  vários  fatores,  entre  eles  a  exploração  excessiva  dos  estoques 
pesqueiros. Maldonado (1993), em sua obra “Mestres & Mares: Espaço e Indivisão na 
Pesca  Marítima”,  lembra  que  em  diversas  ocasiões  na  história  da  pesca,  a  indústria 
invadiu,  com  sua  frota  e  suas  práticas,  os  espaços  produtivos  e  sociais  da  pesca 
artesanal.  
Fazendo  um  breve  retrospecto  do  crescimento  dos  desembarques  mundiais  das 
últimas décadas, Melo afirma que: 
 
De modo geral, os desembarques mundiais cresceram exponencialmente até o 
fim  da  década  de  80;  houve  um  declínio  de  sua  taxa  de  crescimento  até 
atingir  o  seu  pico  de  produção  em  meados  de  1990  para,  em  seguida, 
apresentar  tendência  visível  de  queda.  Essa  condição  sugere  que,  de  modo 
geral,  as  capturas  marinhas  mundiais  teriam  ultrapassado  o  seu  máximo 
sustentável e estariam em fase de decadência da atividade. (MELO, 2012, p. 
45) 
 
A  progressiva  demanda  mundial  por  alimentos  e  matérias-primas  impeliu  a 
exploração  dos  estoques  pesqueiros,  conduzindo  a  uma  diminuição  da  população  de 
várias  espécies  capturadas  no  ambiente  marinho.  Tais  fatores,  portanto,  evidenciam  a 
existência de sobrepesca no mundo, conclui o autor. 
 
Pode-se  constatar,  no  discurso  de  alguns  pescadores,  que  eles  próprios  - 
enquanto  classe  -,  admitem  terem  contribuído  com  a  pesca  predatória,  seja 
desrespeitando  o  tamanho  mínimo  de  captura  de  cada  espécie,  seja  pela  utilização  de 
artes de pesca proibidas por lei: 
 
 (...) tem deles que não traz uma lagosta, mas você sabe por que? Porque eles 
pegaram  tudinho  no  ano  passado,  desde  a  lagosta  grande  até  àquela 
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80 
 
lagostinha  miúda  (...)  Seu  João  dos  Milagres,  pesca  desde  os  10  anos, 
aprendeu o ofício com o pai.
 
(...)    essa  armadilha  que  nós  fizemos,  o  povo  fez  pra  lagosta,  quando  era 
manzuá  era  muita  fartura,  e  a  gente  não  pegava  miúda,  hoje  não,  hoje  não 
tem  mais  moral  (...)  hoje  o  pai  de  família  não  respeita  mais  né  (...).  Seu 
Epaminondas, pescador há 33 anos. 
(...) nós tamos passando uma crise ruim mesmo (...) tem dias que a gente vai 
ali  pras  Marambaia   e  não  pega  1  quilo  de  peixe  pra  comer,  porque  num 
existe, a gente saia daqui passava 40 dias no mar do Maranhão, tinha dias que 
pegava de 200, 300 quilos de cação, era só tirando as abas e soltando n'água, 
ai  eu  dizia  isso  aqui  vai  fazer  falta  e  fez,  num  existe  mais,  num  tem  mais, 
devido a armadilha da rede (...). Seu Epaminondas, pescador há 33 anos. 
Hoje  nós  temos  uma  grande  dificuldade  é  que  nós  não  temos  mais  o  nosso 
produto  respeitado  pelo  próprio  pescador.  Seu  João  dos  Milagres,  pesca 
desde os 10 anos, aprendeu o ofício com o pai. 
Quanto aos problemas de saúde relatados pelos entrevistados, vão desde o perigo 
de  se  adquirir  um  câncer  de  pele  -  em  razão  da  constante  exposição  ao  sol  -  até  uma 
incapacitação total para o exercício da profissão em decorrência de problemas músculo-
esqueléticos: 
Pra marisqueira arranjar um câncer de pele é bem rapidinho (...) cada dia que 
passa  o  sol  tá  pior  (...)  cê  vai  mariscar,  se  não  tem  protetor  né,  às  vezes  o 
dinheiro num dá pra comprar e tem que ir. E pros pescador mesmo que vão 
pro mar é do barco virar né, risco de morte mesmo.  Valdete, marisqueira e 
filha de pescadores
 
Os  mais  comuns  eu  vou  tirar  por  dentro  da  minha  casa  mesmo,  pelos  meus 
irmãos.  A  alguns  adquiriram  problemas  na  coluna,  alguns  adquiriram 
problemas  (...)  nos  tecidos  musculares,  alguns  já  adquiriram  problemas  na 
vista, alguns já adquiriram problemas na pele.  Dona Conceição, professora 
de ensino fundamental, esposa de ex pescador.
 
Segundo  a  Dona  Conceição,  os  irmãos  são  pessoas  novas,  de  35,  40  anos,  que 
foram  obrigados  a  abandonar  a  pesca  e  hoje  sobrevivem  de  “bicos”  por  não 
conseguirem mais exercer a profissão. 
Rios,  Rego  e  Pena  (2011)  estudaram  os  fatores  de  risco  para  as  doenças 
ocupacionais  e  agravos  à  saúde  dos  trabalhadores  da  pesca  (exceto  os  relacionados  à 
acidentes  de  trabalho).  Afirmam  que  os  fatores  de  risco  podem  ser  decorrentes  do 
ambiente  de  trabalho  (frio,  calor,  umidade,  ventos,  radiação  solar,  vibrações);  do 
comportamento  do  próprio  pescador  (fumo,  consumo  excessivo  de  álcool,  uso  de 
drogas)  e  dos  fatores  sociais,  como  a  jornada  de  trabalho  extenuante,  as  condições 
socioeconômicas  adversas,  o  baixo  nível  de  instrução  e  a  posição  baixa  na  ordem  de 
classe social.  
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Como principais agravos à saúde desses trabalhadores, descrevem alguns citados 
pelos entrevistados:  
(...)  problemas  músculo-esqueléticos,  lesões  de  pele,  alergias  respiratórias, 
problemas  oftalmológicos,  respiratórios  e  urogenitais,  doenças  sexualmente 
transmissíveis, entre outros; (RIOS; REGO; PENA, 2011, p. 175)  
 
Os autores ressaltam, ainda, que ao uso abusivo do álcool foi atribuída a chance 
maior de adoecer, além de aumentar o risco de acidentes. 
Por fim, uma questão chamou bastante a atenção e merece registro: o abatimento 
moral de alguns pescadores, provavelmente em razão do trabalho difícil e exaustivo que 
desenvolvem  e  das  condições  socioeconômicas  adversas.  Isso  pode  ser  percebido  pelo 
depoimento do Seu Benedito: 
Perguntado sobre a valorização da profissão, respondeu: 
(...)  aqui  é  sem  futuro,  a  gente  vai  mesmo  porque  não  tem  outra  coisa  para 
fazer e quem não sabe ler e escrever aí fica difícil, tem que escapar por aqui 
mesmo. 
Indagado sobre o porquê de o pescador não ser valorizado, afirmou: 
(...) não tem valor  mesmo aqui, tem dias que a gente vai pega o que comer, 
tem dia que passa 2, 3 dias pra fazer 5 real, 10 real, aí é melhor ficar dentro 
de casa limpando cajueiro. 
Perguntado sobre quem lucra mais na atividade, esclareceu: 
Rapaz, aqui na nossa praia ninguém ganha, nem o dono, nem o atravessador, 
nem  o  comprador,  ninguém,  nem  o  pescador,  aqui  não  dá pra  ninguém  não, 
só mesmo para aguentar, para ir se aguentando devagarzinho. 
Interrogado sobre o porquê da pescaria não ser boa atualmente, concluiu: 
Não é boa, acabou-se, acho que nem peixe existe mais. 
Nas  palavras  de  Seu  Benedito  são  perceptíveis  os  sentimentos  de  impotência, 
desalento  e  desesperança.  Aparentam,  também,  possível  baixa  estima  e  tendência  à 
depressão.  Seu  José  dos  Milagres,  ao  contrário,  foi  o  único  entrevistado  no  qual  se 
notou  o  encantamento  pela  profissão. Ao  ser  indagado  sobre  a  profissão  e  valorização 
desta pela sociedade, declarou: 
 
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82 
 
(...) eu gosto da atividade (...). Com 10 anos eu já ia pescar mais o  meu pai 
(...)  eu  achava  bom  demais  pescar  (...)  eu  me  sinto  feliz  com  isso,  e  é  com 
muito orgulho de ser pescador.  
A classe pescadora ela é uma classe além de muitas vezes ser desclassificada, 
ela  é  desvalorizada  em  tudo.  Não  valoriza  e  juntamente  com  o  próprio 
pescador tem ainda alguém que não sabe o valor que ele tem naquela função, 
porque eu reconheço o valor que eu tenho (...) você faz a sua função e eu faço 
a minha, então cada qual, ou preto, ou branco, ou feio, ou pobre, ou rico, cada 
qual tem a sua função, tem o seu valor, eu sempre digo isso pra eles, por que 
que  eu  vou  me  rebaixar  e  dizer  que  eu  sou  inferior  ao  comerciante  que  tem 
muito  dinheiro,  um  fazendeiro  que  é  rico,  um  jogador  que  nem  o  Neimar  e 
outros mais, né? (...).  
(...)  a  melhor,  a  coisa  melhor  que  tem  é  pescar,  até  essa  pescariazinha  de 
sentar no chão lá na praia pra tirar o búzio com uma colher, tirando, raspando 
assim  o  chão  e  tirando  o búzio.  Você  tem  uma  sensação  de  que  tá  no  outro 
mundo, é muito gostoso, imagina quando você joga isca, bota a isca em dois 
anzolzinho e joga pra lá, que o peixe puxa pra lá, puxa pra cá, rapaz aquilo ali 
dá um prazer muito  grande. E também quando você joga a tarrafa que puxa 
pra cá, traz, aí bota aqui pra cima, 20, 30, 40, 10, 15 tainhas, bagre, carapeba, 
aquelas  carapebazinha,  é  muito  gostoso  (...)  Seu  João  dos  Milagres,  pesca 
desde os 10 anos, aprendeu o ofício com o pai.
 
 
O relato do Seu João dos Milagres revela que a profissão de pescador pode ser 
muito mais do que apenas um destino trágico. E é possível que muitos outros “João dos 
Milagres” também pensem assim, conforme se depreende do relato da Dona Conceição: 
 
Mesmo  com  esse  sofrimento  tem muitos  deles  que  gostam  de  estar  no  mar, 
que gostam da profissão que exercem (...) Muitos saem felizes quando vai ser 
realizado  a  liberação  da  pesca  da  lagosta.  Eu  vejo  assim  muitos  barcos 
saindo, soltando foguetes, fogos, todos muito alegres (...) mas na verdade pra 
mim  tem  mais  parte  negativa  do  que  parte  positiva.  Dona  Conceição, 
professora de ensino fundamental, filha de pescador, irmã de pescadores 
e esposa de ex pescador.
 
 
5.2.3. A visão dos servidores do IFCE 
A análise e interpretação das falas dos servidores propiciará o levantamento  de 
informações  sobre  a  implantação  e  oferta  do  curso,  bem  como  o  cenário  atual  de  sua 
oferta. 
O  roteiro  de  entrevista  contemplou  perguntas  relacionadas  à  implantação  do 
curso,  à  baixa  demanda,  ao  corpo  docente  e  estrutura  física  do  campus,  demandas  do 
setor pesqueiro que poderiam ser atendidas pelo egresso do curso, à relação do Instituto 
com  a  comunidade  e,  por  fim,  à  divulgação  do  curso.  Assim,  foram  definidas  as 
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seguintes  categorias  de  análise:  Implantação  e  Oferta  do  Curso;  O  Curso  de  Pesca;  O 
Mercado de Trabalho; Baixa demanda; Divulgação do Curso. 
 
a)
 
Implantação e oferta do curso 
A expansão da oferta da educação profissional se deu com o advento da Lei nº 
11.195/2005,  na  qual  se  dispôs  que  a  mesma  se  daria  mediante  a  criação  de  novas 
unidades  de  ensino  por  parte  da  União  e,  preferencialmente,  em  parceria  com  outros 
entes  federativos,  setor  produtivo  ou  organizações  não  governamentais,  responsáveis 
pela manutenção e gestão dos novos estabelecimentos de ensino. Em 2005, portanto, se 
materializou  a  primeira  fase  do  Plano  de  Expansão  da  Rede  Federal  de  Educação 
Profissional e Tecnológica, com a construção de 64 novas unidades de ensino. 
 
Em  2007  se  implementou  a  segunda  fase  do  referido  Plano  de  Expansão,  que 
teve como meta a entrega de 150 novas unidades até 2010 em todas as regiões do país, 
para  oferta  de  cursos  de  qualificação,  de  ensino  técnico,  superior  e  de  pós-graduação, 
sintonizados com as necessidades de desenvolvimento local e regional. 
 
Extrai-se  da  fala  do  entrevistado  que  Acaraú  foi  um  dos  municípios  que 
concorreram para fazer parte da segunda fase do Plano de expansão empreendido pelo 
Governo Federal, no eixo marítimo-portuário, em razão de sua estratégica localização e 
deficiências produtivas locais.  
 (...) o próprio Ministério veio algumas vezes aqui com seus técnicos visitar a 
localidade e a gente achou que realmente esse era o local ideal pra construir 
uma escola marítima portuária. Otávio 
 
Afirma  o  participante,  nos  anos  de  2006  e  2007  houve  várias  audiências 
públicas,  que  contaram  com  a  participação  da  sociedade  civil  como  um  todo,  em 
especial  dos  empresários,  escolas  e  secretarias  municipais  de  governo. A  comunidade 
foi visitada em feiras, locais de pesca e de venda de pescado. O maior argumento para a 
possível construção de uma unidade de ensino federal em Acaraú, diz o entrevistado, foi 
a  questão  do  apelo  produtivo  local,  em  razão  de  sua  vocação  para  a  pesca  e,  também, 
por trabalhar a questão da carcinicultura:  
A  ideia  era  se  trabalhar nos  apelos  produtivos  locais  de  forma  a  criar  novas 
oportunidades  de  emprego,  gerar  renda,  melhorar  a  qualidade  de  vida  do 
cidadão,  levar  o  ensino  da  tecnologia,  da  ciência,  de  uma  nova  proposta  de 
pesquisa.
 
Otávio
 
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Otávio  destaca  que  foi  um  trabalho  árduo  a  divulgação  da  proposta  de 
construção de um ente federal de ensino em Acaraú: 
(...)  os  encontros  todos  eram  em  público  e  abertos,  a  gente  trabalhou 
diretamente com a comunidade, nas casas, cada casa de pescador (...) fazendo 
isso  as  vezes  à  pé,  de  carro  puxado  a  animal  (...).  Foi  um  trabalho  árduo, 
visitando  cada  família  de  pescador,  mostrando  que  o  governo  federal 
realmente tinha uma proposta interessante para essa categoria (...) Otávio 
 
Segundo  o  entrevistado,  as  condições  para  a  edificação  do  campus  em Acaraú, 
em termos de contraprestação do Município, foram a entrega do projeto arquitetônico, a 
doação do terreno e toda uma logística para viabilizar a construção: 
Acaraú  acho  que  foi  um  dos  primeiros  campus  que  teve  uma  proposta,  um 
projeto arquitetônico, que se colocou lá na entrada do campus Fortaleza (...) 
foi um sucesso. Otávio 
A  proposta  idealizada  por  Acaraú  foi  a  construção  de  um  prédio  moderno  e 
diferenciado, ressalta Otávio: 
(...) a proposta era de revolucionar em prédios, um prédio mais holístico, que 
realmente  tivesse  um  diferencial  e  uma  proposta  mais  moderna 
de convivência naquilo que é educação e aproximação das pessoas. Otávio 
 
Destaca o entrevistado, que o projeto proposto sofreu adaptações e modificações 
por conta de redução orçamentária, fato que não descaracterizou a proposta inicialmente 
idealizada: 
(...)  quando  veio  o  orçamento  a  gente  foi  começar  a  cortar  (...)  mas  mesmo 
assim  ficou  esse  prédio  belíssimo  que  é  o  campus  de Acaraú,  um  dos  mais 
bonitos do Brasil. Otávio 
 
 
 
O IFCE/Acaraú deu início às suas atividades no segundo semestre de 2010 com 
os cursos de pesca, aquicultura e restaurante e bar, em salas cedidas pelo Poder Público 
enquanto o prédio se encontrava em construção.  
 
Segundo dados extraídos do Ministério da Educação, no período de 2003 a 2010, 
o Ministério da Educação entregou à população 214 unidades e entre os anos de 2011 a 
214 foram investidos mais de R$ 3,3 bilhões na expansão da rede. 
Indagado  sobre  as  razões  de  escolha  dos  cursos  técnicos  de  nível  médio  em 
detrimento  de  outros,  o  entrevistado  informou  que  a  decisão  se  baseou  em  um  grande 
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problema da região, a empregabilidade: 
Porque  o  tecnólogo  não  tinha  uma  aceitação,  a  sociedade  tinha  dificuldade 
pra arrumar emprego. Otávio 
 
Questionado  sobre  eventuais  facilidades  ou  dificuldades  nesse  processo  de 
implantação o participante informou: 
A  maior  facilidade  foi  o  Governo  Federal  estar  atento,  fazendo  os  cursos, 
capacitando  os  gestores  que  estavam  à  frente,  contratando  pessoas,  os 
técnicos,  viabilizando  os  congressos  e  as  visitas  (...).  Nós  tínhamos  algum 
problema com a população de pesca, os filhos de pescadores tinham um grau 
de  analfabetismo  muito  grande  (...)  a  gente  tentou  fazer  um  curso  para 
resgatar, trazer, fazer a inclusão desse pescador para que ele pudesse ter uma 
escola  como  essa  (...)  então  o  próprio  Governo  Federal  criou  produtos  dos 
PROEJAS, técnico do PROEJA. 
 
Indagado  sobre  eventual  curso,  à  época,  para  alfabetizar  os  pescadores,  o 
participante citou o projeto de alfabetização em Macau, desenvolvido pelo IFRN: 
(...) a gente tava começando, como experiência, por exemplo, saímos daqui e 
fomos  fazer  em  Macau  (...)  uma  experiência  lá  com  100  pescadores  nas 
regiões de pesca e desses 100 não houve nenhuma evasão, todos terminaram 
(...). 
 
b)
 
O Curso de Pesca 
O curso se dá no regime seriado semestral, com duração de 04 (quatro) períodos 
letivos.  Até  2014.2  o  primeiro  período  era  compreendido  por  disciplinas  de  educação 
básica  e  área  geral  da  pesca,  e  os  03  (três)  restantes  referentes  às  disciplinas  de 
formação técnica, totalizando a carga horária de 1.520 horas.  
Atualmente, com a aprovação da nova matriz (válida a partir de 2015.1), na qual 
foram eliminadas as disciplinas de educação básica, à exceção de educação física, que é 
optativa, o curso totaliza 1.120 horas, excluindo-se da contagem o Estágio Curricular de 
200 horas, não obrigatório. 
A  mudança  implantada  objetivou,  dentre  outras  razões,  adequar  o  curso  aos 
moldes  do  Ensino  Profissional  Marítimo  –  EPM,  ministrado  pela  Marinha  e, 
indiretamente, aumentar as possibilidades de emprego daquele que possui Caderneta de 
Identificação  e  Registro  –  CIR  –  no  grupo  de  pesca.  O  aluno  diplomado,  que  estagiar 
embarcado  sob  a  égide  da  nova  matriz,  poderá  receber  a  CIR  com  habilitação  de 
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Pescador  Especializado  (PEP),  que  o  habilita  a  desenvolver  a  atividade  na  forma 
embarcada
9
A  alteração  havida,  visou,  também,  preparar  o  curso  para  a  modalidade  à 
distância (EaD) e, futuramente, para o médio integrado. 
O Curso de Pesca contempla os seguintes componentes curriculares: Ecologia e 
Educação  Ambiental;  Saúde,  Higiene  e  Segurança  no  Trabalho;  Introdução  à  Pesca; 
Relações Interpessoais, Ética Profissional e Responsabilidade Social; Biologia Aquática 
e  Pesqueira,  Educação  Física  (opcional)  –  1º  Semestre;  Legislação  Marítima  e 
Ambiental  e  a  Prevenção  da  Poluição  no  Ambiente  Marinho;  Beneficiamento  do 
Pescado;  Segurança  em  Operação  da  Embarcação  Pesqueira,  Procedimentos  de 
Emergência  e  a  Conscientização  da  Proteção  da  embarcação;  Tecnologia  Pesqueira  e 
Marinharia;  Associativismo  e  Cooperativismo  Pesqueiro;  Extensão  Pesqueira  –  2º 
Semestre;  Estatística  Aplicada;  Arquitetura  Naval  da  Embarcação,  sua  Carga  e 
Estabilidade; Fundamentos de Economia e Comercialização para o empreendedorismo; 
Controle de Qualidade do Pescado; Oceanografia Pesqueira e Meteorologia; Sistema de 
Propulsão,  Máquinas  e  Motores  Utilizados  a  Bordo  e  sua  Manutenção  -  3°  Semestre; 
Navegação,  seu  Serviço  de  Quarto  e  Comunicação  Marítima;  Manobra  e  Sinalização 
Náutica; Sistemas Elétricos e de Refrigeração nas Embarcações Pesqueiras; Segurança e 
Sobrevivência  Pessoal  no  Meio  Aquaviário;  Administração  e  Legislação  dos  Recursos 
Pesqueiros;  Tópicos  Especiais  em  Segurança:  Prevenção  e  Combate  a  Incêndio  e 
Conhecimentos Elementares de Primeiros Socorros – 4° Semestre
 
Os  entrevistados  foram  indagados  sobre  a  forma  de  estruturação  do  curso,  se 
atende  a  uma  formação  mais  técnica  e  prática  ou  segue  uma  perspectiva  mais 
acadêmica.  As  respostas  mais  recorrentes  foram  no  sentido  de  que  o  curso  de  pesca 
possui um viés mais prático: 
 
Acredito  que  a  forma  como  tá  estruturado  no  campus  Acaraú  ele  é  bem 
prático. Damiana 
(...) estamos com uma nova proposta de uma matriz curricular e vejo que isso 
realmente  é  uma  coisa  totalmente  prática  (...)  que  venha  favorecer  no 
mercado de trabalho. Daniel 
                                                           
9
 
O IFCE aguarda a procedência do pedido pela Marinha, pois o processo está em análise. 
 
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(...) com as mudanças que foram feitas na matriz, o curso está extremamente 
prático (...) aí sim a gente tira um pouco desse viés acadêmico (...). Sofia 
 
Já para Mário, a estruturação do curso é intermediária. Esclarece que se o foco 
da formação fosse apenas técnico, o curso estaria formando pescadores, o que não é o 
caso: 
Eu  acho  que  como  ele  foi  pensado,  ele  é  intermediário,  porque  se  eu  for 
pensar na formação técnica, somente prática, eu estaria formando pescadores, 
que não é o objetivo do nosso curso. Mário 
A  alteração  da  matriz  foi  um  dos  fatores  considerados  pelos  docentes  como 
essencial  por  conferir  mais  destaque  à  questão  da  prática.  As  disciplinas  de  conteúdo 
propedêutico,  a  exemplo  de  Física,  Matemática  e  Técnicas  de  Comunicação  oral  e 
escrita, foram substituídas por componentes curriculares de natureza técnica. Outro fator 
a  ser  considerado  é  a  experiência  profissional  adquirida  dos  docentes  na  iniciativa 
privada, como se verá mais adiante. 
Os entrevistados foram solicitados a falar sobre os pontos positivos e negativos 
do curso, levando-se em conta o corpo docente e a estrutura física do campus.  Abaixo 
algumas respostas em relação ao corpo docente: 
Eu acho que o nosso principal aspecto positivo enquanto curso de pesca é o 
nosso corpo docente (...) todos os nossos profissionais são capacitados e têm 
muita experiência de mercado. Sofia 
(...)  eu  acho  o  corpo  docente  bem  eclético,  a  gente  tem  gente  que  vem  da 
universidade  (...)  da  iniciativa  privada,  (...)  de  ONG´s  (..).  Ele  atende  a 
demanda do curso. Mário 
Professores  altamente  qualificados  e  capacitados,  independentemente  da 
titulação. Alan 
(...)  o  curso  de  pesca  tem  um  perfil  de  professores  difícil  de  encontrar  em 
outras instituições. Getúlio 
A equipe hoje de pesca que tem aqui é uma das melhores do Brasil, se não a 
melhor. Regina 
 
A atuação dos docentes no mercado do trabalho é um fator importante, que pode 
trazer  contribuições  positivas  na  ministração  das  aulas,  sobretudo  nos  cursos  técnicos, 
pois os docentes têm melhores condições de direcionar o conteúdo teórico para questões 
práticas  que  o  aluno  enfrentará  no  seu  cotidiano  profissional.  A  experiência  dos 
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professores  no  mercado  de  trabalho  e,  também,  no  terceiro  setor,  em  entidades  não 
governamentais  como  citado  por  Mário,  são  fatores  que  não  apenas  enriquecem  o 
quadro  docente,  tornando-o  mais  eclético,  como  também  trazem  implicações  positivas 
ao curso. 
 Ainda  em  relação  ao  corpo  docente,  especificamente  quanto  à  questão  da 
titulação, verificou-se dentre os  sete docentes  entrevistados dois  são doutores, três são 
mestres  e  dois  possuem  graduação.  Dos  três  com  título  de  mestre,  dois  estão  em  fase 
final  de  doutorado,  fato  que  sugere  uma  preocupação  com  a  constante  atualização  e 
aumento da trajetória formativa. 
Uma questão que chamou a atenção, que diz respeito a um fator externo, alheio à 
Instituição, foi a fala da entrevistada Sofia quanto ao baixo nível educacional dos alunos 
que entram no Instituto: 
Nos  últimos  anos  eu  tenho  me  questionado  muito  sobre  isso  (...)  então  eu 
tenho  pensado  e  até  modificado  um  pouco  a  maneira  de  dar  aula,  tentando 
atingir  o  público,  (...)  alguns  alunos  que  a  gente  recebe  nos  nossos  cursos 
hoje mal sabe ler e escrever, e isso dificulta um aprendizado de coisas  mais 
técnicas  (...)  eu  tenho  que  voltar  muito  em  conceitos  básicos  pra  poder 
avançar (...) eles chegam num nível bem inferior do que a gente imagina e eu 
como professora tento alcançá-los (...) eu não tenho como ensinar português 
ou ensinar realmente a ler (...). Sofia 
A  questão  encontrada  pela  docente  para  contornar  o  problema  foi  aplicar  dois 
tipos de prova: teórica (às vezes oral) e uma prática: 
Hoje  a  linguagem  que  eu  tenho  é  totalmente  diferente  (...).  Eles  não  sabem 
português,  eles  não  sabem  escrever  na  prova  o  que  precisa  ser  escrito,  (...) 
hoje eu tenho o dobro de aula prática que eu tinha no começo, justamente por 
causa disso. Então eu faço dois tipos de prova hoje, uma prova teórica e uma 
prova prática, para tentar remediar. Sofia 
O  relato  da  docente  revela  a  necessidade  de  o  professor,  continuamente, 
reavaliar e refletir sobre a sua prática, entendendo que nem todos aprendem da mesma 
forma e no mesmo ritmo, por isso é necessário encontrar caminhos que contribuam para 
um melhor desempenho do aluno. 
Em relação à estrutura física, por se tratar de campus novo, de apenas 5 anos, a 
estrutura  física  não  está  combalida,  peculiaridade  de  instituições  mais  antigas,  a 
exemplo  das  universidades.  Nesse  aspecto,  os  entrevistados  destacaram  os  pontos 
positivos: 
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O nosso campus é um campus novo (...) tem uma estrutura muito boa de sala 
de aula, de suporte pro professor. Damiana 
A gente tem salas de aulas muito boas, a gente tem conseguido fazer visitas 
técnicas, a gente tem transporte. Aonde o curso está inserido é estratégico, a 
gente  com  10  minutos  está  numa  comunidade  pesqueira,  com  10  minutos  a 
gente está no porto, vendo qualquer tipo de desembarque. Mário 
 
Em  relação  aos  aspectos  negativos,  a  falta  de  laboratórios  e  de  alguns 
equipamentos foram os pontos mais recorrente nas falas dos participantes: 
 
(...) falta laboratório, faltam condições. Clarisse 
(...)  o  que  não  avançou  no  mesmo  ritmo,  por  exemplo,  a  construção  e 
equipagem dos laboratórios, então nós temos técnicos de laboratório hoje que 
estão  atuando  em  outras  áreas  porque  não  há  um  laboratório  para  eles 
atuarem. Regina 
(...) a gente precisa de laboratórios (...) pra que esse curso possa acontecer da 
maneira  que  ele  está  sendo  pensado  e  reestruturado,  porque  da  maneira  que 
ele  foi  reestruturado,  não  tem  como  nosso  profissional  não  ser  inserido  no 
mercado?. Sofia 
Faltam equipamentos básicos em algumas situações. Alan 
(...)  a  gente  não  tem  um  laboratório  específico  de  navegação.  A  gente  tem 
cartas  náuticas,  mesas,  alguns  equipamentos  que  (...)  são  muito  bons  pra 
ensinar os alunos, mas a gente poderia ter uns equipamentos um pouco mais 
avançados. Mário 
Com  essa  problemática  de  laboratórios,  os  próprios  alunos  já  me  disseram 
que o curso chega a ser enfadonho, de tanta teoria e pouca prática. Roberto 
 
Apesar  de  os  participantes  afirmarem  que  o  curso  possui  viés  mais  prático, 
observa-se  que  a  falta  de  laboratórios,  um  dos  aspectos  mais  importantes  dos  cursos 
técnicos,  pode  influenciar  negativamente  no  processo  de  ensino  aprendizagem  e, 
consequentemente, na formação do aluno, tornando-a deficitária.  
 
Tal raciocínio pode ser corroborado com a fala de Mário, ao afirmar que o corpo 
docente tem boa formação técnica, mas não consegue atender satisfatoriamente a parte 
de beneficiamento do pescado ante a ausência de laboratório específico para o curso de 
pesca: 
(...) todo corpo docente tem uma boa formação técnica, mas as vezes ele não 
consegue  fazer,  principalmente  na  parte  de  beneficiamento  de  pescado.  Os 
professores  aqui  sabem  como  fazer  isso,  só  que  não  tem  nenhum  material 
aqui dentro, nenhum laboratório, nenhum canto pra fazer isso, então a gente 
fica suprindo essa, essa lacuna fazendo visita técnica. Eu diria isso, que, não 
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90 
 
100%  não,  a  gente  não  contribui  para  a  formação  técnica  e  tem  deficiência 
para formar o profissional. Mário 
 
Sofia lembra que a estrutura física inexoravelmente está atrelada à realização de 
atividades práticas: 
A  gente  precisa  melhorar  muito  a  nossa  estrutura  física  pra  poder  tornar  o 
nosso curso mais prático possível (...) Sofia 
 
Apesar  das  deficiências  em  relação  aos  laboratórios  e  alguns  equipamentos, 
Mário  destaca  que,  em  comparação  a  algumas  universidades,  o  Instituto  está  melhor 
equipado: 
 
Eu diria que a gente (...) tá melhor que as universidades que eu conheço pro 
aí. Mário 
 
Além  do  empenho  em  transmitir  a  experiência  que  adquiriram  no  mercado  de 
trabalho,  percebe-se  que  a  forma  encontrada  pelos  docentes  para  mitigar  as 
consequências nocivas da falta de laboratórios tem sido a utilização de criatividade e a 
realização de visitas técnicas: 
Basicamente  com  visita  técnica.  Eu  procuro  passar  para  eles  o  máximo  de 
experiência que eu tenho, falando muito como é na realidade, (...). Clarisse 
O fator humano contorna deficiências de infraestrutura. Alan 
Os  professores  fazem  verdadeiras  mágicas  pra  poder  conseguir  atrair  a 
atenção dos alunos (...) Roberto
(...)  nosso  corpo  docente  é  muito  experiente,  acaba  dando  um  jeitinho  aqui 
outro  ali,  que  não  deveria  ser.  (...)  uma  instituição  pública,  de  qualidade, 
deveria oferecer todas as condições. Sofia 
 
A despeito da questão orçamentária não ser objeto deste estudo, ao que parece o 
Plano  de  Expansão  da  Rede  Federal  de  Educação  Profissional  e  Tecnológica 
empreendido  pelo  Governo  Federal  privilegiou  a  construção  das  unidades  em 
detrimento dos recursos físicos necessários à sua manutenção e oferta de uma educação 
de qualidade, fato que pode comprometer sobremaneira a formação do aluno.  
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O artigo 7º, inciso IV da Lei n° 11.892, de 29 de dezembro de 2008, dispõe que 
um dos objetivos dos Institutos Federais é o desenvolvimento de atividades de extensão 
de  acordo  com  os  princípios  e  finalidades  da  educação  profissional  e  tecnológica,  em 
articulação com o mundo do trabalho e os segmentos sociais, e com ênfase na produção, 
desenvolvimento e difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos. 
Os  entrevistados  foram  perguntados  se  o  IFCE  realiza  serviços  de  suporte  à 
atividade pesqueira, como cursos de extensão. Foi mencionado por vários entrevistados 
o  curso  “Pescador  Profissional”  -  POP,  destinado  à  formação  de  pescadores 
profissionais, curso indispensável para o pescador poder embarcar: 
O  curso  técnico  tem  um  curso  chamado  POP.  É  um  curso  de  108  horas 
voltado pra pescadores profissionais. Mário 
Curso  POP.  É  exceção  no  país  e  foi  iniciado  aqui.  De  inclusão  social. 
Mudança de uma cultura marítima, que aqui não existe. Alan 
 
O entrevistado Mário salienta que o curso aborda questões que os pescadores já 
conhecem pela própria experiência na atividade: 
 
Nesse  curso  é  visto  a  questão  de  meio  ambiente,  segurança  do  trabalho, 
salvatagem, tecnologia pesqueira, que é uma coisa que eles  sabem, só que a 
gente  organiza  esse  conhecimento  na  cabeça  deles.  Ele  sabe  fazer  um 
equipamento, ele sabe ir pro mar, ele sabe pescar, ele sabe tudo. Só que ele 
não sabe como as coisas são classificadas, entendeu? Ele não tem na cabeça 
dele  organizado  que  a  pesca  é  dividida  em  vários  grupos,  das  linhas  e  dos 
anzóis, das armadilhas, das redes de malhar, as redes de cerco, das redes de 
arrasto.  Ele  começa  a  entender  que  o  mundo  todo  já  organizou  isso  aí,  ele 
sabe  tudinho,  ele  só  não  sabia  que  existia  isso.    (...)  outras  coisas  eles 
aprendem  mesmo,  a  usar  um  colete  salva-vidas,  a  saber  o  quanto  ele  deve 
consumir de água se ele ficar naufragado, fazer um cálculo da quantidade que 
ele tem, quanto ele deve consumir pra manter o máximo de qualidade de vida 
durante o período de naufrágio e pra durar mais tempo, né. Mário 
 
 
O curso está condicionado à formação de turmas de 30 alunos, organizada pela 
Colônia  de  Pescadores.  Possui  demanda  e  baixo  índice  de  evasão  em  razão  dos 
benefícios  indiretos  que  o  pescador  pode  auferir:  aposentadoria  e  seguro  desemprego 
(seguro defeso): 
(...) a gente tem além dos cursos técnicos esses cursos de extensão que eram 
ministrados  pela  Marinha,  agora  a  gente  está  habilitado  a  ministrar,  então  o 
quê  que  acontece,  o  pescador  ele  por  livre  espontânea  vontade  não  tem 
interesse  em  fazer  esse  curso  de  atualização,  sendo  que  agora  tão 
condicionando a atualização dele com o seguro desemprego e aí tá chovendo 
de gente (...). Júlio 
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92 
 
A demanda do curso (...) é grande, tem um interesse muito grande do lado do 
pescador porque através desse curso ele consegue  ter a  Carteira da Marinha 
(....) isso também vai ajudar ele lá no futuro quando ele precisar se aposentar 
(...) Damiana 
 
Concluindo o curso com êxito, o pescador recebe a Caderneta de Identificação e 
Registro – CIR. 
O artesanato de sucata marinha foi outro curso de extensão citado: 
 
Nós  fazemos  cursos  nas  comunidades,  oficinas,  tentando  criar  uma 
identidade com o artesanato aqui da região e voltado para questão da sucata 
marinha, do resíduo de pescado, que eu acredito que é um potencial pra gerar 
renda pra essas famílias de pescadores. Regina 
Valendo-se  novamente  da  Lei  n°  11.892,  de  29  de  dezembro  de  2008,  o  seu 
artigo  6°,  inciso  VIII,  prescreve  como  finalidade  dos  Institutos  Federais  realizar  e 
estimular  o  empreendedorismo,  o  cooperativismo  e  o  desenvolvimento  científico  e 
tecnológico. 
Segundo  dados  divulgados  pela  Organização  das  Cooperativas  Brasileiras,  o 
Brasil  possui  mais  de  6,8  mil  cooperativas,  distribuídas  em  13  ramos  de  atividades, 
sendo  a  pesca  inserida  no  ramo  agropecuário.  O  número  de  associados  a  cooperativas 
representa hoje 5,7% dos brasileiros e 22,8% se somadas as famílias cooperados (OCB, 
2015). 
As cooperativas são disciplinadas pela Lei nº 5.764 de 16 de dezembro de 1971 
e  sua  definição  encontra-se  no  artigo  4º,  caput:  “As  cooperativas  são  sociedades  de 
pessoas,  com  forma  e  natureza  jurídica  próprias,  de  natureza  civil,  não  sujeitas  a 
falência, constituídas para prestar serviços aos associados”. 
As cooperativas têm duplo objetivo: a promoção do desenvolvimento econômico 
e  o  bem-estar  social.  Caracterizam-se  pela  participação  democrática,  independência  e 
autonomia.  Outra  particularidade  reside  no  fato  de  que  suas  decisões  são  tomadas  de 
forma  coletiva  e  os  lucros  obtidos  são  distribuídos  de  forma  justa  e  igualitária, 
contribuindo para a geração de renda e inclusão social. Diferenciam-se, portanto, de um 
empreendimento comercial: 
(...)  um  dos  grandes  diferenciais  do  empreendimento  cooperativo  é  a 
participação  econômica  dos  membros,  que  está  diretamente  ligada  ao  que 
propõe  o  cooperativismo:  pessoas  que  se  unem  com  o  mesmo  propósito,  de 
se  fortalecer  economicamente  para  ganhar  maior  poder  de  escala  e, 
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consequentemente,  mais  espaço  no  mercado,  resultando  em  maior  renda  e 
melhor  qualidade  de  vida  para  os  cooperados,  colaboradores  e  familiares, 
beneficiando, também, a comunidade. (OCB, 2015, p. 18) 
 
Iniciativas como o projeto de artesanato citado pela entrevistada Regina devem 
ser  incentivadas  e  são  capazes  de  se  tornar  muito  mais  do  que  uma  alternativa  para  a 
melhoria  da  renda  familiar.  Podem,  mediante  o  estímulo  do  cooperativismo,  ser  uma 
alternativa viável para a eliminação - ou ao menos a diminuição - dos intermediários na 
comercialização  do  pescado,  contribuindo,  assim,  para  o  desenvolvimento  social  e 
econômico local, da comunidade na qual os pescadores estão inseridos. 
Além  do  curso  POP  e  o  de  artesanato,  o  IFCE  também  realiza  cursos  de 
educação ambiental para o público pescador: 
(...)  a  gente  costuma  ministrar  oficinas  e  cursos  de  pequeno  porte  pra 
educação ambiental.  A  gente  tem trabalhado com o público pescador nesses 
cursos,  principalmente  porque  grande  parte  do  impacto  ambiental  para  a 
região costeira de Acaraú é resíduo de pesca (...). Sofia 
A  entrevistada  foi  indagada  se  existe  uma  relação  estreita  do  Instituto  com  as 
associações. Respondeu afirmando que: 
(...) a gente tem começado mesmo a trabalhar com as colônias de pescadores, 
a gente tá começando a trabalhar com a comunidade porque não é um público 
fácil  de  ser  trabalhado,  então  demanda  uma  relação  de  confiança  de  longo 
prazo pra que resultados comecem a  ser obtidos, (...) talvez no começo  isso 
não tenha sido pensado, né. A gente pensou enquanto instituição, instituição 
pública, que eles nos procurariam e isso não aconteceu, então hoje a gente os 
procura (...) Sofia
 
Um aspecto relacionado à extensão, que também se constitui um ponto negativo, 
não  exclusivo  do  curso  de  pesca,  segundo  a  entrevistada  Regina,  é  a  alta  rotatividade 
dos professores em decorrência do Plano de Expansão, como explica: 
Eu  acredito  que  outro  aspecto  negativo  seria,  e  isso  não  acontece  só  com  o 
curso de pesca, o processo de interiorização acabou trazendo profissionais de 
outros  municípios,  alguns  se  mudaram  pra  cá  e  estão  reconstruindo  a  vida, 
estão  trabalhando  aqui,  outros  continuam  com  seus  familiares,  com  seu 
núcleo  familiar  noutro  município  (...)  então  ele  (professor)  não  consegue  se 
comprometer com ações de extensão, de pesquisa, porque ele está pleiteando 
a  remoção  dele  para  outro  campi  para  ficar  perto  da  família  e  isso  faz  com 
que ele não esteja inteiro. Regina 
Prossegue  a  entrevistada  exaltando  a  importância  das  ações  de  extensão  na 
medida em que reforça os laços da instituição com os alunos: 
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O  ensino  fundamental  e  médio  são  deficientes.  A  maioria  dos  meus  alunos 
não consegue escrever corretamente, alguns não conseguem ler, e com todas 
essas deficiências não dá pra dizer que o problema seja por conta da sala de 
aula não estar equipada. Então esse aluno vem com muita dificuldade pra cá e 
aí se você realmente não tiver um compromisso, se você quer fazer apenas a 
sua  parte,  aí  fica  difícil,  porque  ele  vai  acabar  evadindo,  ele  vai  acabar  se 
desinteressando, então você tem que ir até onde ele está e tentar fazer o que 
você puder pra resgatá-lo e aí as ações de extensão são muito importantes pra 
isso, mas nem todo mundo quer trabalhar com a extensão. Regina 
 
c)
 
O mercado de trabalho 
Os  participantes  foram  indagados  sobre  quais  seriam  as  demandas  do  setor 
pesqueiro local e da região que podem ser atendidas por um técnico de nível médio em 
pesca. Buscou-se, com essa indagação, conhecer o mercado de trabalho que se apresenta 
na região, suas demandas e a questão da empregabilidade. 
Antes de entrar nessa seara, conveniente se faz transcrever a fala do participante 
Mário, na qual relaciona as competências adquiridas pelo técnico: 
 
O objetivo é dar uma formação abrangente do universo da pesca (...). É você 
formar  pessoas  empreendedoras,  pessoas  que  tenham  alguma  relação  com  a 
pesca  familiar,  (...)  que  possam  melhorar  essa  relação,  dessa  cadeia 
produtiva. Ele sai do curso sabendo que ele pode ganhar mais dinheiro com a 
pesca se ele melhorar a qualidade do pescado. Ele sai daqui do curso técnico 
sabendo  que  se  ele  melhorar  as  condições  da  embarcação  ele  vai  tornar  a 
atividade mais segura. Ele sai aqui do curso sabendo que ele pode melhorar, 
inclusive,  a  condição  laboral  a  bordo,  melhorando  algumas  estratégias 
ergométricas, por exemplo, para ele não carregar tanto peso, se agachar tanto. 
Ele  pode  sair  daqui  do  curso  sabendo  preparar  alguns  tipos  de  produto, 
oriundos da pesca. Ele pode ser um comerciante do pescado e do subproduto 
desse pescado. Mário 
 
É  consenso  entre  os  participantes  a  existência  de  demandas  na  região  que 
poderiam  ser  atendidas  por  um  técnico  em  pesca.  Dentre  elas  destacam-se:  a 
possibilidade  de  empreender  o  próprio  negócio,  ser  empregado  nas  indústrias  de 
beneficiamento,  em  diversos  setores  (gerencial,  de  produção,  controle  de  qualidade); 
trabalhar  no  terceiro  setor  e  em  órgãos  públicos,  mediante  concurso  público.  Eis 
algumas respostas: 
 
(...)  encarregado  de  linha  de  produção,  trabalhar  no  controle  de  qualidade 
dessa indústria ou até ser gerente (...) Daniel 
(...)  quando  a  gente  chega  pra  comprar  um  peixe  em  qualquer  peixaria  (...) 
você se assusta e não compra porque não tem higiene, eles não sabem como 
tratar  esse  peixe,  como  conservar  esse  peixe  (...)  um  técnico  que  sair  do 
campus  hoje  formado  e  for  montar  o  seu  próprio  negócio,  com  certeza  esse 
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local vai ser um diferencial e hoje a cidade tem muita gente de fora (...) um 
povo mais exigente. Damiana 
(...) trabalhar em órgãos públicos ou não governamentais, como ONG´s, (...) 
EMATERCI, (...) IBAMA, (....) Secretaria de Meio Ambiente, Secretaria de 
Pesca. Mário 
A  secretaria  de  meio  ambiente  deveria  ter  profissional  nessa  área,  porque 
grande  parte  dos  impactos  ambientais  que  ocorrem  em  Acaraú  são 
procedentes da pesca, derramamento de óleo, resíduos sólidos, então deveria 
ter um profissional pra gerir isso. Sofia 
(...)  a  pesca  tem  grandes  oportunidades  de  trabalho  (...)  é  um  segmento  que 
está faltando muita gente qualificada e com experiência (...) Getúlio 
 
Ao  que  parece  a  demanda  existe,  sobretudo  nas  indústrias  de  pescado,  que 
possuem em seu quadro um número elevado de funcionários, contudo, a efetiva inserção 
desses  alunos  no  mercado  de  trabalho  local  encontra  uma  série  de  óbices  de  ordem 
legal, ética, até mesmo cultural. Nesse sentido a fala de Júlio é bastante esclarecedora: 
Eu  acho  que  o  principal  mercado  que  ele pode  ser  inserido  é  exatamente  as 
indústrias  de  beneficiamento  porque  essa  nunca  vai  parar,  independente  da 
pesca (...) a indústria beneficia tanto o que vem da pesca como o que vem da 
aquicultura. Júlio 
O  entrevistado  continua  sua  explanação  dizendo  que  apesar  de  haver  mercado, 
ele  acaba  sendo  restrito,  porque  o  técnico  é  preparado  para  exercer  atividades 
qualificadas,  por  exemplo,  cuidar  da  qualidade  do  pescado  e  não  simplesmente  para  o 
trabalho mais rudimentar, de manuseio direto com o produto: 
(...)  acaba  sendo  um  mercado  restrito  porque  quem  tá  com  a  mão  na  massa 
não precisa ser um técnico, um técnico ele vai tá trabalhando no controle de 
qualidade, uma atividade mais qualificada, não tacando a mão na massa que é 
onde  tem  realmente  300,  400  funcionários  dentro  da  indústria  da  pesca,  é 
descascando, é filetando, é lacerando, e a gente não acha que seja um perfil 
pra um técnico, mas é um mercado possível que a longo prazo. Júlio 
Outra  questão  interessante,  apontada  pelo  participante,  é  que  não  há  legislação 
que  obrigue  a  presença  de  um  técnico  para  a  manipulação  do  produto,  fato  que 
propiciaria aos egressos maiores oportunidades de inserção no mercado de trabalho: 
(...)  eu  vejo  um  grande  problema  é  a  questão  trabalhista,  por  exemplo,  por 
que a indústria quer essa mão de obra? Porque é uma mão de obra barata, não 
tem  legislação  nenhuma  que  obrigue  que  quem  vai  manipular  esse  pescado 
tem  que  ter  um  curso  técnico,  se  tivesse  aí  com  certeza  era  um  mercado 
gigante  (...)  mais  uma  vez  é  a  mesma  questão  da  pesca,  quanto  menos 
qualificado pra mim melhor porque eu pago menos (...). Júlio 
 
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96 
 
O  que  se  sobressai  da  fala  dos  participantes  é  que  para  os  empresários  da 
indústria  de  pescado  o  lucro  é  mais  importante  do  que  a  presença  de  um  empregado 
capacitado em sua empresa. Essa visão imediatista e eminentemente capitalista, baseada 
na exploração do trabalhador, é bastante recorrente na fala dos entrevistados: 
(...)  elas  tem  uma  relação  com  os  trabalhadores  ainda  muito  ruim,  elas  não 
seguem as leis trabalhistas. Mário 
 
Acredito  que  o  empresário  aqui  queira  ter  muito  mais  lucro,  então  não  vai 
querer pagar o profissional de qualidade (...) Damiana 
(...) o empregador não tá nem aí, infelizmente (...) o empresário da pesca, da 
indústria, ele não tem esse compromisso todo na realidade com a atividade, a 
não ser a lucrativa né, assim de investir no seu profissional, adquirir uma mão 
de obra melhor capacitada, de nível melhor, pra que com isso ele melhore a 
qualidade  do  produto  dele,  infelizmente  ele  tem  aquele  pensamento  que  tá 
dando certo assim. Clarisse 
Extrai-se da fala dos  entrevistados uma constatação explícita de desvalorização 
do profissional qualificado pelo setor empresarial e uma oculta subserviência dos atuais 
trabalhadores  que  se  submetem  a  essas  relações  de  trabalho  iníquas  e  abusivas, 
provavelmente por terem baixa escolaridade, limitadas oportunidades socioeconômicas 
e pouca consciência de suas possibilidades cidadãs. 
 
Para  alguns  participantes,  a  empregabilidade  pode  ser  mais  facilmente 
conquistada fora do mercado de trabalho local e da região: 
 
(...)  a  maioria  dos  técnicos  de  construção  naval  foram  pra  fora,  eles  não 
ficaram aqui, eles foram pra Fortaleza, eles foram pra Recife, eles foram pro 
Rio,  eles  não  ficaram  aqui  em  Acaraú,  não  existe  mercado  em  Acaraú,  o 
mercado  ele  está  se  construindo, o  que  existe  são  promessas,  e  o que  existe 
também  é  o  empresariado  que  quer  o  pessoal  inesclarecido  pra  ele  tacar  o 
chicote  e  ficar  lá  12  horas  trabalhando,  suando,  pra  ganhar  uma  merreca  no 
final do mês, infelizmente existe isso. Lúcio. 
Não  dá  para  inserir  ainda  os  alunos,  eu  creio  que  os  alunos  que  tem 
disponibilidade pra sair da região de Acaraú conseguem emprego  mais  fácil 
do que os nossos que estão ficando aqui, sendo que o nosso mercado precisa 
desses alunos atuando. (...) Sofia 
Indagou-se à participante Sofia qual seria o motivo da não absorção dos técnicos 
formados pelo Instituto e ela assim respondeu: 
Eu acho que nós temos um mercado tradicional ainda, talvez as pessoas que 
estejam  gerindo  esse  mercado  ainda  estão  com  um  pensamento  muito 
retrógrado  (...)  e  não  querem  avançar.  Nós  estamos  numa  cidade  pequena, 
talvez  seja  isso,  um  pensamento  ainda  muito  antiquado  e  não  pensam  no 
gerenciamento de uma atividade a longo prazo. Sofia 
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97 
 
Uma  hipótese  que  se  levanta,  tanto  em  decorrência  desse  problema  de 
empregabilidade, quanto da forma superficial como foi narrada por Otávio a criação do 
IFCE/Acaraú, é que os arranjos produtivos da região não foram construídos. 
Apenas  para  reforçar  a  hipótese  lançada  acima,  quando  indagado  o  participante 
Getúlio sobre os cursos de extensão, este afirmou: 
(...) o que está faltando é uma ligação maior do setor produtivo  com a gente. 
Getúlio 
A fala de Getúlio se deu quando este respondia pergunta relacionada às demandas 
do setor pesqueiro local: 
(...) nosso aluno aqui está preparado para suprir qualquer segmento da área da 
pesca  (...)  desde  que  o  setor  pesqueiro,  ou  seja,  o  setor  produtivo  dê 
oportunidade para ele estagiar. Getúlio 
A opinião de Getúlio é corroborada pela entrevistada Clarisse: 
(...) eu acho que falta um pouco ou muito de aproximação entre o Instituto e 
os empregadores. Clarisse 
O  contexto  apresentado  conduz  à  reflexão  sobre  a  importância  dos  arranjos 
produtivos locais (APL´s). O artigo 6°, inciso IV da Lei n° 11.892, de 29 de dezembro 
de  2008  dispõe  que  os  Institutos  Federais  têm  por  finalidade  “orientar  sua  oferta 
formativa  em  benefício  da  consolidação  e  fortalecimento  dos  arranjos  produtivos, 
sociais e culturais locais, identificados com base no mapeamento das potencialidades de 
desenvolvimento socioeconômico e cultural no âmbito de atuação do Instituto Federal”. 
O  arranjo  produtivo  local,  diferentemente  dos  demais  empreendimentos 
coletivos,  não  é  determinado  por  contrato  ou  tampouco  é  constituído  sob  a  forma  de 
uma pessoa jurídica. Pode-se definir arranjo produtivo local como: 
Uma  aglomeração  de  empresas,  localizada  em  um  mesmo  território,  que 
apresenta  especialização  produtiva  e  mantém  algum  vínculo  de  articulação, 
interação, cooperação e aprendizagem entre si e com outros atores locais, tais 
como:  governo,  associações  empresariais,  instituições  de  crédito,  ensino  e 
pesquisa (CASTRO, 2009, p. 8) 
 
Ao  se  falar  em APL,  Castro  (2009)  ressalta  que  a  presença  de  vários  atores  é 
fundamental  (empreendedores,  agentes  e  instituições).  Estes,  por  meio  de  suas  ações, 
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podem  contribuir,  direta  ou  indiretamente,  para  o  desenvolvimento  da  atividade 
produtiva local: 
Um  APL  não  é  reconhecido  somente  pelas  ações  das  empresas  ou  dos 
empreendedores,  mas  também  por  outras  entidades  públicas  ou  privadas 
comprometidas  com  o  desenvolvimento  do  APL.  São  exemplos  de  atores 
locais  as  instituições  de  promoção,  financiamento  e  crédito,  de  ensino  e 
pesquisa, os centros tecnológicos, as associações empresariais, os prestadores 
de  serviços,  as  organizações  do  terceiro  setor  e  os  governos  em  todos  os 
âmbitos,  fisicamente  localizados  no APL  ou  próximos.  (CASTRO,  2009,  p. 
11). 
 
d)
 
A baixa demanda 
Os  entrevistados  foram  solicitados  a  opinarem  sobre  a  baixa  demanda  em 
relação  ao  curso  de  Pesca.  Para  quase  a  totalidade  dos  entrevistados  a  baixa  demanda 
está relacionada à falta de informação, ou seja, ao entendimento equivocado quanto ao 
curso, sua proposta e o profissional que se propõe a formar. Abaixo algumas respostas: 
(...) todo mundo entende que  o curso técnico de pesca é pra formar pessoas 
para trabalharem diretamente na pesca, ou seja, serem pescadores e isso não 
atrai a população, sobretudo a população regional que sabe muito bem o que 
é a pesca. Então como eles conhecem a atividade de pesca, eles não querem 
ser pescadores. Mário 
 
 
 
Muitos não entenderam que o nosso curso não é pra formar pescadores. Nós 
temos uma visão muito mais de gestão da  pesca, de uma gestão sustentável, 
de  modificar  esse  tipo  de  atividade  na  região.  (...)  eles  pensam  que  a 
atividade não é lucrativa ou não é importante. Sofia 
Quando se fala em pesca, o pessoal associa logo a ir pescar, então isso acaba 
gerando  um  receio  muito  grande  em  relação  a  área,  eu  acho  que  a  baixa 
procura é devido à falta de informação (...) a informação ainda é entrave (...) 
no processo de conhecimento do curso (...). Damiana 
(...)  falta  de  informação  para  a  população,  para  a  comunidade,  do  que 
realmente é o curso técnico de pesca, qual a abrangência. Daniel 
Tá faltando informação chegar à sociedade como um todo. Primeiro do IFCE 
e  dentro  disso  os  cursos  que  têm  aqui.  Outros  cursos  parecem  mais 
apetecedores,  como  construção  naval.  A  ideia  de  que  a  pesca  não  vale  é 
apenas um mito que precisa ser desmistificado. Alan 
 
Muniz  (2005)  ao  analisar  a  condição  dos  pescadores  artesanais  na 
contemporaneidade  e  as  reapropriações  de  saberes  decorrentes  do  confronto  entre  as 
modalidades  de  pesca  artesanal  e  industrial,  discorre  sobre  o  processo  tradicional  de 
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99 
 
aprendizagem.  Afirma que a vida do pescador artesanal não pode ser desvinculada do 
processo de aprendizado: 
A atividade pesqueira, o conhecimento dos marcos marítimos, das épocas do 
ano,  das  melhores  condições  para  captura  da  espécie,  são  elementos,  dentre 
outros, aprendidos no cotidiano, fora de uma estrutura formal de ensino. Para 
a imensa população que habita nos locais como os aqui apresentados, pescar 
não é algo que se aprende na escola, e sim no convívio com os pais, amigos, 
vizinhos (MUNIZ, 2005, p. 183-184). 
 
 
É  possível  que,  por  absoluto  desconhecimento  da  proposta  do  curso  de  pesca, 
alguns  alunos  não  encontrem  razões  suficientes  para  cursá-lo,  especialmente  aqueles 
que já conhecem a atividade. 
 
Para  outros  entrevistados  a  baixa  demanda  também  está  relacionada  ao 
preconceito em relação à pesca, ao estereótipo que se firmou no imaginário de boa parte 
da sociedade de que o pescador é um sujeito desclassificado, de segunda categoria. 
(...)  a  gente  vê  que  os  pescadores  são  um  povo  sofrido,  tem  essa  coisa  do 
pescador  ser  analfabeto,  pescador  não  tem  estudo,  não  tem  instrução,  então 
criou-se  essa  cultura  né  que  o  pescador  não  pode  ser  alguém  capacitado. 
Daniel 
(...)  eu  observo  que  a  sociedade  tem  preconceito  com  o  setor  da  pesca.  A 
pesca é uma atividade perigosa (...) que não evoluiu no Brasil como os outros 
segmentos,  então  a  nossa  pesca  ainda  está  atrasada  em  relação  a  alguns 
lugares cem anos (...) mas a pesca tem coisa boa e infelizmente a sociedade 
só  vê  parte  dessa  imagem  ruim.  No  íntimo  das  pessoas  é  assim:  você  não 
serviu pra nada, você não gosta de estudar, então você vai pra pesca. Getúlio 
(...) nas pequenas comunidades do litoral ou você é pescador ou se você não 
dá  pro  mar  você  vai  ser  agricultor,  hoje  não,  com  as  possibilidades  de  você 
estar realizando outras atividades, a pesca realmente tá ficando sempre cada 
vez  mais  de  lado,  e  um  perfil  muito  assim  interessante,  mas  triste,  que  hoje 
até  os  drogados  estão  sendo  pescador,  os  drogados,  quem  não  conseguem 
emprego, então o próprio dono do barco já bota craque no que a gente chama 
de  rancho,  que  é  comida,  antigamente  botava  cachaça  (...)  hoje  em  dia  é 
crack, então até nisso é sempre é uma atividade marginalizada. Júlio 
 
As  opiniões  acima  reforçam  a  fala  dos  pais  quanto  a  uma  possível 
desvalorização do pescador pela sociedade. 
Outras possíveis explicações estariam ligadas à predileção dos jovens por cursos 
de  nível  superior,  talvez  por  desconhecimento  sobre  as  oportunidades  que  os  cursos 
técnicos podem oferecer: 
A  sociedade,  o  pai,  a  mãe,  o  avô,  a  vó,  o  tio,  a  tia  quer  que  (...)  seu  ente 
querido faça um curso superior. Getúlio 
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100 
 
Não há uma visão com relação ao mercado (...) todos querem fazer um curso 
superior porque dá status, mesmo que esse curso superior (...) esteja saturado 
e  não  tenha  onde  trabalhar,  mas  ele  tem  um  diploma  superior...  ainda  se 
raciocina  muito  dessa  forma,  não  se  consegue  enxergar  o  potencial  que  a 
pesca tem aqui pra região. Regina 
 
Aventou-se, ainda, e merece destaque, que a baixa demanda está relacionada ao 
próprio declínio da atividade, à crise que o setor pesqueiro enfrenta em razão da pesca 
predatória,  da  exploração  além  dos  limites  suportáveis  que  a  natureza  tem  de  se 
reproduzir. 
Bom, a gente deve levar em conta que a própria profissão de pescador já vem 
há um certo tempo em declínio (...) essa problemática do declínio da própria 
pesca, as espécies estão sendo exploradas e não se tem políticas voltadas pra 
fiscalização. (...) a gente tem conhecimento que o período do defeso, no caso 
da lagosta, não é respeitado (...) não só a lagosta, o pargo e outros peixes tão 
sofrendo  esse  declínio  justamente  pela  pesca  predatória.  (...)  não  tem 
perspectiva,  em  si,  de  melhora  do  setor  (...)  há  um  certo  descompasso  em 
relação à permanência e até a procura desse público-alvo nosso no caso para 
continuar o curso (...) a tendência dele é fechar. Roberto 
(...) a demanda tá caindo, não só pela saturação de interessado, mas também 
pelo próprio declínio da atividade. Júlio 
A saturação a que se refere Júlio é em relação à repetição da oferta do curso em 
todos  os  semestres  desde  2010.  Uma  possível  alternativa  encontrada  pela  Instituição 
para elevar a demanda é ofertar em 2016 o curso de pesca na modalidade à distância: 
Para  o  entrevistado  Júlio,  a  pesca  é  uma  atividade  pulverizada  e  ressalta  que 
Acaraú é mais um polo de desembarque que um polo de pesca: 
(...) a pesca é uma atividade muito pulverizada, você não tem polos de pesca, 
apesar da gente acreditar que Acaraú é um polo de pesca, na verdade ele é um 
polo de desembarque de pesca. Júlio 
O participante explica: 
(...)  ...  ah Acaraú  é  o  maior  produtor  de  lagosta  do  Brasil  ..,  não  é  que  ele 
seja  o  maior  produtor  porque  a  lagosta  tá  sendo  pescada  lá  no  Pará,  lá  no 
Maranhão,  lá  no  Rio  Grande  do  Norte,  mas  como  os  barcos  são  daqui  eles 
vão pescar nessas áreas e desembarcam aqui porque aqui tem o maior número 
de  empresas  de  processamento  dessa  lagosta,  então  é  mais  fácil  ele 
desembarcar aqui do que desembarcar lá e trazer de carro né, é uma questão 
de logística, então aqui não deixa de ser um ponto relevante de pesca, mas é 
uma atividade que é pulverizada o litoral do Ceará todo. Júlio 
O participante encerra dizendo que o curso de pesca à distância – EaD - pode ser 
uma modalidade que apresente maior demanda: 
A gente acredita que na questão do EaD a gente consiga chamar mais alunos 
que  atuam  na  atividade,  até  porque  a  atividade  da  pesca  hoje  em  dia  é 
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101 
 
complicada,  você  não  trabalha  aquelas  8  horas  regulares,  né,  você  as  vezes 
passa 2, 3 dias no mar e quando você voltar pode continuar acompanhando o 
EaD e se programar para as aulas presenciais. Você está em terra. Júlio 
 
Indagado sobre se o curso presencial seria mais interessante em Camocim, uma 
cidade que também possui vocação para a pesca, a aproximadamente 120 km de Acaraú, 
o participante respondeu: 
(...) lá você tem uma pesca mais forte, uma pesca artesanal, aqui a gente não 
deixa de ser, a nossa também é artesanal, (...) mas é uma quantidade pequena 
de  empresários  que  detém  a  maioria  das  embarcações  e  lá  não,  é  aquele 
pescador que tem sua embarcação que vai pescar com um vizinho, um irmão, 
um  primo  ou  um  conhecido,  então  você  tem  muitas  pequenas  embarcações, 
diferente daqui que a gente tem poucas grandes embarcações, então talvez lá 
a  gente  tenha  um  resultado  mais  interessante  porque  a  gente  tem  uma 
atividade que você  vê  mais cotidiana no  município (...) lá tem peixaria, tem 
gente consertando barco, construindo barco...é bem mais visível que Acaraú. 
Júlio 
Outro entrevistado também citou a referida cidade como mais apropriada para a 
oferta do curso: 
(...)  então  é  um  problema,  um  carro  problema  o  curso  de  pesca,  inclusive 
docentes já afirmaram que o  curso de pesca é o curso certo no local errado, 
por  exemplo  aqui  perto  nós  temos  Camocim  e  lá  em  Camocim  sem  dúvida 
seria  um  ótimo  local  para  que  o  IFCE  pudesse  colocar  o  curso  de  pesca. 
Lúcio 
 
Por fim, novamente veio à tona a questão da baixa remuneração percebida pelos 
que  atuam  na  atividade  da  pesca,  seja  como  empregado  nas  indústrias  ou  em 
embarcações de pesca: 
(...) talvez o aluno não consiga vislumbrar qual é o ganho profissional que ele 
vai  ter  ao  término  desse  curso  (...)  na  pesca,  o  dono  do  barco  não  tem  esse 
interesse,  porque  ele  acha  que  um  curso  desse  técnico  não  vai  agregar  nada 
ao pescador, pelo contrário, como é uma atividade totalmente desqualificada 
e  braçal,  quanto  menos  qualificado  pro  dono  do  barco  é  melhor  porque  ele 
paga um salário menor (...). Júlio 
 
Pelos  relatos  ora  transcritos  percebe-se  que  pesca  não  é  um  segmento  atrativo 
para  os  alunos  que  concluem  o  ensino  médio. Além  de  haver  uma  ideia  equivocada  e 
generalizada  de  que  o  curso  serve  apenas  para  preparar  pescadores,  a  profissão  de 
pescador  é alvo  de preconceito por parte da sociedade, o que  acaba levando o aluno  a 
não optar pelo curso.  
e)
 
Divulgação do curso 
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102 
 
Os  cursos  técnicos  de  nível  médio  do  IFCE/Acaraú  são  ofertados 
semestralmente,  por  meio  de  Edital,  àqueles  que  concluíram  o  ensino  médio.  Até  o 
semestre  2015.1,  a  oferta  se  dava  por  meio  de  processo  seletivo  –  prova. Atualmente, 
para  o  semestre  que  se  iniciará  em  2015.2,  com  atraso  em  virtude  da  greve  dos 
servidores, o critério de seleção será por histórico escolar (maior média nas disciplinas 
do ensino médio). 
Aos  entrevistados  perguntou-se  como  se  dá  a  divulgação  dos  cursos  ofertados 
pelo IFCE. Eis algumas respostas: 
A  divulgação  é  feita  por  edital  geral  que  é  aberto  pra  todo  o  Estado,  pros 
cursos  técnicos,  uma  chamada  única  e  localmente  a  divulgação  é  rádio,  é 
internet, as redes sociais, facebook e algumas visitações nas escolas. Júlio 
(...)  nós  temos  um  setor  pra  isso,  pra  divulgar  o  curso  levando  às  escolas,  e 
rádio, nós estamos no interior, a maior parte da comunicação é rádio, panfleto 
ou até as redes sociais (...) Sofia 
Existe um setor da própria instituição que é responsável pela divulgação (...). 
Getúlio 
A  divulgação  é  direcionada  mesmo  ao  aluno,  comunidades,  mas  ainda  na 
comunidade é  muito pouca,  mais é  nas escolas onde  fazem o ensino  médio. 
Damiana 
 
A Coordenação de Comunicação  e Eventos  é a responsável  pela divulgação do 
curso,  a  qual  se  dá  por  vários  meios  de  comunicação:  panfletos,  rádio,  site  do  IFCE, 
redes sociais e visitação nas escolas. 
 
Vários  participantes  afirmaram  que,  dentre  os  veículos  de  comunicação 
disponíveis, o boca a boca é o mais eficaz: 
Os nossos alunos (...) divulgam bastante. No primeiro dia de aula eu costumo 
perguntar  como  é  que  você  soube  do  curso,  o  que  lhe  levou  a  estar  aqui, 
então grande parte...ah é o aluno que tá no 4º semestre, ele tá fazendo tanta 
coisa legal, ele tá embarcando, sabe construir um manzuá
 (...). Sofia 
Hoje,  principalmente,  se  nós  formos  conversar  com  os  nossos  alunos  que 
estão chegando  no primeiro semestre, a  maior parte deles  veio por conta do 
contato com um amigo que já é aluno do IFCE, então acaba que um aluno vai 
chamando o outro. Regina 
(...) temos uma série de outros meios e veículos e o principal é o boca a boca. 
Lúcio 
 
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103 
 
A fala dos participantes, em relação à eficácia do boca a boca, corrobora com os 
dados  apurados  na  parte  quantitativa  (questionário  aplicado  aos  alunos  do  3º  ano  do 
ensino médio) onde se registrou que 45,7% dos que conhecem o curso de pesca foi por 
intermédio de amigos ou parentes que estudam no Instituto.  
Alguns participantes entendem que o curso é conhecido e divulgado: 
As pessoas, em maior ou em menor percentual, elas conhecem já o curso (...). 
Getúlio 
(...) o curso é divulgado. As pessoas sempre sabem dos processos de seleção. 
Mário 
 
 
A opinião de  alguns  entrevistados  contrasta com  os dados levantados por  meio 
do questionário aplicado aos alunos do ensino médio, pois se apurou que 64,4% deles, 
nas quatro escolas pesquisadas, não conhecem o curso, muito embora já tenham ouvido 
falar dele e apenas 19,0% dos alunos afirmaram conhecê-lo razoavelmente. Os números 
indicam  que  a  divulgação  empreendida  pelo  Instituição  é  deficitária  e  precisa  ser 
aprimorada.  
A  fala  de  um  participante,  Lúcio,  chamou  a  atenção.  Ele  entende  que  a  baixa 
demanda é uma questão muito mais abrangente, que perpassa não apenas o preconceito 
com  o  curso  de  pesca  mas  até  o  lançamento  dos  editais  de  seleção  sem  antecedência 
mínima: 
(...)  o  problema  de  você  lotar  turma  de  pesca  é  um  problema  muito  mais 
abrangente (...) os editais são lançados muito em cima da hora de começar as 
inscrições, o que  muitas vezes invalida o planejamento (...). Na verdade são 
vários  fatores  que  acabam  colaborando,  desde  a  questão  do  preconceito  em 
relação ao curso, desde a questão da organização da Instituição. Lúcio 
 
O  entrevistado  ressalta  que  algumas  divulgações  são  acompanhadas  por 
professores,  no  entanto,  devido  à  correria  do  cotidiano  acadêmico,  elas  não  são 
frequentes:  
(...)  algumas  divulgações  são  acompanhadas  por  professores  que  acabam 
sensibilizando os alunos acerca dos objetivos do curso, só que como a gente 
sabe da correria que é o cotidiano acadêmico, se torna esporádico (...). Lúcio 
 
Acrescenta,  o  participante,  ser  comum  nessas  visitas  às  escolas  o  interesse  por 
outros cursos: 
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104 
 
(...)  o  que  acontece  é  que  muitas  vezes  ao  final  das  nossas  explanações 
acontece aquele famoso "e quando vai ter outros cursos?" (...) uma ansiedade 
de  novos  cursos  é  muito  grande  (...)  o  nosso  campus  ele  está  aos  poucos 
investindo na implantação de novos cursos. Lúcio 
 
Observa-se dos relatos colhidos que a divulgação é realizada pela Coordenação 
de Comunicação e Eventos geralmente logo após o lançamento dos editais - impedindo 
salutar planejamento e, ocasionalmente, por alguns professores, de forma individual ou 
na companhia do representante da referida coordenação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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105 
 
6 PRODUTO TÉCNICO 
 
Os  resultados  obtidos  com  a  coleta  de  dados  apontaram  para  a  necessidade  de 
mobilização do Instituto em melhorar a divulgação do curso. Para tanto, importante se 
faz aumentar a frequência de visitas às escolas a fim de conferir-lhe maior visibilidade. 
Outra  questão  que  merece  registro,  bastante  recorrente  na  fala  dos  servidores 
entrevistados, é o entendimento generalizado e equivocado de que o curso se destina a 
formar pescadores. Assim, com o intento de desconstruir esse mito, apresenta-se como 
produto  técnico  uma  metodologia  própria  de  divulgação  do  curso,  que  tem  como 
objetivo  precípuo  informar  os  destinatários  sobre  a  sua  real  proposta  e  o  tipo  de 
profissional que este se propõe a formar: um gestor da pesca e não um pescador. 
A partir do diagnóstico supracitado, surgiu a necessidade de estruturação de um 
roteiro  de  visita  e  divulgação,  cujo  objetivo  basilar  é  fornecer  informações  reais  e 
fundamentadas sobre o curso, bem como motivar e despertar o interesse dos alunos pelo 
mesmo. A ideia é utilizar como  estratégia metodológica uma  abordagem  participativa, 
de  forma  que  os  alunos  possam  interagir  com  a  equipe  de  divulgação  e  com  os 
conteúdos do curso. 
O referido instrumento  foi idealizado levando-se em  conta as características do 
público-alvo - os alunos do ensino médio -, razão pela qual foi adotada uma linguagem 
simples  e  de  fácil  compreensão,  despida  dos  termos  técnicos  próprios  de  um  curso 
técnico, sabidamente pouco didáticos.  
É importante ressaltar neste momento  a necessidade da aproximação da  equipe 
pedagógica  do  Campus  com  os  docentes  e  gestores  do  curso,  tanto  para  fins  de 
planejamento, como execução e avaliação destes momentos de divulgação. Isto porque 
é  sabido  que,  em  sua  maioria,  os  docentes  que  atuam  no  curso  vivenciaram  uma 
formação técnica e tiveram pouco ou nenhum contato com o conhecimento e reflexões 
pedagógicos,  o  que  muitas  vezes  dificulta  a  transposição  didática  dos  conteúdos 
específicos  da  área  e,  consequentemente,  inviabiliza  o  processo  de  sensibilização  e 
motivação dos alunos. 
O documento também apresenta o Manual Descritivo do Curso, que consiste nas 
competências que o aluno irá desenvolver ao longo do curso, ou seja, em breve síntese, 
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106 
 
o que ele irá aprender.  Foram  escolhidos pontos  de cada disciplina que eventualmente 
possam despertar a curiosidade e o interesse do aluno. 
A proposta é de que as visitas sejam semestrais, iniciando-se com as turmas do 
primeiro  ano  do  ensino  médio,  nas  escolas  Tomaz  Pompeu  de  Souza  Brasil,  Liceu  de 
Acaraú Maria Alice Gomes, Maria da Conceição de Araújo (Aranaú) e Vicente de Paulo 
da Costa (Juritianha). Indispensável se faz o contato permanente com a Coordenação da 
CREDE 3 e a atualização periódica dos telefones e e-mails dos diretores de cada escola 
e  de  seus  representantes  ou  auxiliares,  a  fim  de  que  as  visitas  sejam  previamente 
agendadas. 
A  seguir,  encontram-se  a  metodologia  de  divulgação  e  o  manual  descritivo  do 
curso, material complementar que será distribuído e explicado aos alunos nas visitações. 
6.1 METODOLOGIA DE DIVULGAÇÃO DO CURSO DE PESCA 
Dados Gerais sobre a Oferta 
 
 
Identificação 
Técnico Subsequente de Nível Médio em Pesca  
Nível 
Médio Subsequente 
Certificação 
Técnico de Nível Médio em Pesca 
Modalidade 
Presencial 
Duração do curso 
4 semestres 
Requisito de ingresso 
Ensino Médio Completo  
Forma de ingresso 
Análise de histórico escolar 
Número de vagas (anual) 
35 
 
 
ATIVIDADE 
OBJETIVOS 
 
Introdução 
 
1.
 
Iniciar  as  atividades  indagando  aos  alunos  se 
estes  possuem  familiares  ou  conhecidos  que 
trabalhem  com  pesca.  Em  seguida,  questioná-los 
sobre  o  que  pensam\acham  da  profissão 
(Exemplo: É segura? É rentável? ) 
 
 
 
 
-  Fazer  uma  sondagem  do  contato  que  os  alunos 
já  possuem  com  a  atividade  pesqueira,  seus 
conhecimentos  prévios  e  impressões  sobre  a 
profissão. 
 
 
Desenvolvimento 
 
1.
 
Uma  breve  fala  sobre  a  importância  da 
atividade  pesqueira,  tanto  de  forma  geral,  como 
os seus impactos na região. 
 
2.
 
Apresentação  do  curso:  de  forma  dinâmica  e 
ilustrativa,  expor  a  natureza  do  curso,  seus 
objetivos,  bem  como  o  perfil  de  formação  e 
possibilidades de atuação profissional. 
 
 
 
- Contextualizar e justificar a relevância do curso 
Técnico  em  Pesca  para  o  desenvolvimento 
nacional e regional. 
 
-  Oferecer  informações  reais  e  fundamentadas 
sobre o curso. 
 
- Distribuir o manual descritivo do curso 
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107 
 
 
3.
 
Atividade  prática:  esta  atividade  deve  ser 
realizada  por  um  docente  ou  técnico  do  curso. 
Seria  interessante  aqui,  uma  demonstração 
prática,  na  qual  um  ou  alguns  alunos  pudessem 
participar,  de  forma  voluntária.  Poderia  ser  uma 
demonstração  de  como  usar  algum  instrumento 
ou equipamento do curso, como GPS, rádio (VHF 
e  HF),  sinalizadores  (salvatagem),  balsas  salva-
vidas,  sempre  relacionando  essas  atividades  com 
as  competências  que  ele  irá  adquirir  no  curso. 
Podem  ser  utilizadas,  por  exemplo,  maquetes  de 
embarcações para dar noções de arquitetura naval 
e  explicar  os  conceitos  de  estabilidade  e 
flutuabilidade. 
 
 
 
 
 
 
- Despertar a curiosidade e o interesse dos alunos 
pelo curso.  
Encerramento 
 
1.
 
Pedir  a  alguns  alunos  que  se  voluntarie  a 
relatar algum aprendizado conquistado a partir da 
visita.  Convidá-los  a  conhecer  o  campus  e  os 
laboratórios do curso de pesca. 
 
 
- Avaliar o impacto da atividade realizada. 
 
-  Fomentar  a  aproximação  dos  alunos  do  Ensino 
Médio  com  o  campus,  principalmente,  com  o 
curso de Pesca. 
 
 
 
MANUAL DESCRITIVO DO CURSO 
 
a)
 
 Ecologia e Educação Ambiental 
Entender  como  os  animais,  plantas  e  outros  seres  vivos  interagem  no  meio 
ambiente 
Diagnosticar os problemas ambientais e encontrar soluções para melhorar a sua 
comunidade, vivendo num ambiente mais saudável 
 
b)
 
Saúde, Higiene e Segurança no Trabalho 
Aprender a trabalhar nas embarcações e nas indústrias de forma correta e mais 
segura 
Conhecer  os  equipamentos  de  proteção  de  trabalho  que  previnem  acidentes 
(luvas de aço para manusear facas, de borracha para mexer com anzóis, por exemplo) 
Prevenir  e  combater  incêndios  (uso  de  extintores,  por  exemplo)  e  como  dar  os 
primeiros socorros (ressuscitação em casos de ataques cardíacos e afogamentos – RCP, 
por exemplo) 
Aprender a cuidar melhor de sua saúde  
 
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108 
 
c)
 
 Introdução à Pesca 
Conhecer sobre a pesca, seus tipos, o que vem acontecendo com ela durante os 
anos - no Brasil e no mundo - e porque ela é importante para a sociedade 
 
d)
 
 Relações Interpessoais, Ética Profissional e Responsabilidade Social 
Conhecer os direitos e deveres do pescador 
Saber da importância de se relacionar bem no ambiente de trabalho, seja a bordo 
de um navio ou numa empresa 
Aprender sobre ética e como trabalhar em equipe 
Conhecer os perigos do uso de bebidas alcoólicas e drogas iícitas a bordo 
 
e)
 
 Biologia Aquática e Pesqueira 
Conhecer  melhor  os  seres  que  habitam  nos  ambientes  de  praia,  mangue  e  rio 
(como  se alimentam,  se reproduzem  e se desenvolvem):  caranguejo,  ostra, polvo,  lula, 
camarão, peixes, tartarugas, algas, corais, estrelas-do-mar, entre outros.  
Aprender técnicas de coleta em campo e posterior análise em laboratório. 
Aprender a dissecar os animais maiores. 
 
f)
 
 Legislação  Marítima  e  Ambiental  e  a  Prevenção  da  Poluição  no 
Ambiente Marinho 
Conhecer  as  leis  que  regulam  as  relações  entre  as  embarcações  e  o  meio 
ambiente 
Conhecer os  tipos  de poluição, os agentes poluidores mais comuns e os órgãos 
responsáveis pela política ambiental. 
Saber  sobre  as  responsabilidades  da  tripulação  e  demais  pessoas  a  bordo  para 
proteger o ambiente marinho. 
 
g)
 
 Beneficiamento do pescado 
Conhecer os tipos de pescado e as principais espécies comercializadas 
Beneficiar  o  pescado  (peixe,  polvo,  camarão  e  lagosta)  e  conhecer  seus  co-
produtos  (embutidos,  farinha,  óleo)  e  possibilidades  de  valor  agregado  (espetinho  de 
camarão, camarão empanado, por exemplo). 
Aplicar os métodos de conservação do pescado: salga, defumação, enlatamento, 
congelamento e refrigeração.  
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109 
 
Tratar, classificar e embalar o pescado (o camarão tem 9 tamanhos diferentes de 
classificação, por exemplo) 
 
h)
 
Segurança  em  Operação  da  Embarcação  Pesqueira,  Procedimentos 
de Emergência e a Conscientização da Proteção da Embarcação 
Trabalhar em segurança, saber o que fazer numa emergência e avaliar a proteção 
do navio 
Adotar  medidas  nos  casos  de  abandono,  furos,  encalhe,  colisão  e  explosão  da 
embarcação 
Conhecer os procedimentos de salvamento de pessoas ao mar 
 
i)
 
 Tecnologia Pesqueira e Marinharia 
Conhecer o funcionamento dos materiais utilizados nas artes de pesca (materiais, 
instrumentos ou aparelhos usados para pescar, a exemplo dos anzóis, linhas, armadilhas, 
redes, entre outros) 
Identificar os métodos de captura dos recursos pesqueiros 
Confeccionar e reparar as artes de pesca 
 
j)
 
 Associativismo e Cooperativismo Pesqueiro 
Identificar  as  formas e  a importância do associativismo  (associação, sindicatos, 
cooperativas, fundações) 
Mobilizar uma comunidade para organizar uma cooperativa 
Conhecer a economia solidária (forma diferente de produzir, vender, comprar ou 
trocar, sem explorar ninguém e respeitando o meio ambiente). 
 
k)
 
 Extensão Pesqueira 
Conhecer as principais políticas públicas para o desenvolvimento da pesca e da 
aquicultura e as alternativas de desenvolvimento local das comunidades pesqueiras. 
 
l)
 
 Estatística Aplicada 
Avaliar numericamente os fenômenos naturais e pesqueiros. 
Conhecer  as  relações  de  causa  e  efeito  dos  fatores  naturais.  Ex:  será  que  a 
relação  de  determinada  espécie  com  os  períodos  de  chuva  pode  influenciar  a 
produtividade? 
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110 
 
 
m)
 
 Arquitetura Naval da Embarcação, sua carga e Estabilidade 
Identificar os tipos e partes de diversas embarcações e como operá-las de forma 
adequada e segura 
Compreender os conceitos de estabilidade e flutuabilidade e sua importância na 
segurança da navegação 
 
n)
 
 Fundamentos 
de 
Economia 
Comercialização 
para 
empreendedorismo 
Conhecer como funciona o mercado da pesca, segundo os conceitos de demanda, 
oferta, produção, consumo e custos. 
Saber com tornar-se um empreendedor na área da pesca e o passo-a-passo para 
abrir o próprio negócio 
 
o)
 
Controle de Qualidade do Pescado 
Receber,  transportar,  manusear  e  acondicionar  o  pescado,  evitando 
contaminações 
Conhecer  as  técnicas  de  higienização  do  ambiente  em  que  se  manipula  o 
pescado 
Identificar as fases de decomposição do pescado 
Conhecer  as  exigências  do  mercado  externo  (Japão,  Europa  e  USA)  que 
consomem o pescado brasileiro e os critérios de exportação 
 
p)
 
 Oceanografia Pesqueira e Meteorologia 
Descobrir as origens da terra, sua atmosfera e seus oceanos 
Saber porque a terra se movimenta e o que há no fundo dos mares 
Conhecer  a  vida  no  ambiente  marinho,  as  correntes  marítimas,  a  origem  e  os 
tipos de ondas e como a maré pode influenciar a vida humana 
Compreender  o  que  é  aquecimento  global,  o  fenômeno  do  El  Ninho  e  as 
previsões do tempo 
 
 
 
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111 
 
q)
 
 Sistemas de Propulsão, Máquinas e Motores utilizados à bordo e sua 
manutenção 
Compreender  o  funcionamento  básico  de  motores,  máquinas  de  convés  e 
motores geradores e sua manutenção. 
 
r)
 
 Navegação, seu Serviço de Quarto e Comunicação Marítima 
Conhecer a legislação que trata do tráfego aquaviário nacional e internacional 
Entender os processos de comunicação marítima 
Conhecer os limites do mar brasileiro, as tábuas das marés, o que são as cartas 
náuticas, as coordenadas geográficas, saber a sua posição no mar e planejar e executar a 
sua derrota. 
 
s)
 
 Manobra e Sinalização Náutica 
Entender  os  sinais  luminosos,  cegos  e  sonoros,  para  manobrar  e  conduzir  com 
segurança a embarcação, bem como as regras de manobras para evitar abalroamentos. 
Como atracar, desatracar e amarrar uma embarcação 
Identificar os tipos de amarras, âncoras e hélices e tipos de fundo. 
 
t)
 
 Sistemas Elétricos e de Refrigeração nas Embarcações Pesqueiras 
Conhecer  e  utilizar  os  tipos  de  sistema  de  refrigeração  (motores,  câmaras 
frigoríficas e ar-condicionado) 
Utilizar técnicas básicas de reparos e manutenções dos sistemas frigoríficos e de 
refrigeração 
Identificar as temperaturas necessárias para conservação do pescado 
Conhecer  conceitos  básicos  de  eletricidade,  técnicas  de  reparos  e  manutenções 
dos  principais  componentes  dos  sistemas  frigoríficos  e  de  refrigeração  nas  unidades 
pesqueiras 
 
u)
 
 Segurança e Sobrevivência Pessoal no Meio Aquaviário 
Conhecer os perigos que ameaçam a sobrevivência e as técnicas de resgate nos 
casos de abandono da embarcação ou naufrágios 
Utilizar  os  recursos  de  salvamento  e  conhecer  as  práticas  com  equipamentos 
salva-vidas 
Executar os métodos de comunicação de emergência  
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112 
 
Dominar  o  pânico  em  situações  de  perigo  e  estresse  (instabilidade  mental  e 
emocional) 
Sobreviver em águas infestadas de tubarões e ser localizado 
 
v)
 
 Administração e Legislação dos Recursos Pesqueiros 
Identificar os principais problemas da pesca 
Conhecer  todos  os  fatores  que  interferem  na  atividade  pesqueira:  fatores 
ambientais  (marés,  fases  do  ano,  el  ninho,  fases  lunares);  econômicos  (alta 
produtividade, baixo preço; baixa produtividade, alto preço); e sociais (classes sociais e 
etárias, escolarização) 
Conhecer órgãos que cuidam da gestão da pesca (IBAMA, ICMBio, MMA) e as 
principais  medidas  de  controle  de  explotação  dos  recursos  pesqueiros  (controle  por 
tamanho de captura, por aparelho de pesca, por cota, por período e por área de pesca). 
 
w)
 
 Tópicos Especiais em Segurança: Prevenção e Combate a Incêndio e 
Conhecimentos Elementares de Primeiros Socorros. 
Prevenir e combater incêndio 
Reconhecer  as  urgências  e  emergências  no  atendimento  pré-hospitalar, 
identificando o atendimento mais adequado nas situações de riscos 
Dominar  noções  básicas  sobre  os  conceitos  das  classes  de  incêndio,  agentes 
extintores, métodos de transmissão de calor e das formas de combate ao fogo 
Tratar de ferimentos, envenenamentos, picadas de insetos e cobras 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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113 
 
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Os dados extraídos da análise dos questionários aplicados aos alunos do 3º ano 
do  ensino  médio  das  escolas  públicas  de  Acaraú  e  seus  Distritos  apontaram  a 
preferência destes por cursos em nível de graduação, evidenciando uma predileção pelos 
cursos  de  nível  superior,  principalmente  bacharelado,  em  detrimento  dos  cursos 
técnicos. 
Restou  evidenciado  que,  de  um  modo  geral,  o  campus  do  IFCE/Acaraú  é 
conhecido pelos concluintes do ensino médio, contudo dos que declararam não conhecê-
lo a maior parte situa-se na zona rural.  
Evidenciou-se,  ainda,  alta  rejeição  ao  curso  de  pesca,  sendo  que  a  maioria  dos 
participantes afirmou que não o conhecem, mas já ouviram falar. 
 
Em  relação  à divulgação do curso, o meio que se mostrou mais eficaz entre os 
alunos foi o “boca-a-boca”, materializado através de amigos ou parentes  que estudam 
no Instituto.  
Por  fim,  a  maioria  dos  alunos  declarou  que  os  pais  incentivariam  o  ingresso 
deles no curso de pesca, caso decidissem cursá-lo. 
A análise das entrevistas revelou que, no âmbito da educação profissional, uma 
das  políticas  públicas  mais  relevantes  na  área  da  pesca  foi  a  assinatura,  em  2006,  do 
acordo  de  cooperação  técnica  entre  o  MEC/SETEC  e  a  Secretaria  Especial  de 
Aquicultura  e  Pesca  da  Presidência  da  República,  que  viabilizou  o  aumento  de  cursos 
técnicos na Rede Federal e criou os Núcleos de Pesquisa Aplicada à Pesca e Aquicultura 
– NUPA´s. 
Em  relação  aos  pais  se  constatou  que  a  maior  parte  das  pessoas  analfabetas 
entrevistadas  são  pescadores,  marisqueiras  e  ex-pescadores.  Na  percepção  dos 
entrevistados, a profissão de pescador não é valorizada pela sociedade em razão de ser 
pouco  rentável,  não  oferecer  melhoria  das  condições  de  vida,  não  propiciar  acesso  a 
determinados  benefícios  sociais  básicos  e  por  não  haver  políticas  públicas  para  essa 
categoria.  Para  maior  parte  deles,  a  postura  inadequada  do  pescador  em  sociedade, 
resultante,  sobretudo,  do  uso  habitual  de  drogas  e  envolvimento  com  a  prostituição, 
também contribui para a desvalorização da profissão. 
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114 
 
 
Como  principais  dificuldades  da  profissão  de  pescador  foram  listados  o  perigo 
de  se  trabalhar  no  mar,  a  baixa  lucratividade  da  atividade,  a  imprevisibilidade  da 
produção, a escassez do pescado e os problemas de saúde resultantes desse ofício.  
A análise revelou, ainda, que no entendimento dos pais a pesca é uma atividade 
sofrida,  perigosa  e  pouco  rentável.  Por  essas  razões  e,  ainda,  por  não  vislumbrarem 
perspectivas  de futuro na área da pesca,  a maior parte deles  afirmou  não incentivar os 
filhos a ingressarem no curso. 
Na  concepção  dos  docentes  e  técnicos  administrativos  do  campus,  a  forma  de 
estruturação  do  curso  de  pesca  atende  uma  formação  mais  prática  do  que  acadêmica. 
Destacaram a falta de laboratórios e de alguns equipamentos básicos com os principais 
pontos  negativos  do  curso  e,  como  positivos,  a  titulação  elevada  da  maior  parte  dos 
docentes,  a  larga  experiência  destes  no  mercado  de  trabalho,  o  campus  novo,  a 
biblioteca, as boas salas de aula e os bons equipamentos de suporte aos professores. 
Quanto  aos  cursos  de  extensão,  evidenciou-se  que  dois  são  habitualmente 
ofertados quando há demanda: o de artesanato com resíduo do pescado e o curso POP, 
pescador profissional, que habilita o pescador a trabalhar de forma embarcada. 
Em relação ao mercado de trabalho, ficou evidenciado entre os entrevistados que 
apesar do amplo leque de possibilidades de inserção do técnico em pesca no mercado de 
trabalho, as oportunidades em Acaraú são reduzidas, sendo a mais concreta e imediata o 
trabalho  nas  indústrias  de  beneficiamento  de  pescado,  que  preferem  contratar 
empregados sem qualificação para explorá-los e pagar-lhes baixas remunerações.  
Para  quase  a  totalidade  dos  entrevistados  a  baixa  demanda  está  relacionada  à 
falta  de  informação  sobre  o  curso,  ou  seja,  há  um  entendimento  generalizado  e 
equivocado sobre a sua proposta e o tipo de profissional que este se propõe a formar.  
Quanto à divulgação do curso, a maior parte dos servidores entende que o curso 
é  divulgado,  fato  que  contrasta  com  a  análise  dos  dados  do  questionário,  os  quais 
revelam uma divulgação deficitária.  
Os  fatores  que  ensejam  a  baixa  demanda  são  múltiplos,  complexos  e  de  difícil 
solução.  Perpassam  desde  a  saturação  do  curso  e  a  ideia  equivocada  em  relação  à  sua 
proposta,  quanto  o  não  reconhecimento  social  e  a  marginalização  do  pescador,  o 
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115 
 
declínio  da atividade em razão da sobrepesca, o  perigo  e a baixa remuneração que ela 
proporciona,  e  a  predileção  dos  concluintes  do  ensino  médio  por  cursos  em  nível  de 
graduação. 
Muitos desses fatores não são exclusivos da região de Acaraú, mas um problema 
de  amplitude  mundial.  A  despeito  desse  fato,  ações  locais  e  pontuais  talvez  possam 
contribuir com a elevação da demanda, como uma divulgação mais eficaz do curso, tal 
como proposto no produto técnico apresentado. 
Por  mais  habilidoso  que  seja  o  servidor  da  Coordenação  de  Comunicação  e 
Eventos, a divulgação do curso não seria tão eficaz sem a permanente participação dos 
professores  nas  visitações  às  escolas.  Eles,  enquanto  detentores  do  conhecimento 
técnico,  são  as  pessoas  mais  indicadas  e  capazes  para  abordar  todas  as  questões 
inerentes ao curso ou a algum componente curricular específico. 
Ademais,  tanto  em  decorrência  do  problema  de  empregabilidade  da  região, 
quanto da forma superficial como  foi narrada a criação do campus e a implantação do 
curso,  evidencia-se  que  os  arranjos  produtivos  locais  não  foram  construídos.  Assim, 
necessário  se  faz  uma  interlocução  maior  entre  o  Instituto  e  os  empreendimentos 
privados vinculados à pesca, os órgãos de governo em todos os níveis e a comunidade. 
A  equipe  multidisciplinar  do  Instituto,  composta  por  pedagogos,  assistentes 
sociais,  enfermeiras  e  psicólogos,  na  companhia  dos  docentes,  podem  contribuir  com 
essa  aproximação,  especialmente  junto  à  comunidade  de  pescadores  e  marisqueiras, 
implementando ações de extensão destinadas a elevação da autoestima dessa categoria, 
estimulando-os  a  se  alfabetizarem;  às  boas  práticas  de  saúde  e  higiene;  aos  direitos 
básicos  do  cidadão  e  dos  pescadores  e,  principalmente,  incentivando  o 
empreendedorismo e formas de associativismo.  
 
 
 
 
 
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116 
 
REFERÊNCIAS 
ALLMARE ALIMENTOS. Disponível em: <http://www.allmarealimentos.com.br/pt/>  Acesso 
em 28 de Março de  2015. 
ARAÚJO, Nicodemos de. Cronologia da Cidade de Aracaú: 1700 – 1991. Fortaleza: Gráfica 
Stylus, 1991 
________. Município de Acaraú: notas para sua história. Fortaleza: Imprensa Oficial do Ceará, 
1971. 
ARAÚJO,  Rogério  César  Pereira  de;  FREITAS  Kelly  Silva  de; ALBUQUERQUE,  Robério 
Lopes de. Impactos socioeconômicos do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) 
sobre  os  pescadores  artesanais,  São  Gonçalo  do  Amarante-CE.
 In: CONGRESSO  DA 
SOCIEDADE  BRASILEIRA  DE  ECONOMIA,  ADMINISTRAÇÃO  E SOCIOLOGIA 
RURAL, 47, 2009, Porto Alegre. 
ARAÚJO,  Silvia  Cordeiro  de.  Pescando  Letras:  diálogos  interdisciplinares  entre  a  educação 
ambiental  e  a  alfabetização  de  jovens  e  adultos  no  contexto  da  pesca  artesanal.  2008. 
Dissertação  de  Mestrado.  Centro  de  Desenvolvimento  Sustentável.  Universidade  de  Brasília. 
Brasília, 2011. 
BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977. 
BENINCÁ, Ciomara Ribeiro Silva; GOMES, William B. Relatos de mães sobre transformações 
familiares em três gerações. Estudos de Psicologia, v. 3, n. 2, p. 177-205, 1998. Disponível em: 
< http://goo.gl/PnRoYW >. Acesso em: 03 fevereiro de 2015. 
BERKES,  F.  Sacred  Ecology:  tradicional  ecological  knowledge  and  resource  management. 
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o
inciso I, da Lei n
o
 10.683, de 2003, dispondo sobre a atuação conjunta dos Ministérios da 
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revoga a Lei no 7.679, de 23 de novembro de 1988, e dispositivos do Decreto-Lei nº 221, de 
28 
de 
fevereiro 
de 
1967, 
dá 
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121 
 
APÊNDICE A – Carta solicitando autorização para realização da pesquisa junto às 
Escolas Estaduais de Ensino Médio à CREDE – Coordenadoria Regional de Educação 
 
 
 
Prezada Coordenadora, 
 
Sou  servidora  do  IFCE,  campus  Acaraú,  e  aluna  do  Programa  de  Pós 
Graduação  da  Faculdade  de  Educação  da  Universidade  de  Brasília  –  UnB,  na 
área  de  concentração  “Políticas  Públicas  e  Gestão  da  Educação  Profissional  e 
Tecnológica” do Mestrado Profissional.  
Estou  realizando  uma  pesquisa  sob  a  orientação  do  Prof.  Dr.  Bernardo 
Kipnis, cujo objetivo é estudar a oferta e a demanda do Curso Técnico de Nível 
Médio  Subsequente  em  Pesca,  do  Instituto  Federal  de  Educação,  Ciência  e 
Tecnologia – IFCE. 
Gostaria de contar com a colaboração desta Coordenadoria no sentido de 
autorizar  e  conceder  acesso  a  esta  pesquisadora  junto  às  escolas  de  ensino 
médio de Acaraú e Distritos, para realizar a aplicação de questionário aos alunos 
do 3º ano do ensino médio (questionário anexo). 
Informo que a participação dos alunos é voluntária, que a identidade dos 
mesmos e as informações por eles prestadas são sigilosas.  
A  opinião  dos  estudantes  sobre  o  tema  contribuirá  bastante  para  a 
compreensão do assunto a ser estudado, razão pela qual, desde já, agradeço a 
sua  disposição  em  me  receber  e  sua  valiosa  contribuição  para  a  produção  e 
desenvolvimento do conhecimento científico. 
 
Quaisquer dúvidas relativas à pesquisa poderão ser esclarecidas pela 
pesquisadora, Juliane Vargas, fone: (88) 9740-9302 ou pela Coordenadora do 
Programa de Pós-Graduação em Educação – FE/UnB, do Mestrado Profissional, 
Prof. Dra. Olgamir Francisco de Carvalho, Fone: (61) 3107-6194. 
 
Atenciosamente, 
 
Acaraú, 05 de maio de 2015. 
 
Juliane Vargas 
 
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122 
 
 
APÊNDICE B – Termo de Consentimento Questionário Semiestruturado 
 
 
 
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123 
 
 
 
 
 
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124 
 
APÊNDICE C - Termo de Consentimento Entrevista 
 
 
 
 
 
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125 
 
 
 
 
 
 
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126 
 
APÊNDICE D – Instrumentos de Pesquisa (questionário e roteiros de entrevista) 
 
Universidade de Brasília – UnB 
Programa de Pós Graduação da Faculdade de Educação 
Políticas Públicas e Gestão da Educação Profissional e Tecnológica 
Mestrado Profissional 
 
Questionário – Alunos / Data de aplicação: 
 
Escola:  
Local:  
Período:  
Turma: 
Aluno(a): 
Sexo: (    ) F  (   ) M 
Endereço: 
E-mail: 
Fone:  
 
1. Depois de concluir o ensino médio, você pretende continuar os seus estudos? 
(      ) Sim          (      ) Não       (      ) Não sei 
 
2. Se você tivesse a oportunidade de escolher qualquer curso para seguir uma profissão, 
qual escolheria? 
Resposta: _____________________________________ 
 
3. Após concluir o ensino médio e se continuasse os estudos, qual seria a sua opção: 
(      ) Técnico Subsequente         (     ) Tecnólogo           (      ) Bacharelado           (      ) 
Licenciatura 
 
Justifique a resposta:   
____________________________________________________________________________ 
_____________________________________________________________________________ 
 
4. Você conhece o IFCE – Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará? 
(      ) Sim       (      ) Não 
 
5.  Atualmente  o  IFCE  oferta  4  Cursos  Técnicos  Subsequentes  de  Nível  Médio,  para 
aqueles  que  já  concluíram  o  ensino  médio.  Se  você  tivesse  que  escolher  entre  os  4,  qual 
você escolheria, em ordem de preferência? 
(Iniciando com 1 para a maior preferência) 
(      ) Aquicultura     (     ) Construção Naval     (      ) Pesca     (      ) Restaurante e Bar      
(      ) Nenhum 
 
6. Você conhece o Curso Técnico em Pesca do IFCE? 
(    ) Sim, com profundidade  (     ) Sim, razoavelmente  (     ) Não, mas já ouvi falar  (    ) Não, 
nunca ouvi falar 
 
 
7. Como chegou a conhecê-lo? Responda apenas se assinalou “sim” na questão anterior. 
(       ) Rádio       (       ) Internet     (       ) amigos ou parentes que estudam no IFCE    
(       ) Cartazes pela cidade (       ) visita de sua escola ao câmpus do IFCE   (       ) visita do 
IFCE na sua escola    (       ) outro meio 
 
Se respondeu “outro meio”, informe qual: 
____________________________________________________ 
 
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127 
 
8. Se você decidisse ingressar no Curso Técnico em Pesca do IFCE, seus pais 
incentivariam? 
(       ) Sim       (      ) Não          (     ) Seriam indiferentes    (      ) Não sei responder 
 
9. Alguém de sua família é pescador ou pescadora? 
(       ) Avôs e/ou Avós    (      ) Pai e/ou Mãe   (        ) Tios e/ou Tias   (       ) Irmãos e/ou Irmãs             
(       ) Primos e/ou Primas      (       ) Parentes mais distantes      (        ) Ninguém    
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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128 
 
Universidade de Brasília – UnB 
Programa de Pós Graduação da Faculdade de Educação 
Políticas Públicas e Gestão da Educação Profissional e Tecnológica 
Mestrado Profissional 
 
Roteiro de Entrevista – Genitores ou Responsáveis Legais dos alunos 
 
Nome: 
Relação de Parentesco: 
Data: 
Início: 
Término: 
Local: 
 Telefone e/ou e-mail: 
 
Orientações  gerais  iniciais:  agradecer  a  participação  do  entrevistado;  informar  o  motivo  da 
visita e a importância de sua participação; comunicar que o depoimento é confidencial; explicar 
o  conteúdo  do  TCLE  e  colher  assinatura;  informar  a  duração  máxima  esperada  da  entrevista 
(1h); pedir autorização para gravar. 
Orientações para depois da entrevista: perguntar se pode entrar em contato novamente para 
esclarecer alguma questão ou dúvida; agradecer novamente a participação.   
 
1. Sexo
(       ) Feminino            (       ) Masculino 
 
2. Escolaridade
(       ) não alfabetizado 
(       ) fundamental incompleto 
(       ) fundamental completo 
(       ) ensino médio incompleto 
(       ) ensino médio completo 
(       ) superior incompleto 
(       ) superior completo 
 
3. Qual a sua atividade profissional?   
 
4. Remuneração atual

(      ) nenhuma 
(      ) bolsa família 
(      ) menos de R$ 788,00  
(      ) R$ 788,00 
(      ) R$ 789,00 a R$ 1.200,00 
(      ) R$ 1.201,00 a R$ 2.000,00 
(      ) acima de R$ 2.000,00  
 
5. O sr(a) acha que a profissão de pescador é valorizada pela sociedade?  
 
6. Se o seu filho(a) decidisse ingressar no Curso Técnico em Pesca do IFCE, o sr(a) 
incentivaria?  
 
7. O sr(a) acha que a Pesca pode assegurar um bom futuro para o seu filho(a)? 
 
8. Se você pudesse escolher uma profissão para o seu filho(a), qual escolheria? 
8.a. Você incentivaria seu filho a ir para a Universidade? 
 
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129 
 
 
*** Continuar as perguntas abaixo com pescadores/marisqueiras 
 
9. Fale um pouco sobre a sua atividade de pescador. 
 
10. O sr(a) é Pescador Artesanal ou Pescador Industrial? 
 
11. O sr(a) trabalha de carteira de trabalho assinada? 
 
12. Na atividade pesqueira, quem lucra mais com produto da pesca? 
 
 
13. Quais são as maiores dificuldades ou pontos negativos da sua profissão? 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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130 
 
Universidade de Brasília – UnB 
Programa de Pós Graduação da Faculdade de Educação 
Políticas Públicas e Gestão da Educação Profissional e Tecnológica 
Mestrado Profissional 
 
Roteiro de Entrevista – Servidores do IFCE 
 
Nome: 
Cargo/Função: 
Data: 
Início: 
Término: 
Local: 
 
Orientações  gerais  iniciais
:  agradecer  a  participação  do  entrevistado;  informar  o  motivo  da 
visita e a importância de sua participação; comunicar que o depoimento é confidencial; explicar 
o  conteúdo  do  TCLE  e  colher  assinatura;  informar  a  duração  máxima  esperada  da  entrevista 
(1h); pedir autorização para gravar. 
 
Orientações para depois da entrevista: perguntar se pode entrar em contato novamente para 
esclarecer alguma questão ou dúvida; agradecer novamente a participação.   
 
1. Você acompanhou o processo de implantação do curso?
 
As questões de nº 2 a 6 somente para aqueles que afirmaram “sim”. 
2.  O  que  levou  o  IFCE  a  oferecer  o  Curso  Técnico  Subsequente  em  Pesca  e  quais  os 
critérios que subsidiaram essa decisão? 
 
3.  Houve  consulta  sobre  a  criação  do  curso  aos  diversos  setores  da  sociedade?  Se  sim, 
como foi esse processo? 
 
4. Como resultado dessa consulta foram firmados compromissos com o IFCE? Pode citar 
alguns? 
5. A comunidade opinou sobre curso em audiência pública? 
6. Poderia  citar  quais foram  as maiores facilidades  e  dificuldades encontradas  durante o 
processo de implantação? 
7.  Dados fornecidos  pela CCA  indicam  baixa  demanda  em  relação  ao  Curso  Técnico  em 
Pesca e que este está em último lugar no ranking de preferência dos candidatos aos cursos 
técnicos. Qual sua opinião sobre essa questão?  
8. A forma como o Curso Técnico em Pesca foi estruturado atende a uma formação mais 
técnica e prática ou segue uma perspectiva mais acadêmica? 
9.  Quais  são  as  demandas  do  setor  pesqueiro  local  e  da  região  que  podem  ser  atendidas 
por um técnico de nível médio em pesca?  
 
10. O IFCE já realizou ou realiza serviços de suporte à atividade pesqueira, como cursos 
de extensão? Você se lembra de alguns?
 
 
11.  Em  termos  de  estrutura  física  (salas  e  seus  componentes,  biblioteca,  laboratórios  e 
equipamentos)  e  corpo  docente  (titulação,  experiência  no  mercado  de  trabalho, 
capacitação pedagógica), relacione os aspectos positivos e negativos do curso. 
 12. Como é feita a divulgação dos cursos técnicos ofertados pelo IFCE, em especial o de 
Pesca? 
 
 
 
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Universidade de Brasília – UnB 
Programa de Pós Graduação da Faculdade de Educação 
Políticas Públicas e Gestão da Educação Profissional e Tecnológica 
Mestrado Profissional 
 
Roteiro de Entrevista – Servidor do MEC/SETEC  
 
Nome: 
Cargo/Função: 
Data: 
Início: 
Término: 
Local: 
 
Orientações  gerais  iniciais:  agradecer  a  participação  do  entrevistado;  informar  o  motivo  da 
visita e a importância de sua participação; comunicar que o depoimento é confidencial; explicar 
o  conteúdo  do  TCLE  e  colher  assinatura;  informar  a  duração  máxima  esperada  da  entrevista 
(1h); pedir autorização para gravar. 
Orientações para depois da entrevista: perguntar se pode entrar em contato novamente para 
esclarecer alguma questão ou dúvida; agradecer novamente a participação.   
1. Professor,  o  senhor esteve  à frente  da  Coordenação
 
Nacional  da Política de Formação 
Humana  na  Área  de  Pesca  Marinha  e  Continental  e  Aquicultura  Familiar,  Portos  e 
Navegação  da  Secretaria  de  Educação  Profissional  e  Tecnológica  do  Ministério  da 
Educação, em que período? 
2.  Quais  foram  e  quando  se  iniciaram  as  primeiras  intenções  governamentais  no  que  se 
refere ao planejamento e estruturação de uma política voltada à área da Pesca? 
3. Na sua opinião, quais foram as principais políticas públicas do MEC/SETEC voltadas à 
Política de Formação Humana na área da pesca? 
4. Quais são os principais eixos da Política de Formação Humana na área da pesca? 
5. Qual é o público alvo afetado por essas políticas? 
6.  Qual  é  o  papel  dos  institutos  federais  e  dos  núcleos  de  pesquisa  aplicados  à  Pesca  e 
Aquicultura - os chamados NUPAS - nesse contexto? 
 
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