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PAPER 123 - ARTES NAVAIS

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APONTAMENTOS PARA A HISTÓRIA  
DAS ARTES NAVAIS NO MARANHÃO  
 
LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ
1
 
Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão – Cadeira 40 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
Nos dias 09 e 10 de julho de 2008, realizou-se em São Luís do Maranhão 
a  reunião  de  constituição  do  Núcleo  de  Pesquisa  Aplicada  em  Aqüicultura  e 
Pesca  Nordeste  4  –  Maranhão  e  Piauí  -,  dentro  do  Programa  de  Política  de  
Formação  Humana  na  área  de  Pesca  Marinha  e  Continental  e  Aqüicultura 
Familiar da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da 
Educação
2
 
Dentro  da  programação  do  evento,  constou  uma  palestra  sobre  as 
“Embarcações  do  Maranhão  e  o  Projeto  Estaleiro-Escola”  e  uma  visita  ao 
Centro Vocacional Tecnológico Estaleiro-Escola do Maranhão
3
.   
 
O  Estaleiro-Escola  foi  inaugurado  em  15  de  dezembro  de  2006,  está 
ligado  à  Universidade  Virtual  do  Estado  do  Maranhão  – UNIVIMA.  Situado no 
Sítio  do  Tamancão,  às  margens  do  Rio  Bacanga,  em  prédio  do  século  XVIII, 
restaurado  através  de  um  cuidadoso  trabalho,  quando  foram  descobertas 
engrenagens de um antigo moinho de beneficiamento de arroz que funcionava 
no local através do movimento das marés - uma tecnologia bastante moderna 
já para a sua época.  
                                                           
1
  Professor  de  Educação  Física  do  Centro  Federal  de  Educação  Tecnológica  do  Maranhão;  Mestre  em 
Ciência da Informação; 
leopoldovaz@elo.com.br
 
2
 Para saber mais: 
http://web3.cefetcampos.br/aquicultura/noticias/nordeste-04-e-criado-no-maranhao
  
3
  ANDRES, Luiz Phelipe. Embarcações do Maranhão e o Projeto Estaleiro Escola. In 
http://web3.cefetcampos.br/aquicultura/eventos/eventos-de-julho/Microsoft%20Photo%20Editor%20-
%20convite%20pesca.pdf/view 
 
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Único no Brasil a trabalhar com técnica de construção naval artesanal, o 
Estaleiro  Escola  do  Maranhão  aproveitou  todo  o  conhecimento  existente  dos 
Mestres  Carpinteiros  que  estão  na  ativa  hoje  no  estado  e  lançou  o  Curso 
Técnico  de  Embarcações  Artesanais.  Através  desse  curso,  o  projeto  visa 
difundir a arte tradicional de construções de barcos para as próximas gerações.  
O  Curso  nasceu  em  virtude  das  más  condições  encontradas  para  o 
desenvolvimento  deste  tipo  de  atividade  no  Maranhão.  Hoje,  a  produção 
existente  ainda  acontece,  em  sua  maior  parte,  em  estaleiros  artesanais  que 
não dão condições de trabalho adequadas a estes profissionais.  
 
Com  o  conhecimento  técnico,  os  novos  profissionais  serão  capazes  de 
dominar  todas  as  etapas,  desde  a  construção  até  a  manutenção  das 
embarcações,  utilizando  conceitos  modernos  de  materiais  e  segurança.  No 
curso  são  ministradas  disciplinas  como:  ecologia,  materiais  e  geografia,  entre 
outras específicas da área de construção.  
 
O  Estaleiro-Escola  funciona  como  uma  unidade  de  ensino 
profissionalizante, e visa o resgate das técnicas de produção de embarcações 
tipicamente  maranhenses,  através  da  carpintaria  naval  tradicional.    Além  da 
promoção de cursos para a produção naval, o CVT Estaleiro Escola também já 
oferta  cursos  na  área  de  Informática,  Educação  Ambiental,  Turismo  e 
Eletrotécnica.   
 
O  acervo  existente,  adquirido  através  de  doações  dos  próprios 
profissionais ou por meio de seus familiares, possui um importante conjunto de 
ferramentas  utilizadas  durante  séculos  na  carpintaria  naval  do  estado.  Muitas 
delas  produzidas  pelos  próprios  artesãos,  as  peças  contam  com  detalhes  do 
desenvolvimento  e  o  envolvimento  do  povo  com  a  produção  de  barcos  em 
todas as regiões do Maranhão.  
 
Todo  este  material  faz  parte  das  exposições  no  Museu  de  Arte  Naval 
Maranhense que funciona dentro do prédio do Sítio Tamancão
4
.  
 
O  presente  artigo  tem  por  objetivo  contribuir  para  o  resgate  da  história 
da construção naval artesanal do Maranhão. 
 
 
                                                           
4
 
http://www.univima.ma.gov.br/ver_secao.php?session_id=127
  
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INDÍCIOS DO ENSINO DAS ARTES NAVAIS NO MARANHÃO 
  
O  ensino  técnico  em  Maranhão  inicia-se  com  a  chegada  dos  franceses, 
em 1613
5
. Dentre os homens para cá vindos, havia artesãos, pois segundo os 
interrogatórios  dos  prisioneiros  franceses,  feitos  pelos  portugueses  após  a 
batalha de Guaxenduba: “... o ferreiro Martin Hartier teria recebido 20 escudos, 
ou  seja,  60  libras,  para  se  equipar;  e  ao  trabalhador  Jean  Pache  teriam  sido 
prometidos 3 vinténs ao dia, ou seja, 4,5 libras ao mês
 ..." (PIANZOLA, 1992)
6
Desde  a  chegada  da  expedição  à  ilha  de  Sant'Ana,  decidira-se  que 
Rassily  com a  “Régent”  voltaria à  França,  para ir buscar e trazer socorro. Em 
dezembro  de  1612  empreende  a  viagem  de  regresso  e,  em  seu  relatório  e 
depois de descrever o país e seus habitantes, Rassily enumera aquilo de que a 
colônia mais precisa: mais padres e mais homens de guerra e artesãos, sendo 
os mais necessários, 
 “... os ferreiros, fabricantes de machados, de facas, de foices e de armas 
de  fogo,  carpinteiros,  pedreiros  e  fabricantes  de  tijolos,  lenhadores  e 
alguns camponeses da França, particularmente os de Dauphiné, além de 
escravos  da  Guiné  que  poderão  ser  trocados  no  Cabo  Verde  por 
mercadorias." (PIANZOLA, 1992) 
7
 
Ao  retornar  ao  Maranhão  em  1614,  já  sob  o  comando  do  Capitão  Du 
Pratz,  a  "Régent"  traz  cerca  de  300  tripulantes  e  passageiros,  dentre  eles, 
muitos mestres de ofícios - carpinteiros, serralheiros, sapateiros, tecelões, etc.; 
também dois astrólogos, De Manet e De Faus (MEIRELES, 1982) 
8
Mas  não  eram  sós  os  franceses  que  exerciam  algum  tipo  de  arte.  Os 
índios também haviam aprendido, conforme constata o Padre Yves D'Evreux:  
"Quanto às artes e aos ofícios, têm uma aptidão inigualável. Conheci um 
selvagem  do  Mearim,  apelidado  de  Ferreiro  [no  original,  Ferrador],  por 
causa do ofício que exercia entre eles, que, tendo visto outrora um ferreiro 
                                                           
5
 VAZ, Leopoldo Gil Dulcio; VAZ, Delzuite Dantas Brito; VAZ, Loreta Brito. INDÍCIOS DE ENSINO 
TECNICO/PROFISSIONAL  NO  MARANHÃO:  1612  –  1916.  II  JORNADA  NACIONAL  DA 
PRODUÇÃO  CIENTÍFICA  EM  EDUCAÇÃO  PROFISSIONAL  E  TECNOLÓGICA  São  Luís  - 
Maranhão,  04  a  06  de  dezembro  de  2007,  in  REVISTA  “NOVA  ATENAS”  DE  EDUCAÇÃO 
TECNOLÓGICA
,  São  Luís,  Volume  10,  Número  02,  jul/dez/2007  –  Suplemento,  (Disponibilizado  em 
Fevereiro de 2008), disponível em 
www.cefet-ma.br/revista
 ; 
6
 PIANZOLA, Maurice. OS PAPAGAIOS AMARELOS: os franceses na conquista do Brasil. São Luís: 
Secretaria da Cultura do Estado do Maranhão: Alhambra, 1992, p. 4 
7
 Pianzola, obra citada, p. 172 
8
  MEIRELES,  Mário  Martins.  FRANÇA  EQUINOCIAL.  2  ed.  São  Luís  :  Secretaria  de  Cultura  do 
Maranhão; Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1982, p.87 
 
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francês  trabalhar,  sem  que  este  operário  tenha  se  dado  ao  trabalho  de 
nada lhe mostrar, conhecia tão bem o ritmo para bater seu martelo com os 
outros numa barra de ferro quente como se tivesse longamente aprendido. 
No entanto, aprender a música dos martelos na bigorna do ferreiro é coisa 
que os do ofício sabem que é preciso tempo para aprender. Este mesmo 
selvagem,  estando  nessas  terras  perdidas  do  Mearim  com  seus 
companheiros,  sem  bigorna,  martelo,  limas,  torno,  trabalhava,  entretanto 
muito corretamente, fazendo ferros para flechas, arpões e anzóis de pegar 
peixes.  Apanhava  uma  grande  pedra  dura,  no  lugar  da  bigorna,  e  uma 
outra,  de  qualidade  média,  para  lhe  servir  de  martelo,  depois,  fazendo 
esquentar  seu  ferro  no  fogo,  dava-lhe  a  forma  que  lhe  aprazia". 
(PIANZOLA, 1992, grifos meus) 
9
 
Em seu “Viagem ao Norte do Brasil feita nos anos de 1613 a 1614”, Ives 
D’Evreux diz ser fácil civilizar os selvagens à maneira dos franceses e ensinar-
lhes  os  ofícios  que  havia  em  França.  Após  descrever  as  habilidades  do 
Ferrador,  índio  do  Mearim,  afirmando  que  exerciam  outros  ofícios,  além  de 
ferreiro: tanoeiro, carpinteiro, marceneiro, cordoeiro, alfaiate, sapateiro, tecelão, 
oleiro, ladrilhador e agricultor:  
“Para  todos  esses  ofícios  são  aptos  e  inclinados  por  natureza.  “Para  o 
ferreiro  ou  de  ferrador  já  referimos  um  exemplo.  “Quanto  ao  ofício  de 
tecelão,  seria  a  sua  especialidade  se  aprendessem:  tecem  seus  leitos 
muito bem, trabalham em lã tão perfeitamente como os franceses, embora 
não  empreguem  a  lançadeira  e  nem  a  agulha  de  ferro,  e  sim  pequenos 
espinhos.” 
10
           
Quando  Alexandre  de  Moura  relaciona  os  bens  que  tomou  aos 
franceses, descrito no Auto de posse que se tomou da fortaleza, no dia 04 de 
novembro  de  1615,  dentre  esses  bens  constam  "duas  serralherias 
aparelhadas
" (PIANZOLA, 1992) 
11
. Das ordens dadas por Alexandre de Moura 
a Jerônimo de Albuquerque, consta a construção de uma cidade - São Luís - 
no entorno do Forte de São Felipe: 
 “...  deverá  restaurar  e  aumentar  a  fortaleza  segundo  as  plantas  do 
engenheiro  Frias.  Fabricará  a  cal  necessária,  mandando  que  os  seis 
pedreiros de que dispõe queimem as conchas de ostras que se encontram 
em abundância  nessas  praias.  Com os ferreiros e serralheiros que lá se 
encontram, tomará conta das duas forjas e das ferramentas, foles, tornos, 
limas e outras coisas. Ocupar-se-á também dos fornos nos quais mandará 
cozer as telhas para cobrir as casas da cidade e do forte... Dispõe também 
                                                           
9
 Pianzola, obra citada, p. 160 
10
 EVREUX, Yves D’. VIAGEM AO NORTE DO BRASIL feita nos anos de 1613 a 1614. São Paulo: 
Siciliano, 2002, p. 117 
11
 Pianzola, obra citada, p. 260 
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de  carpinteiros  que,  de  logo,  consertarão  os  suportes  dos  canhões. 
Mandará  concluir  a  construção  do  barco  que  se  encontra  no  estaleiro  e 
mandará tecer as velas de algodão em grande quantidade...” (PIANZOLA, 
1992, grifos
 meus) 
12
 
Os  jesuítas  possuíam,  em  frente  à  aldeia  de  Mandacaru,  a  fazenda  de 
São Bonifácio,  com  quatro  engenhos de cana, oito alambiques, casa de fazer 
farinha  com  duas  rodas  de  ralar  mandioca,  oficinas  de  tecelão,  carpintaria, 
serraria  e  ferraria,  e  a  casa  de  canoas,  aonde  chegaram  a  construir  um 
bargantim de quarenta e quatro palmos
13
.  
Nesta  fazenda  cultivavam-se  cana,  café,  cacau,  mandioca,  laranja  e 
pacova. Os jesuítas possuíam, ainda, nas terras de São Marcos, uma olaria, da 
qual  se  vendia  telhas  a  8$000  o  milheiro  posto  em  casa.  Quem  eram  os 
operários?  Os  índios,  aldeados  pelos  jesuítas?  Quem  os  ensinou  os  ofícios? 
Os próprios jesuítas, que tinham operários em suas fileiras?  
Sabe-se  que  os  "índios  públicos"  -  os  aldeados,  assim  chamados  para 
distingui-los  dos  índios  não  aldeados,  que  viviam  em  suas  aldeias  naturais  - 
eram mais procurados para o trabalho, não só nas roças de trigo, mandioca e 
milho.  Transporte  do  sertão,  equipagem  de  remadores  nos  rios  e  na  orla 
marítima,  pesca  e  caça  para  ração  da  tropa,  criação  de  gado  nas  fazendas 
jesuíticas  e  particulares,  corte  e  preparo  de  madeiras,  serviços  em  olarias  e 
teares,  alvenaria  nos  fortins,  paliçadas,  casas,  barracos,  abertura  e  conserva 
de caminhos, fabrico de barcos, estiva e trabalho nas embarcações, tudo isso e 
mais alguma coisa cabia em geral aos índios públicos
14
Para Alencastro (2000) 
15
, faz falta um estudo sistemático dessas diversas 
atividades e, em particular, da construção naval, pois:  
"...  em  tempos  de  piratas,  corsários  e  batalhas  marítimas,  o  trabalho 
indígena ajudou a recompor as frotas. Ao lado da indústria canoeira havia 
uma  construção  naval  de  porte  fornecendo  embarcações  para  o  tráfico 
atlântico de africanos (...)  
“Boa  parte  do  corte,  transporte  e  preparo  do  madeirame,  da  carpintaria, 
cordagem,  mastreação  e  velame  produzidos  nessas  diversas  oficinas 
                                                           
12
 Pianzola, obra citada, p. 265 
13
 MEIRELES, Mário Martins. DEZ ESTUDOS HISTÓRICOS. São Luís: Alumar, 1995. 
    ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O TRATO DOS VIVENTES: formação do Brasil no Atlântico sul. 
São Paulo: Companhia das Letras, 2000 
14
 Alencastro, obra citada, p. 195-196 
15
 Alencastro, obra citada, p. 196-197 
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navais  repousavam  sobre  o  trabalho  dos  índios  públicos.  Gente 
escravizada em virtude do quinto régio ou concentrada nos aldeamentos”.
  
 
Esse  trabalho  indígena  tinha  salvaguarda  em  nova  lei,  esta  de  1655, 
sobre  os  indígenas  do  Estado  do  Maranhão,  quase  toda  redigida  pelo  padre 
Vieira,  pois  tanto  a  Mesa  de  Consciência  como  os  inacianos,  então,  já 
reconheciam a legitimidade do uso de índio no serviço régio.  
RENÔR  (1989) 
16
,  ao  divulgar  alguns  documentos  raros  da  história  do 
Maranhão,  acerca  da  “missão  secreta  do  desembargador  Gama  Pinto  ao 
Maranhão”,  feita  no  ano  de  1723,  investigando  sobre  o  cativeiro  dos  índios, 
apresenta-nos, dentre as testemunhas arroladas para depor diante do Ouvidor 
Sindicante, identifica alguns oficiais artesãos: 
“TESTEMUNHA 97- Simão Ferreira, oficial de sapateiro...; 
“TESTEMUNHA 98 – Manoel Nogueira Selaves, oficial de ourives...; 
“TESTEMUNHA 100 – Sebastião Souza, oficial de sapateiro...; 
“TESTEMUNHA 101 – Manoel Ferreira de Carvalho, oficial de ourives...; 
“TESTEMUNHA 103 - Manoel de Farias Ferreira, oficial de carpinteiro
...”.  
 
Em 1751, Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal, é nomeado 
Capitão General da Amazônia (Estado do Grão Pará e Maranhão) e, vindo de 
Lisboa,  aportou  em  São  Luís  na  sua  passagem  para  Belém.  Convoca  uma 
Junta  das  Missões,  em  29  de  agosto  daquele  ano,  em  que  fixa  o  salário  dos 
índios:  
“Aos vinte e nove dias do mês de agosto de mil e setecentos e cinqüenta e 
hum anos nesta cidade de São Luís do Maranhão no Palácio da residência 
do  Governo  em  que  se  acham  o  Ilmo.  e  Exmo.  Governador  e  Capitão 
General  do  Estado  Francisco  Xavier  de  Mendonça  Furtado  e  o  Sr. 
Governador da Capitania Luís de Vasconcelos Lobo foram convocados os 
Reverendos  Deputados  da  junta  abaixo assinados e  na  falta  do  exmo. E 
Revmo. Bispo assistiu o seu Dr. Provisor e Vigário Geral João Rodrigues 
Covette, e logo foi lida uma provisão de Sua Majestade expedida pelo sei 
Conselho Ultramarino de vinte e quatro de maio do presente ano pela qual 
ordena  o mesmo Senhor se arbitre o salário que deverão levar os índios 
DAQUI  POR  DIANTE,  e  se  assentou  por  pluralidade  de  votos  que  os 
índios  que  se  dão  de  serviço  ordinário  devem  receber  DAQUI  POR 
DIANTE  em  cada  um  mês  quatrocentos  réis  e  os  ofícios  das  canos  a 
saber, Pilotos que venciam até o presente a quatro varas (de pano) que se 
quitam  quatro  tostões,  e  os  proeiros,  que  venciam  três  varas  que  se 
reputam três tostões, devem vencer daqui em diante mais a terça parte; e 
                                                           
16
  RENÔR,  João.  “Missão  secreta  do  desembargador  Gama  Pinto  ao  Maranhão  –  tópicos  do  relatório 
sobre  o  cativeiro  dos  índios.  In  “O  ESTADO  DO  MARANHÃO,  São  Luís,  20  de  agosto  de  1989, 
Domingo, p. 17. Caderno Alternativo. (Documentos da História do Maranhão – IX). 2
ª
 Parte. 
 
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que se qualquer destes índios adoecer deve ser curado à custa de quem 
os  tiver,  mas  não  vencerão  ordenado  no  tempo  da  doença,  e  os  oficiais 
dos ofícios mecânicos se lhes pagará a sessenta réis POR DIA e decomer, 
e  à  seco  a  cem  réis,  e  assim  se  requereu  ao  reverendo  Padre  pio  do 
Carmo se fizesse um livro de matrículas em que se assentassem todos os 
índios alforriados para o Senhor Governador os mandar repartir por quem 
mais  necessitar.  E  como  assim  se  assentou  fiz  este  Termo  que  todos 
assinam. E eu João Antônio Pinto da Sylva Secretário do Estado por sua 
majestade o escrevi”.(ASSINAM) “FRANCISCO XAVIER DE MENDONÇA 
FURTADO  /  LUÍS  DE  VASCONCELLOS  LOBO  /    JOÃO  RODRIGUES 
COVETT /  FR. IZIDORO DE SANTO ESTEVÃO / MENDES DE AZEVEDO 
/ Fr. ANTÔNIO DE FARIA / IGNÁCIO XAVIER / MANOEL LUÍS PEREIRA 
DE MELLO”. (JOÃO RENÔR, 1990)
17
.    
 
Comenta  João  Renôr  que  fica,  por  esse  Termo,  esclarecido  que  o 
regime de trabalho assalariado entre os índios do Maranhão foi introduzido por 
Xavier  de  Mendonça  Furtado.  O  antigo  sistema  de  remuneração  não  era 
definido  e  não  havia  salário  em  dinheiro.  Pagavam-se  os  salários  dos 
carpinteiros, dos índios e de todos os tipos de artesãos em peças de pano. A 
equivalência monetária era com varas de pano de algodão e a unidade “vara” 
correspondia  a  um  tostão.  A  partir  da  ordem  de  Mendonça  Furtado  todos 
passam  a  receber  salários  ou  por  mês  ou  por  dia.  Renôr  esclarece  ainda  os 
vários  ofícios  exercidos  pelos  índios–  e os  respectivos  salários: os  de  serviço 
ordinários  eram  os sem qualificação  profissional  e recebiam a  quantia  de  400 
réis por mês. Os índios especializados eram Pilotos que operavam nos “Ofícios 
das  Canoas”  recebiam  quatro  tostões  por  mês  correspondendo  ao  velho 
pagamento de quatro varas de pano; os proeiros passaram a receber a quantia 
de três tostões por mês, correspondendo ao valor de três varas e uma terça de 
pano;  e  os  oficiais  mecânicos  (artesãos)  que  na  época  eram  chamados  por 
“Oficiais dos Ofícios Mecânicos” eram diaristas  na  razão  de  sessenta réis por 
dia e o “decomer” (a bóia) por conta do patrão. Se o referido Oficial Mecânico 
quisesse trabalhar “à seco” (sem a bóia do patrão) recebia por dia de serviço a 
quantia de cem réis. 
                                                           
17
  RENÔR,  João.  Mendonça  Furtado  e  os  salários  dos  índios  do  Maranhão.  In  “O  ESTADO  DO 
MARANHÃO, São Luís, 29 de abril de 1990, Domingo, p. 16. Caderno Alternativo. (Documentos raros 
da História do Maranhão XXXII).
 
 
background image
 
SILVA  (2001) 
18
  nos  traz  que  as  primeiras  referências  documentadas 
que falam da importação de africanos no século XVI. Em carta, o padre Manoel 
de  Nóbrega  pede  ao  Rei  o  resgate  de  alguns  escravos  da  Guiné  para  “fazer 
mantimentos,  pescar  e  todos  os  serviços  gerais  do  colégio  da  Bahia”. 
Habitavam a Guiné numerosas etnias, como os Balante, os Jooba (Diola), e os 
Flup (Felup), povos rizicultores que viviam em comunidades rurais autônomas. 
Uma outra etnia que habitava essa região, os Bijago, eram hábeis construtores 
navais;  suas  embarcações  tinham  capacidade  para  transportar  de  90  a  120 
pessoas.  
COSTA  EDUARDO  (1848;  1951,  citado  por  FERRETI,  2001) 
19
apresenta  São  Luís,  Codó  e  Caxias  como  locais  de  maior  concentração  da 
escravidão  negra  no  Maranhão  e  que  só  foram  comprados  a  partir  de  1761, 
duzentos  anos  depois  de  outras  partes  do  Brasil  o  que  é  contestado  por 
Meireles  (1980) 
20
,  pois  o  Maranhão experimentou  quatro a  cinco décadas de 
prosperidade  econômica  –  do  final  do  século  XVIII  ate  á  a  década  de  20  do 
século XIX. Não se sabe quantos vieram da África e quantos foram comprados 
na  Bahia.  Sabe-se  que  até  1821  o  Maranhão  recebeu  grande  número  de 
escravos  e  que  este  número  continuou  crescendo  depois  da  proibição  do 
tráfico (1831), devido à existência de contrabando.  
Há  a  confirmação  de  que  o  crescimento  da  concorrência  aos  artistas 
tinha  raízes  sociais  no  declínio  da  escravidão,  com  a  habilitação  de  escravos 
urbanos e domésticos para os ofícios liberais como os de rendeira, costureira e 
alfaiates  e  os  de  pedreiro,  sapateiro  e  carpinteiro.  Os  artistas  liberais  e 
mecânicos ficaram circundados pelo consórcio da concorrência do mercado de 
trabalho (CORRÊA, 1986) 
21
                                                           
18
 SILVA, Carmelinda R. Africanos brasileiros: Brasil, século XVI. In SIMPÓSIO INTERNACIONAL 
PROCESSO CICILIZADOR – História, educação e cultura. COLETÂNEAS..., Assis-SP, UNESP, 12 a 
14 de novembro de 2001, p. 229-237  
19
  FERRETI,  Mundicarmo.  ENCANTARIA  DE  “BARBA  SOEIRA”-  Codó,  capital  da  magia  negra? 
São Paulo: Siciliano, 2001, p. 67; 83 
20
  MEIRELES,  Mário  Martins.  HISTÓRIA  DO  MARANHÃO.  São  Luís:  Fundação  Cultural  do 
Maranhão, 1980, p. 83; 
21
 CORRÊA, Rossini, FORMAÇÃO SOCIAL DO NORDESTE. São Luís: SIOGE, 1986, p. 77 
 
background image
 
Segundo MARQUES (1870) 
22
, já decorridos mais de um século após o 
descobrimento  do  Maranhão,  o  Senado  da  Câmara,  em  18  de  abril  de  1711 
representou ao governador e Capitão-General do Estado dizendo:  
“... que como só havia quatro oficiais de sapateiros de tenda aberta, três de 
ferreiros,  dois  armeiros,  cinco  alfaiates,  cinco  carpinteiros,  dois  pedreiros 
sendo um já velho, e só um calafate, eram poucos já para as necessidades 
da terra, e como havia alguns soldados, mestres destes ofícios e peritos, 
segundo mostravam as suas obras, lhe pedia que mandasse dar baixa aos 
ditos  soldados  para  trabalharem  efetivamente  nesta  cidade,  e  não  o 
fazendo seriam de novo chamados à praça". (grifos meus). 
 
 
O ARSENAL DE MARINHA   
 
Através da Carta Régia de 16 de outubro de 1798, o governo português 
criou  o  Arsenal  de  Marinha  para  dar  sustentação  às  ações  mercantis  e  apoio 
logístico à Real Armada Portuguesa. Fruto da política de fomento mercantilista 
do  Marquês  de  Pombal,  no  final  do  século  XVIII,  a  capitania  do  Maranhão 
atingiu  um  grande  desenvolvimento  econômico  em  razão  da  produção  de 
algodão  e arroz.  A prosperidade do Maranhão  exigiu a presença de ações do 
governo do Império Colonial Português para impulsionar e organizar as forças 
produtivas e fiscalizar os procedimentos comerciais para que os excedentes da 
produção se direcionassem somente para a Metrópole. Daí, a criação de uma 
Armada  Real,  e  dos  Arsenais  de  Marinha  para  dar  apoio  logístico  à  mesma 
(LEANDRO, 2002) 
23
.  
  
O Arsenal de Marinha foi durante mais de quatro décadas um Centro de 
Profissionalização  direcionada  ao  trabalho  marítimo  no  Maranhão,  pois  as 
relações mercantis se desenvolviam pelo mar e pelos rios, estes eram as vias 
navegáveis  que  mantinham  o  elo  entre  o  interior  da  província  e  o  litoral.  O 
arsenal,  além  de  formar  a  mão-de-obra  para  esse  trabalho  e  quadros  para  a 
Armada,  fazia  concertos  de  navios  em  suas  oficinas,  bem  como  barcos  e 
outros meios de transporte flutuantes.  
                                                           
22
  MARQUES, César Augusto. DICIONÁRIO HISTÓRICO-GEOGRÁFICO DA PROVÍNCIA DO 
MARANHÃO. Maranhão : Tip. do Fria, 1870. (reedição de 1970), p. 400 
23
 LEANDRO, Eulálio de Oliveira. A MARINHA E AS CAMADAS POPULARES NO MARANHÃO 
– 1822-1871. Imperatriz-Ma: Ética, 2002 
 
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10 
Segundo  LEANDRO  (2002),  o  trabalho  marítimo  absorvia  um 
considerável  número  de  trabalhadores  e  escravos  de  forma  direta  e  indireta, 
todos  como  características  bem  distintas,  conforme  se  observa  no  quadro 
abaixo.  
“Mappa  demonstrativo  dos  jornais  (diárias)  que  devem  receber  os 
operários  das  diversas  officinas  do  arsenal  da  Marinha  em  classes  para 
cada uma das mesmas officinas, à excepção dos empregados do troco, e 
das velas que sómente se dividem em quatro classes”: 
                                                                          (continua) 
OFFICINAS 
CLASSES 
JORNADAS EM RÉIS 
Carpinteiros de Machado 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
1$200 
1$000 
$800 
$640 
$480 
$240 
Calafate 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
1$200 
1$000 
$800 
$640 
$480 
$240 
Ferreiros 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
1$000 
$800 
$640 
$480 
$400 
$320 
Tanoeiros 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
$800 
$640 
$480 
$400 
$320 
$240 
Correeiros 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
$800 
$640 
$480 
$400 
$320 
$240 
Pedreiros 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
$960 
$800 
$640 
$480 
$320 
$240 
Cavouqueiros 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
$600 
$560 
$480 
$400 
$320 
$240 
 
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11 
 
 
 
 
Carpinteiros de obra branca 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
1$000 
$800 
$640 
$480 
$320 
$240 
Polieiros 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
$960 
$800 
$600 
$400 
$320 
$240 
Fundidores 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
1$000 
$800 
$640 
$480 
$320 
$240 
Funileiros 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
$800 
$640 
$480 
$400 
$320 
$240 
Pintores 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
1$000 
$800 
$640 
$480 
$320 
$240 
Bandeireiros 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
$800 
$640 
$480 
$400 
$320 
$240 
Canteiros 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
5
ª
 
6
ª
 
$800 
$640 
$480 
$400 
$320 
$240 
Casa das velas e troco 
1
ª
 
2
ª
 
3
ª
 
4
ª
 
$560 
$480 
$400 
$320 
Fonte: Secretaria de Estado, 17 de setembro de 1828 – Joaquim Francisco Leal, 
citado por LEANDRO, 2002, p. 120. 
 
Dentre  esses  trabalhadores  havia  operários  estratégicos  para  a 
segurança  do  Estado:  carpinteiros  e  calafates.  Esses  trabalhadores,  mesmo 
atuando  no  setor  privado,  tinham  a  obrigação  de  informar  onde  estavam 
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12 
exercendo  suas  funções,  pois  caso  houvesse  necessidade,  deveriam  se 
apresentar para servir nos navios da Armada. 
Os  carpinteiros  e  calafates  eram  os  operários  que  embarcavam  nos 
navios  da  Armada,  e  o  arsenal  formava  operários  nas  diversas  categorias 
profissionais,  inclusive  criando  companhias  de  operários  formadas  por  índios. 
Sendo  um  centro  de  formação  profissional  tinha  como  preparar  os  gentios 
ensinando-lhes uma profissão, promissora à época (LEANDRO, 2002). 
Por  ser  uma  indústria  naval  estratégica  para  o  império  português,  o 
arsenal  apresentou  dificuldades  durante  sua  implantação  na  colônia,  por  não 
haver  quadros  de  profissionais  de  alto  nível.  Por  isso  não  apresentou 
resultados  nos  primeiros  anos  de  sua  implantação,  sendo  alvo  de  severas 
críticas por não atingir seus propósitos, conforme registra MARQUES (1970) 
24
quando  da  construção  de  um  bargantin,  apelidado  pela  população  de 
“pacamão”.  
Com  a  emancipação  política  do  Brasil,  a  Marinha  brasileira  herdou  os 
arsenais da Marinha portuguesa, mantendo as mesmas funções, acrescidas de 
outras  responsabilidades,  como  dar  apoio  logístico  aos  navios  da  Armada 
estacionados na província do Maranhão e formar, nas suas oficinas, a elite de 
profissionais da Marinha à vela. LEANDRO (2002) 
25
 não fala sobre a iniciação 
profissional  de  aprendizes  menores  no  Arsenal  de  Marinha  do  Maranhão.  No 
entanto, o Decreto no. 2.583, de 30 de abril de 1860, disciplina o ingresso de 
menores  como  aprendizes  de  artífices  nos  arsenais  da  Marinha,  conforme 
informa o próprio Leandro.  
Com a criação da Escola de Máquinas da Marinha, e de acordo com o 
Decreto  no.  252,  de  03  de  março  de  1860,  a  instituição  recebia  menores 
egressos, com formação, das oficinas dos Arsenais:  
“O aprendiz de artífice abriu novas perspectivas de ascenção profissional e 
atendeu o mercado de trabalho que se vislumbrava na Segunda metade do 
século  XIX.  Os  alunos  formados  pela  Escola  de  Máquina  tinham  que 
assumir  compromisso  com  a  Marinha  por  cinco  anos.  Se  não  fossem 
absorvidos  pela  Marinha  de  Guerra  o  seriam  pela  Marinha  Mercante  e 
outros  “Nesse  período,  Marinha  e  o  Exército demonstraram  preocupação 
                                                           
24
 Marques, obra citada 
25
 Leandro, 2002, p. 45 
 
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13 
com  os  menores.  Tanto  a  Marinha  como  o  Exército  davam-lhes 
assistência.  Os  arsenais  de  Marinha  eram  mais  técnicos  e  davam  aos 
menores  mais  oportunidades  depois  de  sua  formação  profissional.”. 
(LEANDRO, 2002)
26
 
Ressalta  Leandro  (2002)  que  o  curso  de  máquinas  era  oferecido  pela 
Marinha para os menores no momento em que o Brasil era um país meramente 
produtor de matérias-primas. Isto colocava a Marinha em destaque, como uma 
instituição  moderna  do  Império  que  estava  transformando  os  menores 
abandonados  e  carentes  em  profissionais  engajados  na  política  de 
modernização da Marinha e consequentemente no meio social.  Eram instados 
a  se  engajar  na  Marinha  todo um segmento social marginalizado do processo 
sócio-econômico:  menores  abandonados,  filhos  de  pais  sem  ofício  nem 
ocupação,  e  pessoas  que  se  encontravam  em  cadeias  públicas.  A  Marinha 
precisava desse segmento socialmente marginalizado.  
Com  o  fim  da  Marinha  a  vela,  e  com  os  novos  navios  de  ferro, 
comprados  no  exterior  (Inglaterra,  França  e  Estados  Unidos),  inicia-se  um 
processo  de  modernização  da  Armada,  exigindo  homens  mais  qualificados  e 
instruídos  para  operarem  os  novos  navios  de  guerra.  Criam-se  escolas  para 
formar esse pessoal qualificado, sendo a primeira - fora da Corte -, a Escola de 
Aprendizes  de  Marinheiros  do  Pará,  que  serviu  de  referencia  para  as  demais 
instaladas em outras Províncias.  
De  acordo  com  o  Decreto  no.  1.517,  de  04  de  janeiro  de  1855,  e  seu 
Regulamento,  os  menores  pobres  de  10  a  17  anos,  provenientes  de  famílias 
pobres e outros que não tinham lar, entregues à caridade pública, podiam ser 
encaminhados  para  as  Companhias  de  Aprendizes  Marinheiros  por  um 
representante  legal  -  juiz  de  órfãos,  tutores  ou  mesmo  os  pais.  Após  a 
matrícula, tinham assegurado a educação – instrução primária, instrução militar 
e  formação profissional –; assistência médica; fardamento; alimentação sadia; 
moradia;  salário  (soldo);  pecúlio;  e  os  seus  pais  ou  responsáveis  legais 
recebiam uma gratificação de cem mil réis. Os menores estudavam português, 
matemática,  geografia,  participavam  das  cerimônias  cívicas  e  militares  da 
província  e  tinham  como  professor  um  capelão.  Depois  de  concluir  sua 
                                                           
26
 Leandro, obra citada, p. 46 
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14 
preparação  inicial,  os  menores  seguiam  para  a  Corte  para  concluir  sua 
formação militar e profissional (náutica) 
27
.  
Em  1861,  a  Marinha  cria  na  Província  do  Maranhão  a  Companhia  de 
Aprendizes Marinheiros.  Informa MARQUES (1970)
28
 “Companhia de Aprendizes Marinheiros foi criada pelo Decreto no. 2.725, 
de  12  de  janeiro  de  1861,  quando  Ministro  da  Marinha  o  Conselheiro 
Francisco  Xavier  Pais  Barreto...  “Foi  comandada  pelo  1
º
  Tenente  da 
Armada, José Francisco Pinto, imediatamente subordinada ao Capitão do 
Porto...  “O  seu  pessoal  é  de  218  praças,  a  saber,  um  comissário,  um 
escrivão,  um  contramestre,  dois  guardiões,  um  mestre  de  armas,  oito 
marinheiros  de  classe  superior,  e  duzentos  aprendizes,  sujeitos  às 
disposições do Regulamento que acompanhou o Decreto no, 2003, de 24 
de outubro de 1857... “Compõe-se de duas divisões, a primeira organizada 
a  23  de  abril  de  1861,  e  acha-se  aquartelada  em  um  dos  edifícios  do 
extinto  Arsenal  da  Marinha  da  Província,  contando,  presentemente,  com 
um  comandante,  um  imediato,  um  comissário,  um  escrivão,  um  mestre, 
dois guardiões, um mestre de armas, um imperial de primeira classe e 89 
aprendizes; ao todo, 98 praças... “O seu fim é preparar os jovens que nela 
são  alistados,  com  aqueles  princípios  da  mortalidade  subordinada, 
disciplina e instrução, que devem possuir os praças do corpo de imperiais 
marinheiros, de que se compõe a marujada dos nossos vasos de guerra. 
“Ali aprende-se a ler, escrever, riscar mapas e a doutrina cristã; exercitar-
se  arte  de  marinheiros,  naquilo  que  é  compatível  com  a  sua  formação... 
“Instruir-se do exercício da infantaria até à Escola de Pelotão, no manejo 
de  armas  brancas  e  no  jogo  da  artilharia  naval...”.  (MARQUES,  1970; 
LEANDRO, 2002) 
 
Em  “O  ARTISTA”–  jornal  principalmente  dedicado  às  artes  mecânicas, 
surgido  em  maio  de  1862,  seus  editores,  a  partir  de  um  opúsculo  francês, 
definem:  
“ARTE –  (por  sua  etymologia  significa  –  virtude, força). Tomada em toda 
sua extensão, esta palavra que se opõem à sciencia pura é o complexo de 
processos  pelas  quais  o  homem  consegue  produzir  qualquer  obra,  quer 
seja com o fim de assegurar sua conservação e seu bem estar físico, quer 
seja  para  fazer  nascer  algum  gozo  intelectual  ou  moral;  donde  a  grande 
divisão das artes em úteis ou mecânicas e em liberais... 
 “As  artes  mecânicas  que  reclamam  o  trabalho  manual  ou  o  auxílio  de 
machinas  têm  por  fim  ou  explorar  a  natureza,  como  a  agricultura,  ou 
transformarmal-a,  o  que  dá  nascimento  às  artes  industriais  ou 
manufatureiras,  que  se  dividem  ao  infinito  segundo  os  processos  que 
empregam ou as necessidades que tenham a satisfazer. 
 “As artes liberais, frutos da imaginação, ou se dirigem ao espírito, donde 
as bellas lettras, ou aos sentidos ao mesmo tempo que ao espírito, donde 
as  bellas-artes.  Os  antigos  admitião    sete  artes  liberais:  Grammática, 
Rhetórica, Philosophia, Arithmética, Geometria, Astronomia e Música. 
                                                           
27
 Leandro, obra citada,  p. 48). 
28
 Marques, obra citada; Leandro, obra citada, p. 50-51 
background image
 
15 
 “Os processos particulares empregados nas diversas artes são objeto de 
uma sciencia especial, de origem moderna, a Technologia... 
 “As  artes  mecânicas  acham  em  França  poderoso  auxílio  em  diversas 
instituições,  principalmente  nas  Escolas  de  Artes  e  Officios,  no 
Conservatório  das  Artes  e  Offícios,  e  nas  Exposições  Industriais.  As 
Escolas  de  Artes  e  Offícios,  fundadas  em  1803  por  Chaptal,  são 
destinadas a  propagar  os  conhecimentos relativos  ao exercício das artes 
industriais. Ahí, o ensino é ao mesmo tempo theórico e práctico. A idade 
fixada para admissão dos candidatos é de 13 annos pelo menos e de 16 
no máximo”.
29
   
 
 
 
CORRÊA  (1986)
30
  em  “Mudança  Social  no  Nordeste”,  afirma  que  na 
sociedade  nordestina  do  final  do  século  XVIII,  quando  houve  intervenção  dos 
artesãos  –  Revolta  dos  Alfaiates  -,  denominados  de  artistas,  que  eram  os 
artistas, geralmente profissionais pobres e livres: 
 “... que controlavam os segredos e a habilidade para uma arte, 
ofício  ou  atividade  onde  preponderava  o  caráter  urbano, 
possuindo,  de  costume,  os  meios  de  serviço,  isto  é,  as 
ferramentas  e  congêneres,  e  trabalhando,  quer  em  trânsito, 
oferecendo préstimos, quer estabelecidos, recebendo proposta.  
 
Em  seu  “Literatura  dos  Viajantes”,  CALDEIRA  (1991) 
31
,  ao  tratar  do 
“Artesanato e Indústria” relaciona as indústrias existentes, em 1820:  
Quadro VIII 
Especializações 
Quantidade 
Máquinas de descaroçar algodão (no interior 
521 
Teares para algodão (na cidade) 
230 
Forjas de ferreiro, em toda a província 
132 
Alambiques para fazer aguardente (no interior) 
115 
Fornos para telhas e louças de barro (em toda a província) 
27 
Fornos de cal (na ilha do Maranhão) 
26 
Serrarias 
18 
Engenhos de açúcar 
Máquinas a vapor para descascar arroz, em São Luís 
Fonte: Spix e Martius, 1981, II, p. 285  
 
Quanto ao artesanato, Spix e Martius informam existirem: 
                                                           
29
 O ARTISTA, Maranhão, no. 30, Segunda série, 20 de setembro de 1868.
  
 
30
 Correa, obra citada, p. 45 
31
  CALDEIRA,  José  de  Ribamar  C.  O  MARANHÃO  NA  LITERATURA  DOS  VIAJANTES  DO 
SÉCULO XIX. São Luís : SIOGE; AML, 1991, p. 44-48 
 
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16 
 
Quadro IX 
Número de Trabalhadores 
Profissão 
Livres 
Escravos 
Pedreiros e canteiros 
404 
608 
Carpinteiros 
138 
326 
Alfaiates 
61 
96 
Entalhadores 
96 
42 
Carpinteiros navais 
80 
38 
Ourives 
49 
11 
Ferreiros (São Luís) 
37 
23 
Marceneiros 
30 
27 
Pintores e caiadores 
10 
Caldeireiros 
Seleiros 
Curtidores 
Tanoeiros (São Luís) 
Escravos que auxiliam nas indústrias 
 
1.800 
Fonte: Spix e Martius, 1981, II, p. 285, in Caldeira (1991) (grifos meus) 
 
Já  Pereira  do  Lago
32
,  em  sua  “Estatística  histórico-geográfica  da 
Província  do  Maranhão”,  publicada  em  1822,  relaciona,  no  mapa  de  no.  17, 
sobre a indústria do Maranhão, seus operários e o jornal pago: 
 
MAPA DA INDÚSTRIA                                                                                                                 NO. 17 
Em toda a  Província 
Lugar 
Quant 
Máximo 
Jornal 
Mínimo 
Jornal 
Soma 
Comércio e Indústria 
Casas nacionais 
 
Ditas estrangeiras 
 
Homens que vivem da sua 
indústria e comércio 
 
Cidade do 
Maranhão 
 
Dita 
 
Em toda a 
Província 
 
54 
 
 
 
29$550 
 
 
 
 
                                                           
32
 
PEREIRA  DO  LAGO,  Antônio  Bernardino.  ESTATÍSTICA  HISTÓRICO-GEOGRÁFICA  DA 
PROVÍNCIA DO MARANHÃO. São Paulo: Siciliano, 2001
 
 
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17 
Máquinas, Olarias, 
Fornos e Forjas 
- Máquinas de vapor para 
descascar arroz 
- Máquina com besta para 
descascar arroz 
-Ditas de fazer açúcar 
-Ditas de moer cana para 
fazer cachaça 
-Ditas de mão para 
descaroçar algodão 
-Fábricas de curtimento 
-Teares para tecer pano de 
algodão 
-Olarias 
-Fornos de cal 
-Serrarias 
-Forjas 
Cidade do 
Maranhão 
 
Dita 
 
No interior 
No dito 
 
No Dito  
 
Ilha do 
Maranhão 
Na cidade e no 
interior 
Na dita e no dito 
Na Ilha do 
Maranhão 
Em toda a 
Província 
Dita 
 
22 
 
115 
 
521 
 
230 
 
27 
26 
18 
132 
 
 
 
Alfaiates 
 
Livres 
Escravos 
Dita 
Dita 
61 
96 
1:000 
Ditos 
320 
Ditos 
157 
Caldeireiros 
Livres 
Escravos 
Dita 
Dita 
600 
Ditos 
320 
Ditos 
Carpinteiros 
Livres 
Escravos 
Dita 
Dita 
86 
183 
800 
ditos 
320 
Ditos 
269 
Carpinteiros de Machado  Livres 
Escravos 
Dita 
Dita 
96 
42 
1:200 
Ditos 
400 
Ditos 
138 
Calafates 
Livres 
Escravos 
Dita 
Dita 
80 
38 
800 
Ditos 
320 
Ditos 
118 
Espingardeiros 
Livres 
Escravos 
Dita 
Dita 
800 
ditos 
400 
ditos 
Ferreiros 
Livres 
Escravos 
Cidade do 
Maranhão 
Dita 
37 
23 
700 
ditos 
320 
ditos 
60 
Funileiros 
Livres 
Escravos 
Dita 
Dita 

48 
ditos 
320 
ditos 
Marceneiros 
Livres 
Escravos 
Em toda a  
Província 
Dita 
30 
27 
800 
ditos 
400 
ditos 
57 
Outros 
Livres 
Escravos 
Dita 
Dita 
49 
11 
640 
ditos 
400 
ditos 
60 
Pedreiros e Carteiros 
Livres 
Escravos 
Cidade do 
Maranhão 
Dita 
404 
608 
800 
ditos 
320 
ditos 
1.012 
Pintores 
Livres 
Escravos 
Em toda a  
Província 
Dita 
10 
640 
ditos 
400 
ditos 
15 
Sapateiros 
Livres 
Escravos 
Cidade do 
Maranhão 
Dita 
92 
143 
800 
ditos 
400 
ditos 
235 
Seleiros 
Livres 
Escravos 
Dita 
Dita 
800 
ditos 
400 
ditos 
Tanoerios 
Livres 
Escravos 
Dita 
Dita 
480 
ditos 
320 
ditos 
10 
Trabalhadores e 
Serventes 
Livres 
Escravos 
Dita 
 
1800 
 
240 
 
160 
1800 
Criados e  
Feitores 
Brancos 
Pretos Livres 
Em toda a  
Província 
Em toda a 
Província 
560 
200 
Variável 
Variável 
760 
Fonte:  PEREIRA  DO  LAGO,  Antônio  Bernardino.  Estatística  histórico-geográfica  da  província  do 
Maranhão. São Paulo: Siciliano, 2001, p 120-123 
 
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18 
Em  1863,  os  Redatores  d  ‘“O  Artista”  relacionam  as  “artes  praticadas 
nesta cidade”, dentre outras 
“Percorrendo o Almanack do sr. B. de Matos vimos que as artes praticadas 
nesta cidade são as seguintes: 
 “ calafateiro 
“ calafate 
“ caldeireiro 
“ canteiro 
“ carpina 
“ carpinteiro 
 “ ferreiro 
 “ funileiro 
 “ serralheiro 
“ tanoeiro 
 “ torneiro 
 “ fundidor de ferro 
“ pescador. 
 
“Algumas  dessas  artes  são  exercidas  só  por  nacionais,  outras  por 
nacionais e estrangeiros e outras só por estrangeiros. 
“Os estrangeiros quer atualmente exercem artes entre nós são: em maior 
número  portuguezes;  e  em  pequenos  números,  inglezes,  francezes, 
alemães, italianos, e norte-americanos” 
33
 
 
Informa  ainda VIVEIROS (1954) 
34
 que de nacionalidade alemã apenas 
um tal Guilherme Scharff anunciava haver instalado uma fábrica de chapéus de 
seda de todas as qualidades e cores, de formas modernas e preços cômodos. 
Da  colônia  francesa,  tínhamos  aqui  residentes,  um  arquiteto  –  Jean  Baptiste 
Coland – que oferecia ao “Respeitável público os seus conhecimentos relativos 
arte” e dizia residir à Rua Grande, 28, onde morava o Sr. Damazo; e também 
outro  João  Batista,  este  da  família  Pichon,  construtor  naval,  que  podia  ser 
procurado na loja de José Jaufret & Cia, Rua Grande, 15 
35
.  
 
Na antiga Companhia de Navegação Maranhense eram ensinadas as 
artes mecânicas, tão necessárias à manutenção dos navios, conforme informa 
Eurico  Teles  de  Macedo,  em  seu  “O  Maranhão  e  suas  riquezas”,  quando 
recorda que, em 1906, ainda alcançara a velha companhia:  
“No  entanto,  essa  velha  companhia  de  navegação,  ainda  valia  como 
expressão da obra de titãs que a haviam criado para proveito das gerações 
futuras,  e  fácil  era  verificar  os  resultados  práticos  do  ponto  de  vista 
                                                           
33
 O ARTISTA, ano 1, n. 34 São Luís, Sábado, 24 de janeiro de 1863 
34
 VIVEIROS, Jerônimo de. HISTÓRIA DO COMÉRCIO DO MARANHÃO - 1612 - 1895. São Luís: 
Associação Comercial do Maranhão, 1954, p. 376-377 
35
 ECHO DO NORTE, n. 9, 1835. 
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19 
econômico, já alcançados, e também os de ordem educacional-profissional 
conseguidos através dela.... 
 “Essa  oficina  ainda  mostrava  com  eloqüência,  nos  seus  modestos 
operários  e  artífices,  uma  geração  disciplinada  de  especialistas  nos 
trabalhos  metalúrgicos  os  mais  delicados,  que,  ainda  por  muitos  tempo, 
por várias décadas, pude verificar, serviram o Maranhão do meu tempo...  
“Serralheiros, torneiros e aplainadores, ferreiros, caldeireiros de ferro e de 
cobre,  fundidores,  marceneiros  e  modeladores,  enfim,  artífices  e 
mecânicos especializados, maquinistas e motoristas receberam na escola 
prática  de  artes  e  ofícios,  que  foi  a  velha  oficina  da  Companhia 
Maranhense,  excelente  formação  profissional,  tanto  do  ponto  de  vista 
técnico como  do da  disciplina e,  por muito  tempo, transmitiram às outras 
gerações os melhores ensinamentos. Com respeito a artífices, o Maranhão 
sempre se adiantou sobre seus vizinhos do Pará, do Amazonas e do Piauí, 
pois foi o manancial fornecedor de bons artífices a esses Estados.” 
36
.  
 
Com  o  título  “instrução  profissional”,  o  jornal  “O  Artista”  dá-nos  mais 
notícias  dessa  escola  de  aprendizes  mecânicos,  funcionando  na  Casa  de 
Fundição da Companhia de Navegação a Vapor do Maranhão: 
 “... o governo criou, a bem dos artistas desta província, duas escolas que 
ocupam  de  ensinar  geometria  e  mechanica  theorica  e  praticamente.  O 
Administrador da Casa de Fundição, o sr.  Antonio Joaquim Lopez da Silva 
num  Relatório  apresentado  à  Diretoria  da  Companhia  de  Navegação  a 
vapor  do  Maranhão  faz ver a  necessidade que a mesma Companhia e a 
província tenham de desenvolver intelectualmente da classe  artista, e em 
virtude  dos  esforços  da  Diretoria  da  Companhia  teve  lugar  a  criação 
dessas  aulas.  “...  o  Sr.  Antonio  Joaquim  tem-se  esforçado  para  que  os 
aprendizes da Fundição, os que  mais precisam entre nós dessa criação, 
cursem com assiduidade as aulas ...”.
 
37
 
  
 
 
O Sr. Antonio Joaquim, em seu Relatório, fala das dificuldades que vinha 
enfrentando no funcionamento da escola, em especial a freqüência dos alunos 
aprendizes  às aulas.  Alegavam  os pais  de  que seus filhos não tinham roupas 
para  irem  para  as  aulas.  O  Administrador  da  Fundição  indagava,  então,  se 
esses  meninos  andavam  nus  pelas  ruas,  se  não  tinha  roupas  para  sair,  ir  à 
igreja,  ou aos passeios... Como alegar as ausências por falta de roupa? E na 
edição  de  abril  daquele  mesmo  ano,  dita  as  bases  para  os  novos  contratos 
entre a Fundição e os Aprendizes, para freqüência às aulas – uma espécie de 
estatuto ou regulamento da escola:  
“O tempo de aprendizagem varia conforme os offícios a que se dedicarem 
os  aprendizes.  O  offício  que  deve  seguir  o  aprendiz  é  designado  pelo 
                                                           
36
 MACEDO, Eurico Teles de. O MARANHÃO E SUAS RIQUEZAS. São Paulo: Siciliano, 2001, p. 76 
37
 O ARTISTA, Maranhão, 15 de março de 1868, n. 3, Segunda série 
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20 
Administrador  conforme  a inteligência do mesmo aprendiz. O tempo para 
os offícios de carpinteiro e ferreiro será de 5 annos,  e para os offícios de 
modellador,  fundidor  e  machinista de  7  annos,  e  para caldeireiro a vapor 
de  6  annos.    Os  dous  primeiros  annos  para  quaisquer  dos  offícios  será  
sem  vencimentos.  Este  tempo  sem  vencimento  é  meramente  de 
experiência  para  que  o  administrador  possa    conhecer  melhor  a 
intelligência,  comportamento  moral,  e  assiduidade  na  freqüência    das 
officinas,  e  só  depois  d’este  tirocínio  é  que  começarão  a  vencer  um  
pequeno  jornal,  não  excedente  de  1$000  rs.  na  último  anno...  “Todo 
aprendiz é obrigado a freqüentar as aulas noturnas de instrucção primária 
e mechanica aplicada, sob pena de ser demitido se não o fizer. Passados 
os dous primeiros annos, então será lavrado o contracto contando-se para 
isso o tempo que servirão sem vencimentos sugeitando-se o pai, mãi, ou 
tutor do aprendiz, a uma multa de 150$000 se antes de acabar o tempo o 
aprendiz deixar o estabelecimento por qualquer motivo a não ser doença 
incurável..  “Não  se  admitem aprendizes  menores  de 12 annos e mais de 
14 por consideração alguma. Nos dous primeiros annos sem vencimentos 
o  aprendiz  será  obrigado  a  fazer  todo  o  serviço  da  casa  que  lhe  for 
ordenado.. “Fundação em 23 de abril de 1868 
 “Antonio Joaquim L. da Silva”
. 
38
(Grifos nossos). 
 
Na edição de n. 15, de 07 de junho de 1868, Segunda série, é repetido o 
mesmo anúncio, a pedido... 
Em  1838,  Vicente  Tomaz  Pires  de  Figueiredo  Camargo,  pela  Lei  de 
número 77, de 24 de junho, cria o Liceu Maranhense:  
 
"VICENTE  TOMÁS  PIRES  DE  FIGUEIREDO  DE  CAMARGO,  Presidente 
da  Província  do  Maranhão,  faço  saber  a  todos  os  seus  habitantes que  a 
Assembléia Legislativa Provincial decretou, e eu sancionei a Lei seguinte:
 
"Art. 1o. Formar-se-á um Liceu na Capital da província com a reunião das 
seguintes cadeiras:
 
"1
a
 - Filosofia Racional e Moral 
"2
a
 - Retórica e Poética 
"3
a
 - Geografia e História 
"4
a
- Gramática Filosófica da Língua, e análise dos nossos clássicos 
"5
a
 - Língua Grega 
"6
a
 - Língua Latina 
"7
a
 - Língua Francesa 
"8
a
 - Língua Inglesa 
"9
a
 - Desenho 
"10
a
 - Aritmética, 1a. parte de Álgebra, Geometria, e Trigonometria Plana 
"11
a
 - 2a. Parte de Álgebra, Cálculo,  e Mecânica 
"12
a
 - Navegação, Trigonometria Esférica, e Observações Astronômicas 
                                                           
38
 O ARTISTA, Maranhão, n. 9, 26 de abril de 1868 
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21 
"13
a
  -  Cálculo Mercantil, e Escrituração por Partidas Dobradas, formando 
esta Cadeira com a 10a. o Curso de Comércio, e as 10a., 11a. 12a. o de 
Marinha.”
39
 
 
 
Cinco  anos  depois,  em  1843,  é  publicada  reportagem  em  “A  Revista”, 
sobre  a  “reforma  do  lyceu”.  Informa  o  seu  redator  –  Sotero  dos  Reis  -  que 
acabara  de  passar  em  segunda  discussão  o  “regulamento  militar”  que  se 
estava fazendo  para  o  Liceu.  Parecia ou nenhuma alteração foi feita, pelo Sr. 
Raphael  de  Carvalho.  Segundo  a  tal  reforma  “não  haverá  mais  subordinação 
de  matérias,  nem  systhema  de  instrucção”,  mas  tudo  se  fará  “sem  ordem  de 
sucessão de idéias, contra a opinião dos grandes mestres”.  
 
“A cadeira de Geometria fica suprimida com o Curso de Marinha sem que 
se  trate  do  lente;  as  cadeiras  de  Grego  [Sotero  dos  Reis]  e  Grammatica 
philosóphica serão por morte ou vacancia dos lentes atuais, mas a cadeira  
de Commércio do Sr. Rafael fica por graça especial isenta de bela lei que 
elle forja... “
.  
40
 
 
A TÍTULO DE CONCLUSÃO 
 
Ao  se  resgatar  os  indícios  da  formação  técnica-profissional  no 
Maranhão, observamos que as atividades relacionadas ás artes navais – desde 
a  pesca  até  a  construção  de  embarcações,  aparece  desde  o  início  de  nossa 
História, anterior, mesmo que a chegada dos europeus.  
 
Com a chegada destes, já a partir da colonização francesa e, depois, a 
portuguesa,  essas  artes  passam  a  fazer  parte  daqueles  ofícios  encontrados 
quer  entre  os  primitivos  habitantes,  entre  os  para  aqui  trazidos  à  força  pelo 
tráfico negreiro, quer entre os europeus – franceses, português, holandeses,... - 
naquela  época,  povos  que  navegavam  em  direção  ao  Novo  Mundo  e  se 
aventuravam  ao  contorno  da  África,  para  chegar  às  Índias.  Navegar  era 
preciso... 
 
Assim como era necessário, para manter essas embarcações flutuando, 
operários artistas, que atuavam desde sua construção, operação, manutenção, 
reparos... Essa história que se procurou resgatar. A desses artesões... 
                                                           
39
 O PUBLICADOR OFICIAL – 16 de agosto de 1838 
40
 A REVISTA, n. 201, Terça-feira, 26 de setembro de 1843 
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